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Artes plásticas
Arquiteto da dor
Obras de Farnese de Andrade, artista mineiro morto há seis anos, são expostas em Brasília pela primeira vez. A maioria das peças da coleção pertence a um empresário goiano e foi mostrada em público apenas uma vez, em Goiânia
Nahima Maciel
Da equipe do Correio
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Tudo continua sempre (1974): oratório com objetos recorrentes na obra de Farnese
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Uma suposta queda durante a infância afetou a memória de Farnese de Andrade. Por isso, o artista mineiro não conseguia fazer contas simples nem elaborar reflexões profundas sobre textos e imagens. Ele mesmo contava a história, registrada em um texto, para explicar o quão intuitivo e emocional era seu trabalho.
No escrito, o artista explica que ingenuidade e inconsciência o levavam a sobrepor, um a um, os objetos que ora recolhia ora construía. Essas justaposições eram chamadas de assemblages e Farnese fez mais de 200 dessas esculturas. Ao morrer, em 1996, aos 70 anos, esse mineiro havia construído um mundo identificado por muitos como de horrores, mas sobretudo povoado por críticas a tabus como sexo, religião, morte e nascimento. ‘‘Conheço pouca coisa mais triste que os trabalhos de Farnese de Andrade’’, escreveu o crítico Rodrigo Naves.
Farnese era um homem recluso e pouco dedicado à vida social, mais preocupado em organizar seu mundo de figuras impregnadas de comentários e carregadas de fatalismo. Depois de sua morte, poucas galerias e museus se interessaram em mostrar esse universo, até que Charles Cosac, da Cosac & Naify e amigo de Farnese, resolvesse lançar um volume de 359 páginas com imagens de todas as obras do artista e texto de Rodrigues Naves.
Houve, então, uma retomada de interesse pelo artista mineiro e exposições começaram a pipocar aqui e ali. Brasília recebe a partir de hoje um dos estilhaços dessa retomada com a mostra Farnese de Andrade, conjunto de quase 40 peças das coleções particulares do empresário Sebastião Aires de Abreu e do senador Eduardo Siqueira Campos (PSDB-TO).
Em cartaz no Espaço Cultural Contemporâneo (Ecco), a exposição não é bastante pontual ao reunir principalmente os oratórios, construções recorrentes na trajetória de Farnese. Mas é possível apreciar nesses assemblages as inquietações do artista e o caráter extremamente pessoal do trabalho. Filho de tabelião e de artesã dedicada à confecção de flores de pano, Farnese perdeu dois irmãos numa enchente, acidente que o marcou.
São fatos que, segundo Rodrigo Naves, não podem ser dissociados do trabalho do artista. O tempo e a morte permeiam os assemblages na forma de ex-votos, artefatos populares, restos de bonecas desfiguradas, fotografias, objetos em madeira gasta e oratórios populares eram os materiais para uma arquitetura que Rodrigo identifica como ambígua.
‘‘Ele faz um cruzamento triste de uma concepção individual do tempo, de que as coisas se sedimentam e acumulam, e uma concepção de que estamos fadados a sofrer esse acúmulo. Isso me seduz e afasta’’, conta Naves.
As mesmas impressões que causaram repulsa no crítico atraíram o artista goiano Elder Rocha. Professor de Universidade de Brasília (UnB), Elder conheceu o trabalho de Farnese aos sete anos, levado pelo pai a eventuais exposições, e nunca mais se desvencilhou do impacto. A influência aconteceu e pode ser mapeada em obras como Solve et Coagula e A Navalha de Ocam, objeto exposto no Ecco como espécie de paralelo entre Elder e Farnese.
‘‘Ele não trabalhava com a beleza. Trazia questões mais duras que às vezes até refletiam a situação do país’’, diz Elder. ‘‘São informações culturalmente arquetípicas para os brasileiros. Isso fica claro nos móveis antigos, nas imagens sacras, nas bonecas. Além disso, ele fazia mistura do universo colonial brasileiro com a infância’’, acredita Elder, lembrando que a singularidade de Farnese faz com que ele seja figura deslocada na história da arte brasileira.
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personagem da notícia
Insistência na tristeza
Sebastião Aires de Abreu tinha 28 anos quando, em 1982, conheceu os assemblages que nasciam da intuição de Farnese. O jovem empresário goiano foi apresentado ao artista por Siron Franco, e passou a freqüentar a casa do Rio Comprido, no Rio de Janeiro, onde Farnese morou grande parte da vida.
No ateliê recluso do artista, Sebastião sempre se ‘‘apaixonava’’ por uma ou outra peça e levava para casa sem dar ouvidos à má vontade do artista. ‘‘Ele não tinha nenhuma vontade de vender e me dizia: ‘Você é jovem, meu trabalho é triste. Vá fazer outra coisa’’’, conta Sebastião. Mesmo assim, sempre que viajava ao Rio, o jovem colecionador passava no ateliê.
Hoje com 48 anos, dono de uma frota de helicópteros em Goiânia, Sebastião tem ciúmes da coleção. Só emprestou as peças duas vezes: uma para exposição no Museu de Arte Moderna de Goiânia, da qual não descolou os olhos, e outra para as fotografias de Farnese de Andrade, a publicação da Cosac & Naify.
O empresário nunca se preocupou em definir um perfil para a coleção. Comprava o que gostava e, como tem especial apreço por arte sacra, recaía sempre nos oratórios. ‘‘Ele foi um crítico de tudo com muita seriedade. Falava do poder, sexo, religião. A sinceridade do trabalho é que me fascinava’’, explica o colecionador.
Serviço
Farnese de Andrade
Exposição com obras do artista mineiro. A partir de hoje, no Espaço Cultural Contemporâneo, no subsolo do Venâncio 2000. Visitas: de segunda a sábado, das 9h às 20h. Até 3 de novembro. Entrada franca
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