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Abrace-me, por favor
Técnicas da terapia familiar ajudam os pais a reconquistar a confiança dos filhos e recuperar o respeito perdido
Lilian Tahan
Da equipe do Correio
| Adauto cruz |
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Depois que a filha mais nova (à direita) começou a exagerar no cartão de crédito e nas festinhas, Elizabeth procurou a ajuda da terapia familar. Agora, elas são só abraços
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Domingo à tarde, poucos segundos depois de terminado mais um episódio de Sandy & Junior, Maíra Theresa, 4 anos, dá sinais da memória de elefante: ‘‘E aí, mãe? Vamos ao surpermercado?’’. Para a garotinha, estava de pé o que havia sido combinado na sexta-feira à noite. Os pais preferiam que ela tivesse esquecido. O passeio seria a primeira oportunidade de mãe e filha testarem o abraço do urso. A pequena Maíra não tinha idéia do que aconteceria nas próximas horas, mas a mãe, Maria Helena Costa, estava preparada para começar uma batalha.
O alarme de emergência soaria ao primeiro sinal de birra da menina. A arma? Um abração de, no mínimo, no mínimo, uma hora. Não se trata de castigo premeditado. O abraço do urso faz parte da orientação da terapeuta familiar que o casal procurou no ano passado. ‘‘Chegou a um ponto em que as decisões dela tornaram-se mais importantes que as nossas’’, conta Maria Helena, gerente de loja de roupas no Lago Sul.
De fato, a menina de cabelos louros e sorriso gordinho passou a ser a rainha da casa de dois andares no Lago. E os pais, seus súditos. A cada esbravejada de Maíra, uma conquista. E os berros tornaram-se freqüentes: para usar a sainha amarela, andar sem chinelos, dormir depois da novela das nove e comprar, pelo menos, quatro tipos de salgadinho.
Pois o basta começou naquele dia do supermercado. Quando Maíra Theresa ensaiou gritar depois de receber um NÃO no corredor de guloseimas, foi surpreendida pelos braços firmes da mãe. Durante 60 minutos, seguindo a orientação da terapeuta, Maria Helena largou o carrinho de compras e envolveu a filha sem dar explicações. No meio do supermercado. Maíra chorou, gritou, esperneou e até mordeu o braço da mãe. Em vão. Ela continuou firme na missão. E ainda repetiu a experiência diversas vezes em outras ocasiões. Hoje, a menina está bem mais calma e não reage mais com tanta intransigência aos nãos que recebe dos pais.
E por que abraçar? Quem justifica são os especialistas. ‘‘O gesto é uma mensagem concreta para a criança: eu dedico o meu tempo a você porque te amo’’, interpreta o terapeuta Carlos Arturo Molina-Loza. Autor de sete livros sobre relacionamento familiar, ele afirma que a violência e o descaso não resgatam a autoridade dos pais. As birras são a forma da criança dizer: ‘‘Ei, pai. Ei, mãe. Eu estou aqui, me dêem atenção’’.
Nesse caso, um tapinha corretivo (não estamos falando de surras) estabelece um contato muito breve com o filho. Assim que passa o ardido das mãos, passa também o efeito do castigo. Ignorar a criança chorando também não é a maneira mais indicada. Na cabeça dos pequenos, não dar ouvidos às suas lamúrias significa dar pouca importância ao problema.
Molina-Loza lembra que a terapia do abraço só funciona no caso de crianças até os sete anos de idade. E não pode ser usada sem o acompanhamento de um especialista. A terapia parental prega, também, que a ligação física, o abraço, o beijo, o elogio, o diálogo aberto e as palavras de carinho são a base para a construção de uma relacionamento sadio.
Mas não se pode confundir atitudes amorosas com doses extra de mimo. Os filhos precisam entender que há comandantes dentro de um lar. ‘‘Quando se perde essa noção, eles se julgam auto-suficientes’’, diz Molinas. Como a criança não encontra limites, se sente superpoderosa, e ao mesmo tempo desprotegida.
Quando eles viram marmanjos, os braços dos pais ficam pequenos para dar o abraço do urso. Mas a terapia do contato parental continua a valer. Só que agora com técnica um pouquinho diferente. Até porque os motivos de discussões deixaram de ser os doces e salgadinhos. O que importa nessa fase da vida são as festinhas, os namorados e os amigos. A expressão da revolta evolui das birras para os xingamentos malcriados.
Na adolescência, torna-se mais evidente a perda da autoridade dos pais. Os filhos têm mais argumentos e força para impor a moral perdida pelos adultos. Isso não quer dizer, no entanto, que seja impossível reconquistar o respeito. O livro Autoridade sem Violência — O Resgate da Voz dos Pais (Ed. Artesã), lançado esse mês em Brasília, ensina como fazer isso.
O autor, o terapeuta Haim Omer, relata vários casos em que os pais testaram a terapia presencial. O resultado foi sempre muito positivo. Em um deles, o adolescente fez do quarto o seu esconderijo. No forte apache, ninguém poderia entrar. Nem mesmo para limpar. O motivo? A família não sabia por que, até aceitar a sugestão da psicóloga para desmontar os limites impostos pelo filho. Durante um mês, pai e mãe se infiltraram no cômodo do menino. Nos primeiros dias, ele se enfureceu. Mas os pais não explicaram por que faziam aquilo. Depois, ele tornou-se indiferente. Com algum tempo, voltou a conversar e não se incomodar com as visitas. Aos poucos, deixou transparecer o motivo de sua revolta: ciúme da irmã mais nova.
Na casa de Rafael, 10 anos, Abdalla, 15, Isabela, 18, e Renata, 20, o problema não é ciúmes. Eles aprenderam a dividir o afeto. Na família Naum, o que tem tirado o sono de da mãe, Elizabeth, são as raves, os namorados e o cartão de crédito dos filhos. ‘‘Na última viagem para o Rio, voltei chateada com Isabela, porque percebi que ela não tem limites para gastar’’, lembra Beth. Em janeiro, Belinha abusou na conta de celular. Torrou o equivalente a vários salários mínimos em conversas telefônicas.
O exagero foi a gota d’água para os pais procurarem a ajuda da terapia familiar. ‘‘Desde a primeira sessão, sabia que daria certo’’, comemora Elizabeth. Ela aprendeu, por exemplo, a repetir exaustivamente, sempre usando a primeira pessoa: ‘‘Você é meu filho. Eu sou sua mãe e te amo muito. Por isso... quero que você arrume o quarto, não volte de madrugada, estude mais e não exagere no celular’’.
Tem dado certo. Rafaela já está mais comedida. Voltou a se dedicar aos estudos. E até está trabalhando em uma boutique de roupas. Antes disso, passou um mês fazendo curso de marketing empresarial no Sebrae. ‘‘Depois da terapia, os argumentos da minha mãe melhoraram bastante’’, elogia a menina.
Mesmo sem concordar com tudo o que a mãe pede ou diz, Isabela passou a respeitar as decisões de Elizabeth. Melhor mesmo. Porque uma das técnicas ensinadas pela terapeuta da família, Mônica Mulatinho, é deixar claro para o filho: ‘‘Se for preciso vou até o fim do mundo por você’’. E quando um dos filhotes resolve bater o pé e dizer que vai a uma rave, por exemplo, não dá outra. Elizabeth logo avisa. Se você for, eu vou também!
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Crie um canal de amorosidade
1 Sempre que se dirigir ao filho (a), defina funções de pai e mãe: Sou sua mãe (pai), amo muito você, e gostaria...
2 Abrace os filhos no mínimo três vezes ao dia. Não é um abraço espontâneo, é um abraço planejado, dever de casa dos pais. Sempre que abraçar, pense: seu coração vai ouvir o meu coração
3 Elogie-os sempre, mesmo que seja repetitivo. Perceba o que seu filho fez de positivo e pergunte-se: qual a qualidade de uma pessoa que faz isso? Só depois de resaltar os pontos positivos, chame a atenção para o que está errado.
4 Comece a falar sempre com a palavra EU...
5 Repita sempre ao seu filho: vou até o fim do mundo atrás de você. Quando ele quiser ir a algum lugar sem o seu consentimento, diga a ele que vai também
Serviço
Autoridade sem violência
O resgate da voz dos pais
Editora Artesã — (31) 3227-1453
Fonte: Cia. do Adolescente
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