Brasília, sexta-feira, 27 de setembro de 2002
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Eleições 2002

Escândalo das fitas
Mais direitos de resposta

Justiça concede nove minutos ao Correio no horário eleitoral de hoje e amanhã. O jornal já ganhou 13 chances de se defender dos ataques da coligação Frente Brasília Cidadã na semana passada

Da Redação

|Nehil Hamilton
Costa Leite, ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça: ‘‘Tentativa de desqualificar o jornal atenta contra a própria democracia’’
 
O Correio Braziliense ocupou pela segunda vez o horário da Frente Brasília Cidadã para esclarecer a população do Distrito Federal. O jornal recebeu um minuto no horário eleitoral gratuito da noite de ontem. Foi direito de resposta às ofensas feitas pela coligação que apóia o governador Joaquim Roriz (PMDB) contra Paulo Cabral de Araújo, presidente do Correio e do Grupo Associados, e Ricardo Noblat, diretor de redação do jornal.

  Mais direitos de resposta virão. O juiz eleitoral substituto Jair Oliveira Santos concedeu, no final da tarde de ontem, três minutos para o Correio no programa eleitoral da noite de hoje. E seis minutos e meio na noite de sábado. Ao todo, 13 pedidos de resposta foram concedidos ao jornal. Até o fechamento desta edição, faltavam ainda mais três pedidos a serem julgados.

  Ainda na tarde de ontem, o plenário do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF) confirmou os cinco primeiros direitos de resposta concedidos no domingo por Jair Oliveira Santos. ‘‘A tendência é o plenário confirmar as demais decisões do juiz’’, acredita o advogado do Correio, Francisco Caputo.

  No direito de resposta exibido ontem, foi rebatida a acusação de que Ricardo Noblat e Paulo Cabral teriam desviado R$ 172 milhões, verba destinada pela União ao Associados a título de indenização, em 1997. O dinheiro recebido pelo grupo, na verdade, foi aplicado nas próprias empresas, conforme demonstram documentos à disposição da Justiça.

  O juiz Jair Oliveira Santos considerou ‘‘calunioso, difamatório e injurioso’’ o ataque da Frente Brasília Cidadã. O magistrado também decidiu que críticas e notícias publicadas no Correio a respeito do Governo do Distrito Federal ou do governador não podem ser interpretadas como trabalho contra a candidatura de Roriz.
  
Liberdade
O advogado Paulo Costa Leite, ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), manifestou-se ontem sobre os ataques ao Correio. ‘‘A tentativa de desqualificar e atemorizar um jornal, que não fez senão cumprir o seu dever de bem informar a sociedade, atenta contra a própria democracia, que tem na liberdade de imprensa um dos seus mais importantes pilares de sustentação’’, diz Costa Leite.

  O primeiro direito de resposta concedido ao Correio, exibido na noite de terça-feira, ainda repercute pelo Distrito Federal. Naquela ocasião, Paulo Cabral fez pronunciamento exaltando imprensa independente dos governantes. ‘‘Paulo Cabral foi muito feliz na busca por uma imprensa livre, uma imprensa que não seja tutorada por qualquer governo’’, afirma o jurista Luiz Carlos Alcoforado. ‘‘O TRE agiu certo ao conceder direitos de resposta ao Correio. E continuará concedendo, enquanto a liberdade de imprensa for ameaçada.’’

  A intervenção de Paulo Cabral também agradou a Romeo Olmar Klish, coordenador brasiliense do Movimento Nacional pelos Direitos Humanos. ‘‘Paulo Cabral mostrou seu compromisso pessoal e o da instituição Correio Braziliense com a liberdade de imprensa, sem se curvar a quem esteja temporariamente no poder’’, acredita Klish. ‘‘Fazemos nossas as palavras de Paulo Cabral, tão firme que ele foi na defesa dos direitos humanos.’’


Entrevista - Lúcia Hippolito

‘‘O Brasil desconhece a realidade do coronelismo vivido na capital da República”

A indignação da cientista política

Marina Oliveira
Da equipe do Correio


  Lúcia Hippolito, cientista política e historiadora, é apaixonada pela democracia. A sua obra mais conhecida, o livro De Raposas e Reformistas, trata do mais longo período democrático já vivido pela República brasileira, entre 1946 e 1964. Talvez por isso, os eventos da campanha eleitoral do Distrito Federal — com o candidato ao governo pelo PMDB, Joaquim Roriz, atacando o Correio Braziliense durante a propaganda política — tenham causado tanta indignação na professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A seguir, os principais pontos da entrevista concedida pela pesquisadora.

DEMOCRACIA
  ‘‘Ataques desse tipo (de Roriz contra o Correio) sempre causam fraturas muito fundas na sociedade, difíceis de recompor depois de passado o período eleitoral. O Brasil tem problemas muito sérios a resolver e precisamos juntar forças e não criar fissuras no tecido da sociedade.’’

CORONELISMO
  ‘‘Acho que hoje o Brasil desconhece a realidade do coronelismo vivido na capital da República. Brasília tem uma coisa muito parecida com o Rio de Janeiro, na época em que era a sede do governo federal. Havia então como hoje duas políticas: uma de frente, das grandes lideranças nacionais, mostradas pelos veículos de comunicação e outra nos fundos, local, marcada pelo atraso e o clientelismo. A segunda, nunca ganhou o espaço merecido nos jornais. Acho um pavor a falta de cobertura da política local em todas as cidades brasileiras, inclusive nas grandes metrópoles como São Paulo.’’

PROPAGANDA
  ‘‘Numa democracia, o uso de um horário eleitoral para atacar um órgão da imprensa não existe. A propaganda política é uma concessão da Justiça Eleitoral para o debate de idéias, somente. É claro que existe um elemento de sadismo no eleitor que gosta de ver uma pancadaria. Mas existe uma dose certa, em algum momento a população mostra seu desagrado com essa prática.’’

 
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