|
|
|
vida@correioweb.com.br
Estilo de candidato
Com ou sem ajuda dos marqueteiros, presidenciáveis capricham no visual para ganhar mais destaque na briga pelos votos
Thiago Vitale Jayme
Da equipe do Correio
Não adianta ter uma boa mercadoria se, na hora de embrulhá-la, for escolhida uma caixa feia ou um papel brega. A máxima das lojas de grife serve para políticos. Em tempos de eleição, a preocupação com a embalagem aumenta substancialmente. E a preocupação não está apenas no fato de o eleitor ver no candidato uma pessoa bem vestida. Segundo os marqueteiros, o que importa mesmo é a mensagem que a roupa passa para o eleitor. Ar de seriedade para o candidato que tiver a imagem de desleixado, idéia de inteligente se o eleitor pensar que ele não é dos mais preparados... A lista é enorme. O que importa é que, nas eleições, uma roupa bem aprumada pode garantir votos preciosos. Cada detalhe é observado pelos marqueteiros. Para escolher a roupa, é preciso ficar de olho na agenda dos candidatos. Se o evento for uma almoço com empresários (leia-se possíveis financiadores de campanha e importantes cabos eleitorais), o terno deve estar impecável. Até a cor da fivela do cinto — dourada ou prateada — deve estar de acordo com o tom de cor da gravata. Porém, se é uma caminhada na rua, para um corpo-a-corpo com os eleitores, a idéia é tirar o paletó e, até mesmo, dobrar as mangas. Deve-se fugir da imagem (olha a imagem aí!) de almofadinha. Em debates e entrevistas, principalmente na televisão, há um detalhe fundamental: a cor do cenário que ficará atrás do político. O terno, no caso da televisão, é milimetricamente escolhido. É preciso tomar cuidado para a roupa não sumir no contraste com o fundo. E a gravata, de preferência, deve ter alguma coisa a ver com as cores do ambiente. A cor da camisa é importantíssima. Principalmente em debates, a melhor pedida é uma camisa branca. Se o candidato ficar nervoso ou suar com as luzes do estúdio, o suor pode aparecer na gola das camisas coloridas. Leia nos quadros desta página como os quatro principais candidatos à Presidência da República se aprumam para alavancar votos.
|
Serra
Os assessores de José Serra, candidato da Grande Aliança (PSDB-PMDB), não costumam influir no visual do candidato. Ele escolhe seus ternos e, especialmente, as gravatas, sua paixão (principalmente as de cor bordô). Grifes só para gravatas. Não para os ternos. Quanto às roupas informais, prefere camisas sociais de cor azul e calça bege. Nos tempos de ministério, a assessoria de Serra costumava brincar que o ministro tinha ‘‘uniforme’’ de fim de semana — calça bege e as camisas sociais sempre em tons claros. O cinto e os sapatos de fim de semana e comícios são sempre marrons. Mesmo que ele seja apaixonado por ternos e gravatas e dificilmente erre a mão, os marqueteiros acharam melhor contratar mão-de-obra qualificada. Lídia Sá, estilista, entrou na campanha há 15 dias para cuidar do visual do candidato. Ela diz que não mudará o estilo clássico de Serra. Apenas tentará realçá-lo com gravatas mais alegres. Já a candidata a vice, Rita Camata, é adepta do mundo fashion. Por isso, a equipe de produção da campanha, liderada por Bia Aidar e Nizan Guanaes, comprou um lote de roupas — tailleurs, ternos e blazers para ela. Rita mandou devolver tudo. Deu aos produtores uma resposta bem ao estilo da música cantada por Paula Toller, do Kid Abelha — ‘‘Eu vou com as minhas botas, não sou ninguém sem elas...’’. (Colaborou Denise Rothenburg)
|
Garotinho
O visual do candidato Anthony Garotinho, do PSB, é controlado por sua secretária particular, Lourdes Araújo Ribeiro. Dona Lourdes, como é conhecida, acompanha Garotinho há quatro anos e trabalha na residência do candidato. Todos os dias, quando recebe a agenda da campanha para o dia seguinte, define que roupa Garotinho irá vestir e, quando necessário, prepara sua mala com todos os ingredientes: da cueca ao terno, passando pela gravata, lenço e sapatos. ‘‘Ele tem bom gosto e sempre sabe o que quer vestir’’, disfarça Lourdes, tentando prestigiar a autonomia estética de Garotinho. Mas ele já foi obrigado a trocar de sapatos por não passar pelo crivo da secretária. ‘‘Terno preto com sapato marrom não dá’’, afirma Dona Lourdes. O candidato tem preferência por ternos escuros, cinza ou azul-marinho. As cores de suas camisas são, preferencialmente, branco ou azul-claro. E as gravatas, azul ou vermelho. Garotinho compra o ‘‘uniforme’’ na loja Via Veneto. Lourdes — sempre ela — leva as peças da loja para a casa do candidato, que as experimenta e paga por elas. Segundo ela, o candidato não paga mais do que R$ 600 por um terno. (Colaborou Luiz Fernando Godinho)
|
Lula
Não, Lula não usa ternos Giorgio Armani. Seus paletós, gravatas e calças estão bem mais ao alcance dos cidadãos normais. E essa era a idéia do marqueteiro Duda Mendonça: deixar Luiz Inácio Lula da Silva, candidato ex-metalúrgico da aliança PT-PL, com a mesma cara dos executivos que, de pastinha na mão, caminham por calçadas como as da Avenida Paulista. Por ordem de Duda, Lula passou a comprar roupas em uma das lojas mais sóbrias de São Paulo, a Bruno Minelli. É uma garantia de que não haverá riscos. Lula jamais vestirá algo de excepcional, mas também não corre o risco de usar gravata verde-limão por cima de camisa laranja. Não por acaso, a Bruno Minelli é também a loja preferida do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, um político tão insosso que ganhou do articulista José Simão, da Folha de S. Paulo, o apelido de ‘‘picolé de chuchu’’. A roupa de Lula é como Alckmin: simpática, sem exageros. Nem muito caro nem barato demais, em torno de R$ 500 ou R$ 600. Como Lula é baixo e atarracado, Duda optou por mandar fazer as suas camisas em um alfaiate de Salvador. É o marqueteiro quem escolhe os ternos e os combina com as gravatas. Pela estratégia montada para a campanha, Lula deve estar de terno em praticamente todas as ocasiões. Muito raramente aparecerá apenas de camisa. O mesmo vale para seu vice, José Alencar. E sempre com os cabelos e a barba bem aparados. Duda acredita no poder da roupa. (Rudolfo Lago)
|
Ciro
O ex-governador do Ceará Ciro Gomes, candidato da Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB), é um sujeito que não gosta muito que dêem pitaco em suas roupas. Segundo os assessores, é o próprio candidato que escolhe os trajes. Leva sempre três ternos na mala, todos em tons escuros, com camisa clara e gravata em cores sóbrias. Há um propósito. Essa combinação oferece um ar sério, compenetrado e respeitoso. Como é um pouco esquentado em alguns momentos, a roupa pode ajudá-lo a manter a credibilidade. Parece que Ciro fica realmente chateado quando dão opinião sobre suas roupas. Diz a lenda (e as eleições são sempre cheias delas...) que, certa vez, o marqueteiro e cunhado Einhart Jácome da Paz resolveu palpitar. O candidato respondeu no ato: ‘‘Eu não sou sabonete para você querer arrumar a embalagem’’. A história soa como marketing puro dos assessores empenhados em vender a imagem de um sujeito muito seguro de si e espontâneo. Porém, a insistência de Ciro em manter-se alheio a opiniões de terceiros cai por terra quando entra em cena a amada e namorada Patrícia Pillar. Empenhada na campanha, ela passou a dar uns toques na ‘‘embalagem do sabonete’’. E Ciro concorda prontamente. Milagres do amor. (Colaborou Ugo Braga)
|
|
|
|