Brasília, domingo, 15 de setembro de 2002
CEDOC - Assinaturas - Classificados
 
  
 Capa
Índice
A foto do dia
Últimas
Opinião
Tema do Dia
Eleições 2002

Economia
Cidades
Saúde
Meio Ambiente
Mundo
Cultura
Imprensa
Esportes
 Guia de domingo
 Coisas da Vida
 Direito & Justiça
Gabarito
E-tudo
Lugares
Sobre Rodas
Fim de Semana
Pensar
Emprego
Correio da TV
Este é meu
 A enciclopédia
Brasília-DF
Correio do Brasiliense
Crônica da Cidade
Desabafo
Dicas de Português
Fala Zé
Márcio Cotrim
Receitas de um pediatra
Valéria Blanc
.web

 
  Pensar
pensar@correioweb.com.br
Entrevista / Gerd Bornheim




Simpatia por Sartre

Mesmo sendo pensador afinado com a filosofia de linhagem alemã, Gerd Bornheim foi um importante divulgador das idéias do existencialista francês no Brasil

Nahima Maciel
Da equipe do Correio
Carlos Vieira 9.04.97

 

Gerd Bornheim não era um sartreano. Sua base filosófica estava mais para os alemães — como Heidegger e Hegel — do que para Jean-Paul Sartre, mas o filósofo gaúcho não podia negar o interesse pelo existencialismo do francês. ‘‘Vejo Sartre com muita simpatia. Ele é o homem que assume as contradições do nosso tempo como ninguém’’, disse certa vez em entrevista ao Jornal Existencial, publicação especializada em filosofia. Borheim foi um dos maiores divulgadores do pensamento do francês no Brasil. Cumpriu o papel de historiador da filosofia ao publicar Sartre — Metafísica e Existen-cialismo, uma crítica calcada em Heidegger. Em O Idiota e o Espírito Objetivo, dedicou uma centena de páginas a um ensaio sobre O Idiota da Família, último livro de Jean-Paul Sartre. Foi por conta dessas publicações que o Correio procurou Gerd Bornheim em março de 2000, para entrevista sobre as duas décadas da morte de Sartre, completadas naquele ano. O professor passava por Brasília a convite da Universidade de Brasília (UnB), na qual daria uma aula para alunos do curso de filosofia. Concedeu entrevista, da qual apenas duas frases foram utilizadas para a reportagem. A seguir, a íntegra dessa entrevista.

Carlos Vieira 9.04.97
Bornheim em atividade: Sartre é o existencialista que ajuda a compreender melhor o Marxismo, sem os dogmas e com a presença do humano
 

CORREIO BRAZILIENSE — Sartre era filósofo maldito na França, desprezado pela academia. Mas no Brasil, o existencialismo aconteceu diferente. Houve uma certa moda sartreana?
GERD BORNHEIM
— Teve sim. Na época do existencialismo, a juventude meio rebelde da época era sartreana. Mas até que ponto se conhecia Sartre, é difícil dizer. Essa influência foi mais pela literatura, pelos romances. Foi mais acidental, não foi tão visceral. E depois tem o aspecto político, que não pode ser ignorado. Ele tinha posições muito radicais. E muita coragem. Veio ao Brasil em meados de 1960 para dar apoio à esquerda brasileira.
  
CORREIO — Que influência ele tem hoje nos cursos de filosofia nas universidades brasileiras?
BORNHEIM
— Há muita tese feita sobre Sartre. A presença dele é bastante disseminada na filosofia, na psicologia, nas ciências sociais. Toda a questão da dialética hoje passa por Sartre, porque ele tem a Crítica da Razão Dialética, que é fundamental. Tem que passar por aí. Todo o diálogo com o marxismo hoje não pode ignorar Sartre. O Marx não dogmático foi antecipado por Sartre de certa maneira. É aí que Marx começou a se sedimentar como filósofo. Antes era um líder dogmático. Mesmo depois da guerra era complicado, não se falava a respeito de Marx nas universidades. Sartre é que começou a abrir as portas de fato. Então não podemos esquecer essa dimensão política que é fundamental.
  
CORREIO — O senhor poderia falar um pouco sobre Sartre e a fenomenologia?
BORNHEIM
— Em primeiro lugar tem a consciência, que é fundamental e co-extensiva à existência humana. Sartre não aceita o inconsciente. O homem é instantaneamente consciência. Em segundo lugar, a idéia fundamental é a intencionalidade, que não é uma questão intelectual, é mais ampla, não pega só a inteligência. Pega também as emoções, os sentimentos, tudo é mais ou menos intencional. E essa idéia da intencionalidade é radicalizada por Sartre. Ele é tão radicalmente intencional que se não existe o intencionado, ele não é nada, é nada de consciência. É por isso que ele diz que, radicalizando a intencionalidade, o fundamento do homem é o Nada. O Nada não é nenhum mistério. O Nada é a distância do sujeito. Eu sou definitivamente separado de tudo que me cerca e de tudo que tenho consciência. A consciência me impede de me identificar com as coisas. Eu estou separado e essa separação é justamente o Nada. Eu sou sempre meio duplo, coisa que o animal não tem.
  
CORREIO — E o existencialismo, como o senhor define?
BORNHEIM
— Posso definir como a existência humana. Ou posso dizer que seja o humanismo.
  
CORREIO — Oposta a uma filosofia da essência?
BORNHEIM
— Não tem essência nenhuma para Sartre. Ele se oporia a uma filosofia da essência. A consciência está em primeiríssimo lugar. Em segundo, está a dicotomia sujeito-objeto e na intimidade da dicotomia sujeito-objeto está instalado o Nada. Mas toda realidade é ou sujeito ou objeto. Sujeito e objeto deslocam tudo. Sartre é o primeiro que afirma que sujeito e objeto são intercambiáveis. Numa relação entre duas pessoas, uma tende a ser mais sujeito e outra tende a ser mais objeto. Sempre. Ele chega a dizer que toda relação é sadomasoquista, o que não quer dizer patológica, mas tem um grau da sadomasoquismo porque ou bem sou objeto do outro ou bem transformo o outro em objeto meu. Não dá para fugir dessa desigualdade. O sadomasoquismo de fato define a situação da intersubjetividade.
CORREIO — E o amor?
BORNHEIM
— Não existe. É uma ilusão. Não é que não exista, mas não tem estabilidade, tem que ser conquistado a cada momento. Procurar sacramentar o amor, institucionalizar o amor no casamento, na família, isso tudo é falso. Só o ato de responsabilidade absoluta nesse instante é fundamental em todo o existencialismo de Sartre. Agora, isso não quer dizer que não se pode aceitar a norma.
  
CORREIO — Ele tinha pavor do determinismo...
BORNHEIM
— Exatamente. O determinismo pode ser biológico, social, psicológico. Sartre não aceitava nenhuma forma de determinismo. Ele achava que o homem inventa esse determinismo para se proteger contra a liberdade, porque é difícil ser livre. Há é responsabilidade absoluta. Não é uma coisa aleatória, você tem que reinventar a responsabilidade em função de cada ato cometido.
  
CORREIO — E como esses mecanismos estão presentes na literatura de Sartre? Essa literatura era uma forma de difundir o existencialismo?
BORNHEIM
— Fenomenologia é a consciência, a intencionalidade. O método é esse. Ele vai falar em método mesmo a propósito do marxismo, é a primeira parte, a introdução da dialética dele. Toda a parte literária de Sartre é excessivamente filosófica e acho que isso é uma limitação. O que ele faz, é na literatura tornar didáticas as próprias teses. Tornar mais acessíveis porque são teses que se prestam magnificamente bem a isso. Aí sim, as teses são filosóficas e se expressam literariamente. Agora, O Ser e o Nada tem um rigor metodológico de análise, de descrição dos fenômenos. Isso ele faz e faz muito bem. Em A Náusea, por exemplo, ele faz uma fenomenologia da Náusea, e é a melhor que existe. Faz uma fenomenologia do sentimento que é perfeita.
  
CORREIO — Qual a contribuição de Sartre para compreender o marxismo?
BORNHEIM
— O propósito fundamental de Sartre na Crítica da Razão Dialética é desdogmatizar o marxismo. Ele diz que o marxismo é a filosofia mais importante dos nossos tempos, porque as questões colocadas pelo marxismo não foram resolvidas. Em segundo lugar, esse pensamento todo se tornou dogmático e falta nele o sentido do que seja o homem. Falta a liberdade. Sartre diz que a dialética stalinista é contra a liberdade. Critica o fato de que na dialética, a negação e a contradição seriam enfraquecidas. E o importante é justamente a contradição. Para Sartre, é fundamental o processo de totalização. Para se integrar ao processo, não se pode sair do processo e a totalidade sempre é gradativa, ela volta a cair no processo, ela é fatal, de certa maneira, mas tem que ser reabsorvida pelo processo. É a história sendo feita, é uma tentativa enorme de humanização da dialética e do marxismo. Se o partido aceitaria isso, é outro problema.
  
CORREIO — Por isso ele nunca aceitou entrar para o Partido Comunista?
BORNHEIM
— Ele namorou o PC, mas nunca entrou. Se ele entrasse, teria que seguir o programa do partido e o programa impede a reinvenção. Sou determinado pelo programa. Em O Ser e o Nada e Crítica da Razão Dialética ele fala das maneiras como a sociedade tenta cercear as liberdades do homem sepultando o individual. O ‘‘nós’’ é falsificador através de dois caminhos: da serialidade — tudo sempre é a mesma coisa, não há possibilidade de escolha —, e da repetição. É a inércia. Através da repetição da serialidade, o homem tende a ficar inerte. Se nega na sua condição de homem. A repetição mecaniza o homem e a inércia reduz à inação.



ESTANTE

BRECHT — A ESTÉTICA DO TEATRO
Paz e Terra, 384 páginas.
R$ 38,50.
  

FILóSOFOS PRÉ-SOCRÁTICOS
Cultrix, 128 páginas.
R$ 12,00.
  

O IDIOTA E O ESPÍRITO
Uapê, 195 páginas.
R$ 20,00.


INTRODUÇÃO AO FILOSOFAR — PENSAMENTO FILoSóFICO EM BASES EXISTENCIAIS
Globo, 165 páginas.
R$ 21,50.
  

METAFÍSICA E FINITUDE Perspectiva,
232 páginas.
R$ 24,00.
  

SARTRE — METAFÍSICA E EXISTENCIALISMO
Perspectiva, 320 páginas.
R$ 24,00.
  

O SENTIDO E A MÁSCARA
Perspectiva, 119 páginas.
R$ 14,00.

 
 Domingo
Segunda
Terça
Quarta
Quinta
Sexta
Sábado
 Brasileirão
 Guia do brasileirão 2002
100 anos de JK
 Ele e nós
 Juscelino e o poder
 Nunca fomos tão felizes
 De Nonô a Juscelino
 Os últimos dias
 O legado de Juscelino
         
  Política de Privacidade Fale com a gente Publicidade
© Copyright - Todos os direitos reservados ao Correio Braziliense e CorreioWeb.
Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast ou redistribuído sem prévia autorização.