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música
Rei dos bolachões
Batendo de porta em porta, jovem brasiliense juntou mais de 7 mil discos e fundou o Museu do Vinil, no Guará, que reúne raridades. O museu é aberto à visitação pública
| Kleber Lima |
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Ricardo, o criador do museu: ‘‘Via muitas capas no lixo e imaginei que os discos também estavam sendo jogados fora e que ninguém estava salvando eles’’
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Sábado de manhã. O tempo pode estar chuvoso ou o sol castigando. Para o produtor cultural Ricardo Retz o programa já está marcado na agenda. Munido de um carrinho de compras e de muita boa vontade, Ricardo, 30 anos, sai pelas ruas em busca de novos exemplares para a sua coleção, no caso, discos de vinil. Em dois anos e meio de peregrinações pelas quadras do Guará, onde mora, conseguiu arrecadar 7 mil bolachões. Fã de rock, Ricardo teve a idéia de resgatar os discos quando trabalhava em uma fábrica de reciclagem de papel. ‘‘Via muitas capas no lixo e imaginei que os discos também estavam sendo jogados fora e que ninguém estava salvando eles’’, conta o produtor, que não tem aparelho de CD em casa. A constatação transformou o rapaz no protetor dos vinis. Ele mesmo já tinha mil LPs quando iniciou a cruzada e passou a pedir doações aos vizinhos. Sem preconceitos, Ricardo aceita doações de toda espécie. Os Menudos, por exemplo, são recebidos com igual entusiasmo que clássicos do rock, pérolas da axé music, pagode e temas de novelas. As coletâneas de músicas que embalaram pares românticos em telenovelas globais, aliás, são os itens mais arrecadados nas andanças pelo Guará. Mas, vira e mexe, consegue salvar do esquecimento raridades como um álbum de Araci de Almeida (aquela do Show de Calouros do SBT) cantando Noel Rosa, de 1939, o mais antigo da coleção. ‘‘A maioria das doações é feita por pessoas mais velhas. Muita gente pergunta se eu não quero também levar vitrolas’’. Os equipamentos, assim como revistas especializadas em música e cartazes e filipetas de shows antigos. Aos poucos, os discos começaram a não caber mais na casa que Ricardo divide com a esposa — localizada na QI 22, do Guará II. Foi preciso improvisar um pequeno barracão nos fundos do terreno para abrigar tantos discos e quinquilharias afins. O local acabou se transformando no Museu do Vinil, hoje aberto à visitação pública. Para dar um pulo lá é preciso marcar hora, já que o responsável pelo museu não vive exclusivamente para isso. Pelo menos por enquanto. ‘‘Tem muito disco mofando e nunca consegui catalogar tudo que arrecadei’’, lamenta. Por isso, Ricardo está colocando suas idéias no papel e pretende pedir apoio ao Ministério da Cultura. O sonho do produtor cultural, que já foi vocalista da banda Canelas de Cachorro, é ter um local adequado para guardar e preservar o material. A salinha apertada e quente nos fundos da casa — que abriga ainda um mini-zoológico com direito a coelho e tartaruga — recebe ainda poucas visitas. Professores de escolas públicas em busca de cantigas de roda e estudantes de músicas são os principais freqüentadores do Museu do Vinil, que possui em seu catálogo duas coleções completas da obra do rei Roberto Carlos. Democrático, o espaço abriga o punk rock dos Dead Kennedys, Chopin, Xuxa, Oswaldo Montenegro, Beatles, Lulu Santos, entre outros. Sambas enredos e hinos de times de futebol também fazem parte do amontoado, que guarda ainda raridades como um LP com a narração de todos os gols da seleção Canarinho na Copa do Mundo de 1970. Para democratizar a cultura do vinil, Ricardo presta ainda mais um serviço aos interessados em conhecer o museu. Por R$ 15, ele grava um CD com média de 35 músicas escolhidas a gosto do freguês. O dinheiro é usado para cobrir os custos com a gravação e para eventuais reparos no local. Parte dos discos repetidos acompanham o morador do Guará em suas investidas em busca de novas aquisições. Cada dois discos doados são trocados por um do acervo do museu. ‘‘Uma vez salvei um disco que uma menininha fazia de enceradeira’’, conta, aos risos, lembrando de uma de suas empreitadas. A luta pela preservação dos discos ganhou até defensores. O amigo Leonardo Saraiva decidiu escrever um manifesto de apoio ao museu intitulado Salvem os Discos do Retz ou Força Tarefa Pelo Museu do Vinil. Além de contar a saga do salvador dos vinis, o ‘‘documento’’ apresenta ainda uma proposta para a organização de um mutirão para limpeza e catalogação do acervo. ‘‘O resgate de projetos dessa natureza certamente significa também promover a melhoria desse mundo tão cruel em que vivemos. Arte, cultura, música. Alimentos da alma’’, afirma o admirador.
Serviço
Museu do Vinil
Quem quiser visitar o museu pode agendar uma visita com Ricardo Retz pelo telefone 9961-6814.
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