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grilagem
Racha na conexão Passos
Ouça o trecho em que Pedro Passos pede ajuda a Roriz para conter Eri Varela, presidente da Terracap, que estava atuando na fiscalização de uma área de interesse dos Passos, no Lago Sul.
Governador é informado de ilegalidade
e nada faz para punir os envolvidos
Da Redação
| Edílson Rodrigues / 23.08.2002 |
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Roriz prometeu a Pedro Passos agir a seu favor na briga com o presidente da Terracap, Eri Varela
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| Carlos Moura / 23.10.2001 |
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Pedro Passos pediu a interferência do governador na sua disputa com a Novacap por 221 hectares de terras públicas
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| Nehil Hamilton / 16.09.2002 |
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Íntimo de Roriz, que trata como pai, Pedro fatura
a amizade com o slogan “o amigo do governador”
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| Wanderley Pozzebom / 27.07.2002 |
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Weligton, secretário de Comunicação: escalado para tirar notícias sobre grilagem do Jornal de Brasília

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Uma escuta telefônica feita pela Polícia Federal com autorização judicial revela que a relação entre o governador Joaquim Roriz e os irmãos Pedro e Márcio Passos, acusados por parcelamento ilegal do solo, são mais estreitas do que se pensa e vão além da simples amizade ou parceria na criação de cavalos.
Trechos de gravações feitas a pedido de promotores de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal foram anexadas a uma ação penal pública que se encontra na 1ª Vara Criminal do Distrito Federal. O objetivo da escuta era investigar a grilagem de uma área de 221 hectares localizada atrás das QIs 27 e 29 do Lago Sul, conhecida como Chácaras Mansões do Lago. Mas o que veio à tona com as gravações, em vez do simples esclarecimento de mais um esquema de grilagem de terras, foi uma extensa rede de tráfico de influência e corrupção com tentáculos nos poderes do Distrito Federal.
No esquema, ocupam lugar de destaque os irmãos Pedro e Márcio Passos, o governador Joaquim Roriz, o presidente da Terracap, Eri Varela, e integrantes do alto escalão do GDF. O teor das conversas lança suspeitas ainda sobre a atuação de deputados distritais.
As conversas deixam claro que Roriz sabia que eram os irmãos Passos os responsáveis pela tentativa de implantação de um condomínio no Lago Sul, a menos de 1km dos pilares da terceira ponte. Os diálogos mostram que o governador prometeu a Pedro intervir para que a Terracap não impedisse a abertura de ruas no loteamento. Na mesma conversa, o caçula dos Passos diz a Roriz que o presidente da Terracap, Eri Varela, recebeu propina “para ficar quieto”. O governador nada fez para apurar a denúncia.
Dos 221 hectares do loteamento clandestino, 127 são terras públicas. Por causa da denúncia, o juiz da 1ª Vara Criminal decretou a prisão preventiva de Pedro Passos, Márcio Passos e do topógrafo Vinício Jadiscke Tasso no último dia 11.
A denúncia do Ministério Público está contida em um CD multimídia que inclui 58 trechos de conversas. A maior parte delas é de diálogos entre Pedro, Márcio, Vinício e o advogado Salomão Szervinski. Nas conversas, os quatro reclamam que fiscais da Terracap estavam tentando impedir o loteamento e culpam o presidente da empresa, Eri Varela, pela operação. Nas conversas, Varela é insultado pelo grupo, que promete reagir. Uma das formas de reagir, conforme deliberação de Pedro e Márcio nos telefonemas, é pedir a interferência de Roriz para que o loteamento prossiga.
Um dos diálogos interceptados é justamente a conversa em que Pedro Passos pede ao governador que interceda em seu favor junto a Varela. Na gravação, Roriz demonstra apreensão por causa da briga em seu quintal. Finalmente o governador promete ao amigo tratar do assunto com o presidente da Terracap.
O trecho comprova várias suspeitas em relação à ligação de Passos com Roriz. Demonstra que o governador sabia da atividade ilegal dos irmãos Passos. Mostra que, em vez de tentar coibir a tentativa de invasão da propriedade da Terracap, Roriz promete ao amigo falar com Varela. Fica claro ainda o controle exercido pelo GDF sobre um jornal da cidade que havia noticiado a implantação do loteamento com base na denúncia de uma moradora do Lago Sul. No diálogo, Pedro pede ao governador que encarregue o secretário de Comunicação, Weligton Moraes, de colocar um fim às notícias sobre o parcelamento.
O telefonema não deixa evidente apenas a ligação de Roriz com as atividades dos Passos. Compromete também o próprio Eri Varela. Ao reclamar do presidente da Terracap, Pedro faz um desabafo aparentemente indignado a Roriz. Afirma não entender o objetivo de Eri ao coibir o loteamento. Acrescenta que o presidente da Terracap recebeu uma “chácara” e 20 lotes em “outro loteamento” como sua parte no negócio.
Resumindo: no curto diálogo, o governador é informado de um crime (o parcelamento de uma área pública), promete interceder para que o crime prossiga sem intromissão do poder público e recebe a denúncia de que um auxiliar (o presidente da Terracap) aceitou propina para permitir a livre atividade de loteadores.
Quase 50 dias depois do episódio, não se tem notícia da instauração de qualquer procedimento administrativo para apurar a acusação. Pelo contrário: Varela está até hoje no cargo. Nesse período, Roriz reafirmou em público ser amigo de Pedro Passos.
A investigação do Ministério Público coincidiu com um período de forte turbulência no governo, justamente por causa do loteamento do Lago Sul. Um acompanhamento das conversas em ordem cronológica mostra que a operação de fiscalização da Terracap, em agosto, desencadeou uma guerra no primeiro escalão. Pedro cobra dos integrantes do governo lealdade e vista grossa. Mas esbarra na intransigência do presidente da Terracap – que, segundo Pedro, teria começado a persegui-lo quando este decidiu se lançar candidato a deputado distrital.
Durante o período em que os promotores acompanharam as conversas dos Passos, os irmãos tentaram, em primeiro lugar, dialogar com Eri Varela. Depois, fazer com que Roriz enquadrasse o presidente da Terracap. Em seguida, partiram para a ameaça. O nível de tensão vai aumentando e atinge o ápice quando Márcio Passos informa ao Correio Braziliense possuir um dossiê com cerca de 100 gravações de integrantes do primeiro escalão do GDF envolvidos em recebimento de propina para regularizar condomínios.
Disputa eleitoral
A guerra entre os Passos e Varela deixou Roriz sob fogo cruzado. Ele é amigo de Pedro Passos, que o trata como pai. O governador é acusado de assinar atos de governo em benefício de pessoas apontadas como “laranjas” dos amigos, considerados os maiores grileiros de Brasília pela CPI da Grilagem, em 1995. Ele cria cavalos em parceria com o caçula dos Passos e chegou a avalizar um empréstimo de US$ 1 milhão concedido pelo banco Bamerindus à empresa dos amigos, sete anos atrás. Roriz aparece abraçado a Pedro em vários outdoors da campanha e o candidato adotou o slogan “o amigo do governador”.
Varela acompanha o governador desde a CPI do Orçamento, em 1993, quando Roriz foi investigado por suspeita de corrupção e enriquecimento ilícito. O advogado é considerado um arquivo vivo e é tratado com deferência por Roriz. Em uma das conversas, Pedro diz para o presidente da Codeplan, Durval Barbosa, que Roriz tem medo de Varela e estaria sendo chantageado.
O estopim de toda a disputa foi o lançamento da candidatura de Pedro Passos a deputado distrital pelo PSD. A identificação com Roriz fez o candidato penetrar em redutos de aliados antigos do governador, que não gostaram nada da estratégia do caçula dos Passos. Ainda por cima, Pedro está amparado em uma estrutura de campanha milionária, coordenada pelo ex-secretário de Desenvolvimento Econômico Lázaro Marques.
Durante três anos Marques comandou o programa Pró-DF, que concede incentivos fiscais e econômicos para pequenas, médias e grandes empresas se instalarem em Brasília. Um dos principais atrativos do projeto é a concessão de lotes comerciais e industriais por preços até cinco vezes menores que os de mercado. A secretaria de Marques concedeu cerca de 4 mil lotes do gênero no período e esse capital político se transferiu automaticamente para Pedro Passos.
Um exemplo da transferência é Santa Maria, um dos pólos industriais do Pró-DF, onde o nome “Pedro Passos” pode ser visto em praticamente todas as ruas. Santa Maria, porém, é reduto eleitoral de Eurides Brito (PMDB), ex-secretária de Educação amiga de Eri Varela. A disputa por votos foi um dos fatores que levaram Varela a intimidar os Passos, o primeiro impulso da atual crise.
As gravações mostram que, a partir do momento em que os Passos são informados que fiscais da Terracap derrubaram cercas e desfizeram piquetes no condomínio que eles tentaram implantar, a sensação inicial dos loteadores é de revolta e, em seguida, de desespero. “O Eri vai acabar com nós (sic), Pedro”, diz Márcio, em conversa com o irmão. “A CPI da Grilagem não conseguiu acabar com nós, o Ministério Público não conseguiu acabar com nós, mas o Eri vai conseguir”, reclama.
Ele deixa claro nas conversas o motivo da preocupação: dinheiro. Dá a entender que os compromissos assumidos com a campanha do irmão a deputado distrital dependem da implantação do “ML” (Chácaras Mansões do Lago). Daí a urgência de obter um acordo político para não prejudicar o empreendimento.
A conversa de Pedro com Roriz se deu às 18h04 do dia 12 de agosto – um mês antes de decretada a prisão preventiva do caçula dos Passos. Pedro é tratado com intimidade pela secretária que atende a ligação.
“A única coisa que eu quero é que ele (Varela) não mexa. Só. Vão cuidar de outra coisa, vão cuidar de eleição”, diz Pedro a Roriz. “Vou falar com ele agora”, responde o governador.
Para entender o caso, o Correio selecionou oito conversas contidas no CD encaminhado à Justiça, publicadas a sguir em ordem cronológica.
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A derrubada
Às 15h27 do dia 8 de agosto último, Márcio informa ao irmão Pedro, por telefone, que uma equipe de fiscais da Terracap está na área do futuro loteamento Chácaras Mansões do Lago. Na denúncia feita pelos promotores, fica claro que não era a primeira vez que isso acontecia. Dois meses antes, a Terracap desencadeara operação parecida, abortada por interferência política.
Dessa vez, porém, a ação parecia diferente para os Passos, que deixam claro nas conversas que, até então, se julgavam com poder suficiente no governo para barrar qualquer fiscalização contrária a seus interesses. Nesse diálogo, Márcio diz a Pedro que o advogado Salomão Szervinski estava tentando contornar a situação.
Szervinski conseguiu na Justiça autorização para cercar quase um terço da área. Ele disputa a propriedade do terreno com a Terracap. Os promotores também pediram a prisão prevetiva dele, junto com a dos irmãos e a do topógrafo Vinício Jadiscke Tasso, mas o pedido foi negado.
Pedro – Oi.
Márcio – Tem quatro equipes da Terracap, os caras não dão nome, não falam no telefone.
Pedro – (Incompreensível) barrar eles lá.
Márcio – Não tem jeito de barrar. O Salomão está pelejando pra vir, mas não quiseram atender nem o Salomão.
Pedro – Manda lá de qualquer jeito, tá?
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Tentativa de diálogo
Quatro minutos depois da conversa anterior, nova ligação. O diálogo deixa claro que Pedro estava na Terracap, onde tentava obter alguma explicação de Eri Varela. Mas até então não tinha sido recebido.
Márcio afirma se encontrar na casa do Weligton, que pode ser o secretário de Comuncação, Welington Moraes. Ele foi lá pedir a ajuda de Welington para tentar falar com o presidente da Terracap. Márcio informa a Pedro o resultado. Varela teria dito a Welington que não sabia da operação na área. Os Passos não acreditam e aguardam uma resposta. Segundo Márcio, “isso é sacanagem do Eri”.
Márcio – Oi, Pedro.
Pedro – Oi.
Márcio – O Welington ligou pro Eri aqui agora. Ele tá se fazendo de surpreso, fazendo de conta que não sabe.
Pedro – Quem?
Márcio – O Eri.
Pedro – De surpreso, como assim?
Márcio – Que não tá sabendo de nada.
Pedro – Falou pra quem?
Márcio – Pro Weligton
Pedro – Ahn.
Márcio – Estou aqui na casa do Weligton, Weligton está vendo a minha movimentação.
Pedro – O Weligton ligou pra ele?
Márcio – Ligou pra ele, perguntou se ele autorizou alguma operação e ele “não”, que está surpreso.
Pedro – Ah, surpreso, tá certo...
Márcio – Você falou com ele?
Pedro – Não. Estou parado aqui (incompreensível) pra falar com ele, mas ele não quer me receber. Vou esperar mais um pouquinho aqui.
Márcio – Você está aí na Terracap?
Pedro – Estou.
Márcio – O Weligton acabou de falar com ele aí agora. Você está na porta dele?
Pedro – Estou na porta dele.
Márcio – Ele está se fazendo de surpreso. Tem quatro equipes da Terracap aqui, quatro equipes e estão detonando o pau. (incompreensível) o governador mesmo. Isso é sacanagem do Eri.
Pedro – Vamos esperar, vamos ver como é que é.
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Perdendo a paciência
Às 16h10 do mesmo dia, ou seja, pouco mais de 40 minutos depois da ligação anterior, novo diálogo. No intervalo entre uma e outra ligação, Pedro conseguiu falar com Varela, mas parece não ter ficado satisfeito com o resultado do encontro. O presidente da Terracap teria dito que a responsabilidade pela operação era do diretor técnico da fiscalização da empresa, José Gomes Pinheiro Neto.
Não fica claro, na conversa, onde Pedro se encontrava nessa hora. Ele dá a entender que está aguardando o governador Joaquim Roriz. E diz para Márcio que vai romper com Roriz se o governador não “tomar um aprovidência”.
Os dois irmãos demonstram extrema irritação com Varela. Chegam a planejar enviar ao escritório do presidente da Terracap o filho de Márcio, Walmar Passos, para agredir o advogado.
Márcio – Ô, meu irmão, bom?
Pedro – Oi.
Márcio – Agonia do caralho, viu?
Pedro – Ahn.
Márcio – A desmoralização não pode ser maior.
Pedro – É. Eu estou parado na porta aqui, só falta chutar a porta, eu vou enfiar a mão na orelha dele aqui.
Márcio – Ele não te recebeu não?
Pedro – Não. Estou esperando ele sair na porta aqui. Tem segurança aqui.
Márcio – O próprio (incompreensível), cheio de história, dizendo que...
Pedro – Ele eu já falei com ele. Diz que não é ele não, que é o Pinheiro, que ele não está sabendo de nada. Estou aqui pra brigar é com o governador. Ou o governador toma uma providência, ou eu vou romper com ele agora.
Márcio – O Eri ligou pro Weligton e disse “fui eu mesmo que mandei”. Eu estava junto. Assisti o telefonema. “Fui eu que mandei, já falei com o Pedro, fui eu mesmo, eu mando mesmo”.
Pedro – É.
Márcio – Cara filho da puta. Será que o governador vai tomar uma providência, Pedro?
Pedro – Não sei. Se não for (incompreensível) o Walmar (incompreensível) enfiar a mão na orelha do Eri (incompreensível).
Márcio – É só você me falar que eu vou (incompreensível) agora e meto a mão no meio da cara dele.
Pedro – Me dá um prazinho só pra eu falar com o governador e acionar o Walmar e o Eustachio e vai pra lá e xinga ele lá dentro da Terracap, faz um escândalo, alopra mesmo pra valer lá dentro. Já vai acionando o Walmar aí. Lá no segundo andar você xinga ele de tudo, a mãe dele, a vó dele.
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Desespero
| Jefferson Rudy / 09.10.2001 |
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Márcio Passos: medo de ser destruído por Eri Varela, coisa que, segundo ele, nem o Ministério Público conseguiu
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11h08 da manhã do dia seguinte, 9 de agosto. Pedro está aflito e se dirige ao heliporto do Corpo de Bombeiros para esperar o governador. A peregrinação desde o dia anterior parece não ter dado o resultado esperado pelos Passos, que passaram da irritação ao desespero.
Márcio e Pedro conversam por telefone enquanto Pedro espera a chegada de Roriz. Márcio orienta o irmão a fazer um apelo emocionado ao governador. “Ele (Varela) está tocando nós no ponto que nós temos mais vulnerável. Ele aprendeu o lugar que ele acaba com nós. Tem que pedir pro governador, falar “pelo amor de Deus, pelo amor da mãe, pelo amor dos filhos”, pelo amor do que que ele for sensível, dele dar um jeito de ajudar nós. Dá folga pro cara 30 dias, 60 dias, põe ele em outra secretaria, põe ele junto do Benjamim (provavelmente Benjamim Roriz, ex-secretário de governo), põe ele de coordenador da campanha”, recomenda.
Márcio, em seguida, desaba. Afirma que Eri Varela vai destruí-lo, coisa que nem a CPI da Grilagem nem o Ministério Público conseguiram.
Márcio – Oi, Pedro, bom?
Pedro – Passei lá pra falar com o Salomão, dei uma faladinha rápida com ele (incompreensível) que tava errado lotear aquilo, que (incompreensível), aquilo outro e tal, falei: — Uai, quero saber se nós vamos nos unir pra nós manter a posse ou se nós vamos entregar a posse pra Terracap.
Márcio – E aí, o que que ele te falou?
Pedro – Que “que que é isso, vão tomar a posse”? Eu disse vai, vai fazer um loteamento.
Márcio – E aí? O que que ele te falou?
Pedro – “Não, porque não vai, porque nós tem (incompreensível)”. Pois é, (incompreensível) agora nós vamos ficar sem a posse.
Márcio – Foi bom.
Pedro – Estou parado aqui no bombeiro (Corpo de Bombeiros), o governador vem pegar o avião, o helicóptero aqui no bombeiro.
Márcio – (incompreensível) vai dar mais uma falada com ele?
Pedro – Vou. Estou esperando aqui que eu pego ele aqui no bombeiro.
Márcio – Fala pra ele que esse cara quer acabar com nós. Pô. Hoje estava lá arapongando, saiu de lá já, arapongando o ML (Mansões do Lago) e arapongando o BH (Belo Horizonte). Qual que é a armação que esse palhaço quer?
Pedro – Tem que ir atrás da Lia (provavelmente uma advogada do grupo) agora.
Márcio – A Lia só volta dia 18 ou 28. Hoje é 9 ainda.
Pedro – Então vamos reagir do jeito que nós puder, então.
Márcio – Isso, vamos reagir, tá?
Pedro – Mas não sei se vale a pena não, viu, Márcio? Nós chutar o pau da barraca de vez, não. Não sei se vale a pena não. Porque é uma história de tudo ou nada, né? Nós podemos derrubar ele, mas também a conseqüência pra nós é imprevisível.
Márcio – Eu acho que o que precisa muito você já está fazendo bem é (incompreensível) ele, pô, eles tão judiando demais de nós, né? Tá uma sacanagem muito grande com a gente. Precisava nos dar um pouco de proteção.
Pedro – (incompreensível) é porque o cara também está partindo pra (incompreensível). Remédio pra doido diz que só outro doido. Tá todo mundo em pânico no governo. A gente ficou até duas horas da manhã em reunião (incompreensível) por conta disso. Ele tá reagindo. Não tá faltando reação dele não. O cara chantageia ele, ele tem medo do cara, ele acha que o cara também é dono da verdade. É uma briga terrível. É uma briga que, pra poder ter desfecho nesse clima que está aí, só se tiver um dum lado, outro do outro derrotado. Ou nós derrota ele e expulsa ele da cidade, ou ele expulsa nós, se nós continuar nesse trem.
Márcio – Pois é, mas o problema é o seguinte: se nós recuar, nós também tamos expulsos da cidade. Ele vai acabar com nós. Você vai deixar ele acabar com nós?
Pedro – Agora tem que avaliar se vale a pena a gente recuar e esperar pra ver se ele vai atacar mais.
Márcio – Não tenha dúvida. Ele está atacando lá agora. Ele está arapongando no BH. Ele está arapongando no ML, ele vai acabar com nós. O objetivo dele é acabar com nós.
Nós não chegamos no fim da campanha com cheque sustado. Não queira esperar pra ver se ele vai virar bonzinho, não. Ele vai definitivamente nos destruir.
Pedro – Mas e aí nós vamos partir pra guerra?
Márcio – Não. Nós não damos conta de partir pra guerra. Nós não temos bomba, nós temos traque. Nós temos humildade de pedir ao governador que ele pode ajudar nós. Fale: pelo amor de Deus, o senhor protege nós que tem gente que vai acabar com nós. (Incompreensível), ó, se o senhor tem alguma consideração, alguma coisa pra nós dar, nos dê proteção que ele vai nos destruir. O importante é isso. (incompreensível) dar murro, nós vamos presos, vem a imprensa, adianta nada isso. Esse barulho que nós tinha que fazer, nós tinha que fazer. Agora nós temos que ir lá e pedir pro governador, pelo amor de Deus, beijar os pés dele, chorar pra ele e falar não deixa esse cara acabar com nós, ele vai acabar com nós. Eu não tenho condição nem de chegar no fim da campanha se esse cara fizer mais uma ação contra mim. E ele pode fazer. Por quê? Porque volta o cheque. É só voltar o cheque e como é que nós pagamos funcionário, como é que nós rodamos mais uma semana? Ele está tocando nós no ponto que nós temos mais vulnerável. Ele aprendeu o lugar que ele acaba com nós. Tem que pedir pro governador, falar “pelo amor de Deus, pelo amor da mãe, pelo amor dos filhos”, pelo amor do que que ele for sensível, dele dar um jeito de ajudar nós. Dá folga pro cara, 30 dias, 60 dias, põe ele em outra secretaria, põe ele junto do Benjamim, põe ele de coordenador da campanha. Ele tem que entender que o outro vai nos destruir. Ninguém deu conta de nos destruir e esse vai nos destruir por causa do momento que nós estamos. Ninguém deu conta. A CPI (da Grilagem) não destruiu nós, os bandidos tudo não destruiu nós, o Ministério Público não destruiu nós, o Eri vai destruir nós.
Pedro – É. Vamos ver.
Márcio – Tá bom. Tá. Falou.
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“O grupo”
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Durval
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| Ricardo Borba / 19.09.2001 |
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Eri Varela, presidente da Terracap, principal obstáculo ao loteamento das qis 27 e 29 do Lago Sul, por parte dos irmãos Passos
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No mesmo dia 9 de agosto, às 17h49, Pedro conversa com o delegado Durval Barbosa por telefone. Durval é irmão do administrador Regional de Ceilândia, Milton Barbosa, e ocupa a presidência da Codeplan. Próximo de Eri Varela, ele se oferece para atuar como intermediador no conflito. A preocupação dele é evitar a destruição do grupo.
Durval e Pedro usam a expressão “grupo” para designar, aparentemente, as pessoas mais próximas do governador. “Você sabe que o grupo é muito forte, a gente está num grupo só. Se tem um desconectado, a gente vai tentar conectar”, diz Durval.
Pedro resume em uma frase a situação delicada de Roriz naquele momento: “Eu gosto do governador como se fosse um pai meu, eu defendo ele em tudo quanto é lugar, mas o Eri tem que entender que, se ele partir pra destruir a gente, a gente não pode também se deixar destruir quieto, né, Durval?”.
No mesmo dia, pela manhã, Márcio Passos enviou a Eri Varela uma ameaça por escrito, com fotos da ação de fiscais da Terracap na área. Durval parece muito preocupado com a evolução da tensão no grupo. Ele e Pedro demonstram esperança de que tudo se resolva. “Briga só interessa para a oposição”, diz Pedro.
Na conversa, fica claro que Márcio Passos teve um sério desentendimento com o secretário de Comunicação, Weligton Moraes, amigo do grupo, que trabalhou para os Passos como assessor de imprensa na época da CPI da Grilagem, em 1995. Pedro diz a Durval que Márcio estava arrependido da discussão e tinha ido para a fazenda esfriar a cabeça.
Pedro – Oi.
Desconhecido – Tudo bom? Como é que estão as coisas?
Pedro – Estou aqui pelejando pra ver se passa a raiva desse troço, está demais, chega está doendo o corpo.
Desconhecido – Imagino. Continua?
Pedro – Tive mais notícia não, desliguei um pouco (incompreensível). Só deitei lá em casa pra ver se esquecia um bocado. Cancelei meus compromissos depois do almoço. Agora que eu estou voltando. Tem comício seis horas. Teve alguma notícia aí?
Desconhecido – Não. (incompreensível) aquilo que eu te falei. Até os companheiros estão vendo que tem algo, né? Tem um aqui que que quer falar com você, o Durval. Dá uma faladinha com ele.
Durval – Fala, meu prezado.
Pedro – Ô, Durval.
Durval – Tudo bom?
Pedro – Bom. Eu tentei ligar pra você à beça.
Durval – Eu tentei ligar pra você e não consegui ligar. Eu estava querendo resolver essa coisa pra gente conversar antes de fazer qualquer ação, né? E a coisa ontem ficou um pouquinho arredondada, apesar do estresse do dia, mas quando foi hoje, o negócio modificou, eu fiquei muito puto.
Pedro – Rapaz, eu não consigo entender. Eu sempre idolatrei aquele cara, sempre falei bem dele, gosto dele como pessoa, pra que que ele faz um negócio desse comigo, Durval? (incompreensível) vir falar que aquilo lá vai causar prejuízo (incompreensível), aquilo está paradinho, nem o Ministério Público falou uma linha contra aquilo, ninguém falou. Foi aprovado em novembro, rapaz. Está lá quietinho, paradinho, tinha ninguém mexendo naquilo. Por pura inveja, por pura sacanagem, rapaz. Aí ele fala “ah, mas o Pinheiro botou no papel que é terra pública”. Tem dez pareceres do governo do PT, do governo do Roriz, de todo mundo (incompreensível) que aquela merda é particular, até do Ministério Público tem parecer. Mesmo assim, pra poder ver se ele se aquietava, eu falei com ele com toda humildade, com toda humilhação, falei “Eri, se você está mesmo preocupado, eu faço um compromisso com você”, dois meses atrás, quando ele começou a querer atacar. Começou do dia em que eu falei pra ele que sou candidato. Que ele veio contra: “Não, vai mexer com isso não, tal”. Do dia que ele viu que eu iria, ele começou com esse negócio. E eu: “Então eu vou fazer um trato com você. Ninguém nem passa mais perto daquilo, pra você não ter nenhuma preocupação, tá bom”. Ninguém nunca mais bateu um prego lá, ninguém nunca mais mexeu naquela porra de dois meses pra cá, tinha ninguém falando naquele assunto. Não entendo como é que ele fez isso comigo não, Durval. Não consigo, rapaz. Hoje eu passei a tarde inteira acamado, com dor no corpo, rapaz, rezando para passar a raiva porque, porra, é muita sacanagem, Durval.
Durval – Pelo velho, não tinha acontecido isso, você sabe que não teria, né?
Pedro – Como é que é?
Durval – Pelo velho, não teria acontecido isso. Inclusive eu conversei com o velho hoje, tal. Ele falou “ô, meu Deus, que que ele tem?” Falou desse jeito, tá? Então, por ele não aconteceria isso, você sabe que não. Você sabe que o grupo é muito forte, a gente está num grupo só. Se tem um desconectado, a gente vai tentar conectar, vamos ver. Pedro, vamos fazer essa travessia essa semana pra gente deixar as coisas acalmarem e fala pro Márcio não ficar fazendo ameaça não.
Pedro – Já parou, já parou. É porque ele (incompreensível).
Durval – Mas mandou hoje por escrito.
Pedro – Mandou não.
Durval – Mandou, chegou hoje quase meio-dia.
Pedro – Falando o quê? Falando o quê?
Durval – Ah, chamando ele (Eri) de canalha, dizendo que ele está prejudicando a família (incompreensível) que esse governo, que ele ajudou, a mesma coisa. E mandou umas fotos, umas fotos até escaneadas no micro, que traz caminhão da Terracap, da derrubada, tal. Aí, o seguinte: se a gente pegar e recolher...
Pedro – Ô, Durval, sabe o que aconteceu ontem? Deixa eu te falar. Ontem eu tive que apartar briga de irmão dentro de casa. (Incompreensível) tudo enfurecido, querendo ir atrás dele de qualquer jeito.
Durval – Eu sei disso.
Pedro – Passei a noite inteira acordado, controlando isso. Hoje de manhã... Agora, tem uma coisa, Durval, você sabe que nos momentos mais difíceis eu mantenho o equilíbrio, eu gosto do governador como se fosse um pai, eu defendo ele em tudo quanto é lugar, mas o Eri tem que entender que se ele partir pra destruir a gente, a gente não pode também se deixar destruir quieto, né, Durval? Aí não pode, né?
Durval– Mas o negócio é o seguinte. Não vamos fazer um enfrentamento agora, porque os dois enfrentamentos seriam ruins.
Pedro– Não, tá não. Tá quieto. Já acalmei todo mundo. Já fiz o Márcio ir embora pra fazenda. Já está acalmando aqui. Agora, ele tem que parar, porque se ele não parar, continuar lá mexendo, né, aí é foda. Se ele não parar...
Durval – Acho que o que ele tinha que fazer, já fez hoje, né (uma carta com ameaças a Eri Varela)? Hoje fez um peteco lá. Então, acho que daí pra lá já não tem mais o que fazer, tá? Eu tenho certeza de que isso aí não é o pensamento do chefe. O pensamento do chefe é aquilo que o Weligton te passou. É aquilo que nós acertamos. Por que que eu não fui conversar contigo? Porque eu estava lá com ele tentando demover ele (incompreensível). E a gente tentando compor porque ele me ouve. Tá? Mas nós deixamos esse troço redondo, pra deixar fazer essa travessia legal. Direitinho, esses dias todinhos, pra ver que que acontecia e tal, pra ver se não tinha nenhum levante por aí, negócio de imprensa, de Ministério Público.
Pedro – Isso aí tudo inventado por ele, rapaz. (incompreensível) tava tudo quietinho, quietinho.
Durval – Aí, que que acontecia? A gente deixava (incompreensível) isso aí pra mais tarde, o que que a gente vai fazer, e tal, e aí termina, você sabe que termina você (incompreensível) lá dentro. Não teria problema nenhum. Nós deixamos isso aí já era quase uma hora da manhã. Aí quando foi hoje de manhã eu tive essa notícia, botei até gente lá com ele e tal. Deixa eu te dar garantia, já que o pessoal está ameaçado, vou deixar pessoas aqui, tá? Mas é claro que ele sabe que não vai acontecer nada.
Pedro – É. Foi no calor da emoção aí...
Durval – Então é o seguinte: quando foi hoje e eu soube dessa notícia (a ameaça feita por Márcio a Varela), eu fiquei muito triste, fiquei muito triste mesmo. Aí eu estava no salão. Terminou ali, eu fui pra casa dele e falei: “Vamos conversar, que porra é essa?”
Pedro– E que que ele está falando? Que que ele fala pra você?
Durval – Ele fala o seguinte: “Eu nunca desautorizei uma operação, quem faz isso aí é o Pinheiro e eu nunca fiz isso, eu fico ruim perante”.
Pedro – Pinheiro está até doente, bicho. Não está trabalhando. Como é que o Pinheiro (chefe da fiscalização da Terracap) que autorizou? Conversa...
Durval– Mas isso aí eu quero conversar esse troço com você pessoalmente.
Pedro – Eu só quero que os amigos conscientizem o seguinte: não tem jeito de uma parte do grupo continuar ganhando, e bem, e uma parte do grupo ser massacrada. Não tem jeito disso, né? Acho que todo mundo tem que se conscientizar disso aí. Eu já agüentei quatro anos, ó, eu não tenho um contrato no governo, nossa família não tem um contrato no governo, não tem (incompreensível) que foi feito pra me beneficiar. As coisas que eu consegui, tipo isso aí, eu consegui sozinho, pagando por fora, de forma humilhante, de forma fodida. Tudo bem, passado é passado. Agora, eu só quero que o grupo conscientize que não é possível que o grupo ache que tem condição de uma parte do grupo ficar bem e eu ficar sendo o bandido da história. Não é possível que ele ache isso. Querer que eu submeta a família inteira... não tem jeito. Sabe, Durval, eu vou até o ponto aonde eu não desagregar minha família, aonde eu não destruir minha família eu vou até naquela linha ali. Do ponto aonde eu tiver que desagregar minha família e destruir minha família, aí não pode contar mais comigo, né? Eu não faço ameaça. Você nunca ouviu história de eu fazer ameaça, de eu fazer chantagem. Eu sou um cara que eu sou amigo, sou companheiro, gosto de todo mundo, mas a linha do limite meu é o ponto da desagregação e da destruição da minha família. Dali pra frente eu não posso mais.
Durval – Chegou aqui seu concorrente Zé Edmar (deputado distrital José Edmar, do PMDB).
Pedro – Isso não é concorrente, não. É parceiro.
Durval – Seu parceiro, né? Tá. Aí o seguinte: eu falei com ele o seguinte: “Poxa, você está vendo eu querendo ajudar o Pedro, o Zé ajudando o Pedro, muita gente do governo ajudando o Pedro. Mas se (incompreensível) vem para destruir, como é que a gente faz? Eu acho o seguinte: eu já vi esse negócio. Já teve uma crise anterior. Aí depois a gente vai bater um papo pessoalmente, pra gente estrategizar esse negócio melhor.
Pedro – Aqui tá calmo. Meu irmão foi pra fazenda, eu estou indo pra Ceilândia fazer comício. Eu te agradeço e te peço pra continuar ajudando a apaziguar esse trem. Porque o interesse da gente é o bem de todo mundo, né, Durval? Briga só interessa pra oposição. Detonar os outros só interessa pra oposição. É desse jeito, uns detonando os outros, é que acaba derrubando um grupo inteiro, né?
Durval – É. Eu vou pra casa dele (Eri Varela) amanhã de novo, tá?
Pedro – E bate nessa tecla com ele, bicho, que eu sempre prestigiei ele, que eu tenho uma verdadeira adoração por ele, elogio. Como é que ele faz isso comigo, bicho?
Durval – Mas é meu tema, é meu tema. Tá certo? No que depender de mim não tem confusão, tá? Vou fazer isso só porque você é meu amigo. Agora, eu acho o seguinte: seu irmão não pode ficar fazendo isso (ameaçando Varela). Aí, em vez da gente resolver, a gente piora a situação.
Pedro – Ele já foi embora pra fazenda. Mas eu não posso tirar a razão dele não. Aquilo foi muita sacanagem. Eu já fiz (incompreensível) ver que ele tinha que pedir desculpa. Imagina, ele (incompreensível) o Weligton é porque ele está muito desequilibrado. O Weligton ajudou nós, nunca fez nada contra. (Incompreensível) que nós batemos na porta do Weligton, encontramos o Weligton de pé, pronto pra ajudar, ajudando. Ele tem consciência disso, está envergonhado, me pediu pra pedir desculpa pro Weligton. Quer ir lá pedir desculpas pro Weligton. Pra fazer isso é porque o cara está ensandecido, bicho, pra brigar com a própria mulher, porra.
Durval – Isso é verdade. Mas é o seguinte. Olha, eu estou aí. Eu estava doido pra arredondar. Nós arredondamos essa coisa. Hoje degringolou de novo. E o Weligton ficou muito decepcionado. O Weligton ficou muito decepcionado. Eu fiquei decepcionado. O Zé ficou. O Zé Eduardo (provavelmente, José Eduardo Quariguazi Frota, sobrinho e assessor de Roriz) ficou.
Pedro – É, mas vamos falando, Durval.
Durval – Vamos. Vamos falando. Conte comigo, tá?
Pedro – Um abraço.
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O pedido
Clique aqui para ouvir o trecho abaixo.
| Paulo Carvalho / 26.04.2000 |
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Pedro conseguiu de Roriz um compromisso de que a Terracap não atrapalharia seus negócios
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Pedro Passos ligou para a residência oficial de Águas Claras às 18h04 de 12 de agosto. Nesse dia, o Jornal de Brasília havia publicado uma matéria a respeito da atuação da Terracap na área de interesse dos Passos no Lago Sul.
A matéria, pequena, teve pouco destaque na página 7 do jornal e saiu com o título “GDF retoma área grilada no Lago Sul”. Pedro, atendido com familiaridade na residência oficial, abre o jogo com Roriz. Diz que há muitos interesses por trás do caso.
Por fim, pede ajuda para conter Eri Varela. “A única coisa que eu peço para o senhor é falar assim: ó, some lá de perto, gente, não vai lá mais não, pra que vocês ficar caçando briga no mato?”, disse Pedro a Roriz. “Vou, vou, vou, vou”, respondeu o governador, que completou: “Eu achei que a nota foi muito boa, que saiu no Jornal de Brasília. Falou as coisas mas não botou o nome de ninguém. Aquilo foi maravilhoso”. Mas Pedro Passos foi direto ao que interessava.
“Pois é. Mas agora, isso aí é um vespeiro, governador. Uma bomba atômica. Se não mexer nisso aí, melhor, porque o tanto de gente... tem vários desembargadores com lote lá. O próprio Eri tem. Vou contar pro senhor: o Eri recebeu um lote na minha mão, recebeu chácara. Ele está é mal servido, achando que a gente ganhou mais. Eu vou contar isso aí tudinho pro senhor”, disse.
Roriz demonstra preocupação com a briga e fica satisfeito quando Pedro diz a ele que seus irmãos concordaram em resolver tudo na Justiça. “Isso. Parabéns”, disse Roriz.
Pedro, porém, obtém de Roriz o compromisso de falar com Varela. O que o caçula dos Passos queria era pelo menos uma trégua até depois das eleições. Para terminar, ele pede que Roriz mande o secretário de Comunicação, Weligton Moraes, falar com o editor de Cidades do Jornal de Brasília, José Luiz de Oliveira, para esquecer o assunto. O jornal não publicou mais nada sobre o caso.
Voz de mulher – Residência oficial de Águas Claras, boa-noite.
Pedro Passos – Boa-noite, eu queria falar com o governador.
Voz – Quem fala, por gentileza?
Pedro – É Pedro Passos.
Voz – Oi, dr. Pedro, é Coracy (provavelmente, uma secretária), tudo bom?
Pedro – Ô, Coracy, tudo bem?
Coracy – Tudo bem, graças a Deus. Dr. Pedro, só um minutinho, por gentileza.
(silêncio)
Coracy – Dr. Pedro Passos?
Pedro – Oi.
Coracy – Só um minutinho que ele está em outra ligação. Assim que ele desocupar eu consulto, tá bem?
Pedro – Tá.
Coracy – E a campanha, tá ótima?
Pedro – Tamos indo aí, né. Ajuda a gente aí.
Coracy – Tenho visto muita coisa e conquistado muitos votos também.
Pedro – É. Ajuda a gente aí, Coracy.
Coracy – Com certeza, vai dar tudo certo. Vai ser um dos mais bem votados.
Pedro – Se Deus quiser.
Coracy – Um minutinho, por gentileza.
(silêncio)
Coracy – Pedro Passos?
Pedro – Oi.
Coracy – Vou tentar passar agora, boa-noite, um abraço.
Pedro – Boa-noite.
Roriz – Alô.
Pedro – Ô, governador.
Roriz – Oi.
Pedro – Tudo bem?
Roriz – Trabalhando muito?
Pedro – Trabalhando um bocado.
Roriz – Certo, certo.
Pedro – Ó...
Roriz – Han?
Pedro – Eu consegui administrar bem aquele negócio lá de casa, mandei os irmãos irem embora, viajaram, tão voltando só hoje à noite, passaram o fim de semana na fazenda, mas eu preciso do senhor interceder com aquele rapaz, ele tá louco. Ele pôs gente lá no sábado de novo. Pôs hoje de novo. Sem nenhuma necessidade. Hoje tem jornalista do Jornal de Brasília me ligando porque andaram falando que eu que estou no meio disso. Não tem nenhuma necessidade disso pra que que ele não pára de mexer com isso, meu Deus do céu?
Roriz – (Incompreensível) Vamos esquecer aquilo, dos dois lados. Senão é muito ruim.
Pedro – Pois é, mas se ele não parar de mexer, governador... não tem nenhuma necessidade. Eu falei com meus irmãos assim: “Gente, vamos reagir só na Justiça, entra na Justiça.”
Roriz – Muito bem.
Pedro – Vamos resolver só na Justiça.
Roriz – Parabéns.
Pedro – Mas se ele não sair de lá, governador, fica uma afronta que as pessoas ficam com vontade de ir lá agredir ele. Não tem mais nada pra ele fazer lá, a não ser só ficar futricando.
Roriz – Tá. Deixa comigo. Eu falo com... pode deixar.
Pedro – A única coisa que eu peço para o senhor é falar assim: ó, some lá de perto, gente, não vai lá mais não, pra que vocês ficam caçando briga no mato?
Roriz – Vou, vou, vou, vou... eu achei que a nota foi muito boa, que saiu no Jornal de Brasília. Falou as coisas mas não botou o nome de ninguém. Aquilo foi maravilhoso.
Pedro – Pois é. Mas agora, isso aí é um vespeiro, governador. Uma bomba atômica. Se não mexer nisso aí, melhor, porque o tanto de gente... tem vários desembargadores com lote lá. O próprio Eri tem. Vou contar pro senhor: o Eri recebeu um lote na minha mão, recebeu chácara. Ele está é mal servido, achando que a gente ganhou mais. Eu vou contar isso aí tudinho pro senhor. O senhor está acreditando nele, mas a verdade não está do lado dele. Eu não sou um homem de mentir, governador. Eu sou sério, não coloco amigo meu em dificuldade. Eu sou leal, mas ele não está agindo com lealdade. Tudo isso é assunto pra outra hora. Ele tem a chácara dele lá, ele recebeu 20 lotes no outro loteamento, eu tenho tudo isso. Eu não vou atacar ele, eu não vou fazer nada. Só quero que ele pare de agredir a minha família pra gente ficar quieto, pra gente passar pelo menos a eleição.
Roriz – Combinado, viu?
Pedro – A única coisa que eu quero é que ele não mexa. Só. Vão cuidar de outra coisa, vão cuidar de eleição.
Roriz – Vou falar com ele agora.
Pedro – Os irmãos meus já concordaram que vão entrar só na Justiça, não vão mexer com nada, quietinho. Mas se ele continuar futricando, chega uma hora que uma pessoa perde a cabeça, bate num fiscal lá no mato, vira uma confusão.
Roriz – Pode ficar tranqüilo que eu vou administrar procê isso agora. (incompreensível) de bom tamanho, viu? Até mais. Dê notícia, viu?
Pedro – Ó, viu, governador?
Roriz – Oi.
Pedro – E pede pro Weligton pra interceder lá no Jornal de Brasília pra não falar nisso mais não. Eu falei pro Zé Luiz: ó, tira esse negócio, vão tocar nesse assunto não, vão mexer com outras coisas. Porque fica atraindo atenção pra isso aí, já já isso vira um problema.
Roriz – Exato. Obrigado, meu filho, um abraço.
Pedro – Um abraço, tchau.
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Pressão na câmara
Às 16h12 do dia 20 de agosto, Pedro Passos liga para o presidente da Câmara Legislativa, Gim Argello (PMDB). Ele tinha dois assuntos para tratar. Queria tranqüilizar Gim a respeito da atuação de seus cabos eleitorais no Paranoá e tratar das suspeitas levantadas sobre as leis aprovadas na Câmara Legislativa a respeito do índice de ocupação de condomínio que tinha recebido uma emenda para beneficiar o “ML” (Chácaras Mansões do Lago) como os Passos chamam o empreendimento. No dia seguinte, os distritais anunciaram que pretendiam revogar a lei.
No dia da conversa entre Pedro e Gim, o distrital Rodrigo Rollemberg, candidato a governador pelo PSB, levantou suspeita de que a lei tinha sido fraudada. “O Rodrigo está fazendo alguma molecagem lá? “, pergunta Pedro. “Rapaz, está tendo um negócio lá, eu quero ver esse negócio de perto, eu estou indo lá pra Câmara pra ver isso”, responde o presidente da Câmara.
Vinte dias depois, Márcio Passos divulgaria o trecho de uma gravação em que o ex-secretário de Assuntos Fundiários, Odilon Aires, diz que Gim recebeu 300 lotes para aprovar a regularização do condomínio Alto da Boa Vista, em Sobradinho.
Pedro – Oi.
Gim – Oi, Pedro.
Pedro – Fala, Gim. Bom?
Gim – Bom, bom.
Pedro – (Incompreensível) disse que o pessoal do Paranoá está te enchendo o saco lá. Eu já falei com todo mundo meu, eu vou falar agora de novo. Eu estou ligando pra ele. Nós estamos todo mundo do mesmo lado, não tem isso não. É porque os meninos acabam empolgando e fica nessa confusão. Mas eu tenho falado sistematicamente, em especial você, é meu amigo, companheiro. A gente tem que ir corrigindo a empolgação, os excessos. Olha, o menino lá chama Rozil. Você sabe quem é, pô, melhor do que ninguém.
Gim – Sei, sei. Mas você liga lá, controla lá Pedro, Já deu confusão, já deu briga. Hoje eu tenho um comício lá (incompreensível) que vão apedrejar o trem, vão fazer...
Pedro – De jeito nenhum, o pessoal do Rozil. Rozil é muito comedido, ele faz isso não. Mas eu vou ligar agora. Mas eu já falei com ele especificamente sobre isso aí. Deixa eu falar uma coisa: o Rodrigo está fazendo alguma molecagem lá?
Gim – Rapaz, está tendo um negócio lá, eu quero ver esse negócio de perto, eu estou indo lá pra Câmara pra ver isso.
Pedro – Olha aqui. Isso aí é tudo... um deles tem dez anos, o processo. O negócio é tudo antigo. Fala pra ele que isso aí é (incompreensível) dos moradores. Você lembra daquele outro de ontem, aquele é até mais... mas esse aí, não, lota gente aí na Câmara, se precisar, enche de gente e tudo o mais.
Gim – Tá bom. Vão bora. Vai precisar disso tudo. Vamos ter que fazer uma mobilização e mostrar que realmente tem interesse de terceiros de boa-fé, né?
Pedro – É. De muitos condôminos e tudo o mais. É isso aí.
Gim – Tá bom. Combinado.
Pedro – Um abraço.
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O amigo corregedor
| Carlos Moura / 23.10.2001 |
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Pedro, João de Deus (distrital) e Wigberto Tartuci (Federal): gratidão pela solidariedade durante depoimento à Câmara Federal
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No dia 22 de agosto, às 10h43, Pedro Passos liga pra o corregedor da Câmara Legislativa, João de Deus (PPB). João, a essa altura, estava encarregado de investigar se houve ou não fraude na aprovação da lei que beneficiara o loteamento Chácaras Mansões do Lago – de interesse dos Passos.
Mas o assunto que levou Pedro a ligar para o amigo era outro. Ele queria desmentir “futricas” relativas à campanha eleitoral. Pedro garante a João de Deus que jamais tentou invadir o reduto eleitoral dele, os quartéis da PM.
João não recebe os esclarecimentos com entusiasmo, mas promete conversar com Pedro no dia seguinte, depois que o caçula dos Passos reforça a amizade que liga os dois. Ele lembra, particularmente, do episódio em que foi chamado para prestar esclarecimentos sobre grilagem diante de uma comissão da Câmara dos Deputados, no ano passado, e teve João de Deus a seu lado. “Jamais vou me esquecer”, disse.
Pedro – Queria falar com o deputado João de Deus...
Voz de homem – Quem deseja?
Pedro – É o Pedro Passos.
Voz – Aguarda um minutinho.
João – Alô.
Pedro – João?
João – Fala.
Pedro – Você está bom? É o Pedro Passos.
João – Diga.
Pedro – Tudo bem?
João – Tudo bem. Eu estou te ouvindo, Pedro.
Pedro – Eu estou te ligando pra falar com você, meu irmão. Eu sou seu amigo. Você sabe que eu gosto de você de graça, independe de qualquer coisa. Eu sou companheiro bom, eu quero te pedir pra você não deixar esse povo ficar fazendo futrica contra mim aí não, bicho. Aquilo que eu falei com você a primeira vez que eu te encontrei eu te repito hoje. As coisas políticas passam e a gente que mora aqui vai estar aqui sempre. E eu quero estar ao seu lado. Eu já dei demonstrações enormes de gostar de você gratuitamente, independente de qualquer coisa. Falo isso do fundo do coração, João.
João – Pois é, Pedro, mas você arruma rolo com esses caras aí e você também está sem limites, porra. Você está sem limite. Até nessa ação lá que o (incompreensível) seu foi lá pedir pra pagar jornal lá pro cara, porra.
Pedro – João, eu acho que você, depois que (incompreensível) conviver comigo, você acredita em mim. Eu juro pra você, pela saúde dos filhos, por tudo que é mais sagrado, que eu não fiz nenhuma diligência em entrar em PM. Te juro. Não tenho necessidade de te mentir. Estou te falando isso com essa simplicidade, com essa humildade, porque gosto de você. Eu não dou uma palavra com aquele vagabundo daquele César Lacerda (PTB). Eu não dou uma palavra com esse cara. Eu estou me dirigindo a você porque eu tenho o sentimento de você de um amigo, de uma pessoa que eu gosto gratuitamente. Eu tenho simpatia gratuita por você. Eu gosto do seu jeito. Gosto da sua franqueza, da sua espontaneidade, então eu estou te ligando por esse motivo. Agora, eu tenho tido o maior cuidado. Onde eu vejo um PM que diz que vai me apoiar, eu falo assim “ó, eu tenho um compromisso com o João. Se eu não fosse disputar eleição, o João era o meu candidato, ele foi amigo, ele foi leal”. Eu já repeti isso 20 vezes. Eu jamais, João, faria qualquer iniciativa de entrar no seu reduto. Você pode ter certeza absoluta disso, viu João. Eu não estaria falando isso pra você pra poder puxar o saco seu, não. Eu estou falando isso procê porque eu gosto de você como pessoa, como ser humano. E se tem uma coisa que eu valorizo na vida é as atividades da pessoa. E as suas atitudes com o Luiz Estevão, as suas atitudes comigo me compraram eternamente. Pode passar dez, vinte anos, se você precisar de um companheiro, você pode bater na minha porta que você acha um lá dentro de casa. Não é por causa das coisas agora, não. É por causa dos comportamentos seu no passado com relação a Luiz Estevão, com relação a mim. Eu, pra mim, o homem que tem o brio de defender seus amigos tem que ser respeitado e tem que ser reverenciado. E eu te respeito e te reverencio em qualquer situação. Você pode ter certeza absoluta disso, viu, João?
João – Hum.
Pedro – Então eu estou te ligando porque eu quero encontrar com você. Quero falar isso pra você não é no telefone, não. É olhando nos seus olhos. Pra que você não tenha dúvida de que eu estou falando isso do fundo do meu coração, com a maior sinceridade do mundo. Você pode falar “Pedro, eu preciso de você” de madrugada que (incompreensível) eu te encontro. Olha, eu não converso com Ênio Bastos, eu não converso com César Lacerda. Eu estou falando isso com você com muita humildade, com muita sinceridade, não é por causa de processo de campanha, não. É porque eu aprendi, desde menino, que a gente tem que prestigiar, tem que respeitar, tem que elogiar pessoas que têm o comportamento igual a você. Se hoje eu estou nessa posição na vida, João, se eu tenho uma vida até boa, é porque sempre valorizei as pessoas que me ajudam, que me valorizam, e que têm atitudes igual a você teve comigo. Você pode ter certeza. Eu não estou aqui falando conversa fiada com você, não. Passe dez anos, ou ganhe ou perca a eleição, você ganhe ou perca eleição, o respeito que eu tenho por você vai passar de anos por anos. Porque a atitude que você teve comigo lá na Câmara Federal e que você teve comigo nessas últimas vezes que eu bati na sua porta são atitudes que eu jamais esquecerei, você pode ter certeza disso. (Incompreensível) no seu coração: aconteça o que acontecer, eu jamais me esquerecei disso. A mesma coisa com o Roriz. Porque que eu defendo o Roriz? Nos momentos mais difíceis, quando nego queria me prender, queria tomar meus bens, o diabo a quatro, eu defendo o Roriz porque ele teve atitudes de homem comigo. E você teve comigo. E isso eu quero dizer isso pra você olhando nos seus olhos. Como é que você está amanhã de manhã?
João – Amanhã eu vou ouvir uns caras lá da Asefe (Associação de Assistência aos Servidores da Fundação Educacional, pivô de um escândalo de desvio de dinheiro para financiamento de candidatos da oposição), lá. Amanhã eu estou na Câmara o dia todo.
Pedro – Acha uma hora aí pra gente se falar. Que que é uma hora boa?
João – Eu te ligo, Pedro, amanhã, depois que eu me desocupar, tá?
Pedro – Mas me liga mesmo, João, que eu quero te encontrar e quero te contar outras coisas também.
João – Valeu então.
Pedro – Um abraço, tchau.
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O prejuízo
Uma ligação deixa claro o dia em que Márcio Passos decidiu partir para o tudo ou nada com os inimigos de sua família dentro do governo. No dia 26 de agosto, duas semanas antes de o Correio publicar o chamado “Dossiê Passos”, a pedido dele, Márcio tenta convencer o irmão de que não adianta mais esperar. “Eu vejo duas situações: ou morrer calado, ou morrer atirando”, diz. Pedro hesita.
Nessa conversa, Márcio informa o prejuízo que o grupo teve com a intransigência de Eri Varela: algo entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões.
Pedro – Olha aqui, eu estou pensando aqui, refleti melhor sobre isso aqui. Sabe quem seria uma pessoa boa de mostrar pra ele, a gente fazendo o trem, é o Tadeu (provavelmente, Tadeu Fillippeli, deputado federal candidato à reeleição e ex-secretário de Obras). Tadeu é capaz de ser a melhor pessoa. Seria quem melhor te receberia porque não está atritado, né? E quem poderia levar um recado melhor levado talvez fosse ele.
Márcio – Mas isso aí, se você está com esse sentimento (incompreensível), Pedro, não adianta. Isso aí é bobagem a gente mexer com isso.
Pedro – Por outro lado, eu também estou preocupado. Meu sentimento é que na hora que você falar pra mim que os caras vão subir com tudo mesmo...
Márcio – Aí, não sei. Eu posso falar nisso, mas eu vejo duas situações: ou morrer calado, ou morrer atirando.
Pedro – Pois é, mas será que nós não vamos atirar antes sem morrer? Meu medo é só esse aí. Nós não vamos sair atirando na frente de uma coisa que não ia ter tiro?
Márcio – Nós achar que não ia ter tiro, não. A 29 já aconteceu. As leis estão aí acontecendo.
Pedro – A 29 aconteceu, mas acabou com a sua vida?
Márcio – Pedro, nós (incompreensível) diferentes em lugares diferentes. A 29 nós não tínhamos...
Pedro – Tudo bem. Mas aquilo lá já é uma desgraça, que se perguntasse pra nós antes, antes do episódio, falava assim “se alguém for fazer isso aqui que eles fizeram com vocês”, nós não tinha detonado o mundo?
Márcio – Não. Aquilo lá não deu um centavo. Você deixou de ganhar. Você não perdeu nada. E nos outros você vai efetivamente perder coisas que você já ganhou. Você vai perder amigos, você vai perder...
Pedro – Vai perder pra caralho, perder uma vida de luta...
Márcio – Não. Você deixou de ganhar. Você ia ganhar lá R$ 20 ou R$ 30 milhões e deixou de ganhar.
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