Brasília, domingo, 18 de agosto de 2002
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Nas águas do Xingu

Dois brasilienses enfrentam 400 km de caiaque e a pé dentro da área indígena, numa aventura prevista para terminar na festa do Quarup. A maratona de Diana e Kike vai até o fim da semana

Leonardo Meireles
Da equipe do Correio

A aventura
Ao todo, serão 11 dias de desafio no Parque Nacional do Xingu. O começo foi na noite de quarta-feira, quando Diana e Kike saíram em direção à Canarãna, no Mato Grosso. Na sexta, deram as primeiras remadas no rio Kuluene. Ainda passarão pelo Xingu e Tuatuari, completando 300km até a aldeia Yawalapiti. De lá, partem a pé para mais 100km até a aldeia Kuikuro. É ali que participarão do Quarup, a tradicional festa indígena de homenagem aos mortos
 
Quando os brasilienses Diana Nishimura, 30 anos, e Luiz Henrique Palma, 43, contaram seus planos para o cacique Aritana, chefe da tribo dos Yawalapiti, o índio riu. O próprio Aritana os havia convidado para conhecer sua aldeia e participar do Quarup na terra dos vizinhos Kuikuro, no Parque Nacional do Xingu, norte do Mato Grosso. Diana e Kike decidiram ir, mas de caiaque. No total, 300km descendo o rio Kuluene e mais 100km a pé, entre uma aldeia e outra.

  ‘‘Por que vocês não usam motor?’’, perguntou Aritana. O raciocínio do cacique é lógico. Se há tecnologia, e com ela dá para se chegar mais rápido ao destino, para que sofrer remando tanto? ‘‘Pela expedição, pela aventura, pela fotografia e pela história’’, explicou Kike. Ou pelo menos tentou explicar. Aritana e seus amigos sorriram novamente, deram de ombros e disseram: ‘‘Tudo bem. Mas não sei se vocês vão conseguir’’.

  Diana e Kike aceitaram o desafio e o convite do cacique. Empolgados exatamente pelas quatro razões que o fotógrafo Luiz Henrique listou. E criaram a Expedição Alto Xingu Brasil Telecom — Refazendo os caminhos de Rondon. No ano passado, Kike foi o único branco fora da Funai a participar do Quarup — celebração do fim do luto pelos índios mortos no ano anterior. Diana também já fez várias travessias do tipo — na Amazônia, chegou a remar mais de mil quilômetros. Essa é a aventura.

  Os dois também queriam conhecer um pouco mais da cultura indígena e das mudanças ocorridas no local. ‘‘Nós lemos toda a literatura sobre o Xingu, suas tribos, a fauna e a flora daquele lugar. Vamos ver o que mudou de lá para cá’’, afirma Diana. Claro, a atleta também se empolgou ao saber que assistiria ao tradicional Quarup.

  Enquanto isso, o fotógrafo e também atleta Kike — ele e Diana disputam corrida de aventura — queria fazer um registro de toda a vida existente nas margens do rio Kuluene. ‘‘E dos índios, mas se eles deixarem. A imagem deles já é explorada demais. Nossa expedição não tem nenhum fim comercial’’, adianta Kike. Essas são as partes expedicionária e fotográfica.
  
Diário do tio
Por fim, uma história emocionante que envolve o próprio Kike. Por causa da ONG Portal do Xingu, o Governo do Distrito Federal doou um terreno em Sobradinho para que os índios que aqui chegassem não tivessem que dormir em pousadas — ou pontos de ônibus — na Asa Sul. Mas, para a construção de um centro indígena, precisavam de apoio financeiro. Kike fotografou as dificuldades encontradas por eles na cidade grande para mostrar a empresários e governo, com o intuito de arranjar dinheiro. Fez de graça e ganhou as graças do cacique Aritana.

  Acabou sendo convidado do chefe para o Quarup do ano passado. Quando contou a experiência ao seu pai, José Palma Filho, este mostrou um antigo diário que tinha em casa. O livro pertencia ao soldado Rômulo Prado, tio de Kike, que, em 1920, esteve no Xingu com a Comissão Rondon. ‘‘A história foi o ponto de partida para que eu voltasse lá. Eu queria fazer de novo o caminho que meu tio fez’’, emociona-se Kike. Por isso, o subtítulo da expedição: Refazendo os caminhos de Rondon. ‘‘Na verdade, queria colocar ‘Refazendo os caminhos de Rômulo’, mas meu tio não era tão conhecido assim’’, brinca. Essa é a história.

  Por tudo isso, Diana também quis entrar na expedição. ‘‘É diferente de uma corrida de aventura, porque tudo é mais ou menos preparado. Agora, é tudo inesperado’’, compara a atleta e professora de canoagem. Eles saíram na noite de quarta-feira em direção à Canarãna, no Mato Grosso. Lá, chegaram na quinta de manhã.

  Na sexta, às 5h, entraram no rio Kuluene e começaram a remar seus 300km até a aldeia Yawalapiti. No caminho, ainda passariam pelos rios Xingu e Tuatuari. Em seis dias, pretendem chegar à tribo e fazer algumas caminhadas ao redor. E na quinta-feira, dia 22, ou sexta, dia 23, vão a pé para Kuikuro, onde participam do Quarup. Fim da aventura.


Comida e tecnologia

  O desafio de Diana e Kike também envolve uma certa tecnologia e uma economia grande, mas necessária. Para comunicação e localização, terão um Globalstar (telefone via satélite) e um Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global), além de mapas, bússolas e curvímetros. Mais uma máquina fotográfica, uma filmadora, 40 rolos de filme, suas respectivas pilhas, e 15 horas de fita.

  Claro, algo importante, a comida. No total, 40kg para os dois. Aí estão incluídos uma refeição diária (feita de carboidratos e proteínas — arroz, macarrão, soja) e suplementos alimentares (energéticos em barras, líquido e gel). Tudo feito por empresas brasilienses (Nutrysports e Green’s). Além disso, uma toalha, meio sabonete e xampu para os dois. Cada um levará três mudas de roupa — uma delas para ser usada na viagem de ida e de volta para Brasília. As que serão usadas no dia-a-dia consistem de uma calça comprida, uma bermuda e duas camisas de manga longa.

  ‘‘Vamos lavar com areia’’, ri Diana, mas falando sério. ‘‘O problema maior será com os mosquitos’’, preocupa-se Kike. Por isso, levarão também quatro vidros de repelente (com 250ml cada um) e mais um filó para proteger o rosto. A preocupação com animais na beira dos rios também é grande. ‘‘Mas vamos tomar todo o cuidado necessário, como não andar à noite’’, conta Diana. ‘‘Também queremos encontrá-los. É um dos motivos da viagem’’, afirma Kike.

  Todo o equipamento será levado com eles dentro de um caiaque. Produzido pela catarinense Akula especialmente para a aventura, a embarcação tem o nome oficial de caiaque oceânico duplo de expedição. É feito de fibra de vidro, tem 6,10m de comprimento e 22kg.

  No final, depois do Quarup, eles tirarão todos os emblemas e adesivos do barco e doarão para os índios. ‘‘Foi ‘idéia’ do cacique’’, ri Diana. E voltam, com a mesma roupa que viajaram de Brasília para Canarãna, em um avião que descerá por lá especialmente para buscá-los. Aventuras são boas, mas um pouco de facilidade também é bem-vindo. (LM)

 
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