Brasília, domingo, 18 de agosto de 2002
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Dia dos Pais — 2002(parte I)

Dr. Márcio Lisbôa


  ‘‘Meus amigos, não esqueçam isto. Não existem ervas más, nem homens maus; o que existe são maus cultivadores’’

Victor Hugo

  Embora essa afirmação possa não ser totalmente aceita, ela tem um fundo de verdade, como bem diz o dito popular ‘‘Tal pai, tal filho’’. Alguém já disse que em relação ao ser humano o conceito ‘‘ideal’’ não é aplicável, nem no sentido pessoal ou relacional, com o que não estou de acordo. Conheci pessoas que preenchiam todos os requisitos para serem consideradas como tal, mães, pais, avós, familiares e cidadãos que eu usaria considerar como exemplares. Pessoas admiradas pelos princípios e valores que praticavam e defendiam.

  Nos dias dedicados às mães, aos pais, aos avós, reconheço o quanto fui beneficiado. Ter uma mãe que me adorava, um pai tão bondoso que eu dizia que tinha duas mães. Uma avó que era uma santa e um avô médico que, juntamente com meu pai e meu tio Gaspar, serviram de modelos que eu tentei seguir na minha vida profissional.

  Meu pai foi a única pessoa que conheci que nunca guardou rancor em seu coração. Bondoso, alegre, folião, conseguia estabelecer limites, disciplinar, educar com responsabilidade, usando autoridade e carinho. A criança necessita conhecer, aprender e praticar uma quantidade enorme de normas e limites, conhecer o que é certo e o que é errado, para saber utilizar esses conhecimentos nos momentos adequados. Esse aprendizado exige dos pais muita atenção, carinho, paciência, um bom exemplo, e poucas repreensões e punições. Palmada? Nunca! Ensinou-me o valor do trabalho. Desde pequeno participei das atividades de minha casa. Ajudava, espontaneamente, a lavar o carro, encerar, aguar o jardim, cuidar da horta, das galinhas etc. Isso me foi muito útil pois, como médico, tive que, inúmeras vezes, bancar enfermeiro, motorista, atendente, servente, padioleiro, em benefício dos pacientes, sem nunca me sentir humilhado ou diminuído por isso, até pelo contrário.

  Ensinou-me o valor do dinheiro. Estabeleceu uma mesada de 13 mil réis, pequena, orientou-me como controlar meus gastos e estimulou-me a poupar um pouco. A mesada continuou, logicamente aumentada, até o dia da minha formatura. Um ponto ainda considerado controverso na educação dos filhos é o de que se eles devem ou não participar de conversas sobre as finanças da família. Quando éramos crianças, sabíamos quanto meu pai ganhava e como poderíamos ajudá-lo a controlar os gastos: apagando as luzes, desligando aparelhos elétricos, fechando torneiras, não tomando banhos demorados, coisas que faço até hoje.

  Meus pais se encarregaram de colocar minha auto-estima e minha autoconfianca nas alturas. Elogiavam-me tanto que às vezes me constrangiam. Sempre fui considerado um bom aluno e cada boletim era seguido de uma saraivada de elogios. Nunca me obrigaram a nada, nem a estudar. A alegria deles era tanta que eu me sentia na obrigação de fazer cada vez mais. Com meu pai adquiri o hábito de elogiar as pessoas e sentir como elas ficam felizes com isso. Sou de uma família onde todos respeitam e amam os mais pobres. Meu pai era estimado por todos e raramente perdia a calma.

  Um dia, ao ver o péssimo tratamento dispensado por uma irmã de caridade a um paciente pobre, gritou-lhe: ‘‘Eu me considero um ateu, mas não trato e não admito que tratem uma pessoa desta maneira! O que me espanta é quem faz isso se denomine uma serva de Deus’’. Com mais de 80 anos, tal qual o pai dele, meu avô, virou católico praticante por haver recebido uma graça de Nossa Senhora de Aparecida; meu avô se converteu, ‘‘por via das dúvidas’’, dizia.

  • (Continua no próximo domingo)



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