Brasília, quarta-feira, 16 de outubro de 2002
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Eleições 2002

Na televisão
Estratégia bem-sucedida

Analistas políticos acreditam que Magela agiu certo ao apostar em tom didático e respeitoso em relação a Roriz, no primeiro debate do segundo turno. Já o governador manteve a linguagem popular, mas fugiu das perguntas contundentes

André Garcia e Valéria Feitoza
Da equipe do Correio

Ronaldo de Oliveira

 
Foram quase quatro anos entre um encontro e outro. Mas no primeiro debate do segundo turno entre o governador Joaquim Roriz (PMDB) e o deputado federal Geraldo Magela (PT), os dois candidatos se valeram das lembranças do último duelo na tevê entre governo e oposição, no segundo turno de 1998, para definir suas estratégias. O petista economizou ataques e conseguiu evitar a repetição do último debate da eleição passada, quando boa parte dos eleitores se identificou com a postura humilde de Roriz diante do catedrático Cristovam Buarque.

  O governador apostou mais uma vez na linguagem popular. Também seguiu à risca a tática anunciada no horário eleitoral gratuito de não partir para o ataque. Sem muito tempo para se preparar, no entanto, não conseguiu capitalizar como no último debate de 1998, nem ocupar os espaços deixados pelo petista durante o programa exibido pela Rede Bandeirantes na noite de segunda-feira.

  ‘‘Ficou claro que o PT se preocupou muito com uma possível repetição do que ocorreu no debate de 1998, quando Cristovam pareceu arrogante. Magela esteve didático, cerimonioso, e até chamou Roriz de doutor, para tentar afastar um pouco o governador do seu público mais humilde’’, analisou o marqueteiro Francisco Maia, presidente da agência Apoio Comunicação. ‘‘Roriz manteve a linguagem do povão, com a qual sempre atingiu seus objetivos’’, acrescentou.

  O primeiro encontro de Roriz e Magela desde o início da campanha só ocorreu dentro do estúdio da Bandeirantes. Assessores dos candidatos armaram um esquema de modo a impedir que os dois se esbarrassem antes ou depois do debate. O petista foi o primeiro a chegar, às 21h30. Roriz chegou cinco minutos depois. Apenas um assessor de cada candidato foi autorizado a acompanhar o debate no estúdio.

  Magela entrou primeiro no estúdio e sentou-se na bancada. Quando Roriz chegou, minutos depois, era o único que faltava para compor a mesa. Sem encarar o adversário petista, cumprimentou-o com um aperto de mão. Tenso, Roriz manteve-se calado durante mais de 30 minutos até o início do debate.


Quatro blocos
O encontro foi dividido em quatro blocos. No primeiro, três jornalistas da Bandeirantes fizeram uma pergunta para cada candidato. Logo na primeira pergunta, Roriz teve de explicar suas relações com Pedro Passos, condenado por parcelamento irregular de terras. Nervoso, admitiu que conhece Passos, mas negou que tenha feito negócio com o empresário (leia abaixo).

  O candidato do PT foi perguntado sobre a chamada Lei Magela, criada por ele em 1991 para incentivar empresas a investir em cultura. Também não conseguiu disfarçar nervosismo e terminou não indicando a razão para a ineficácia da legislação (leia quadro ao lado). Apenas disse que retomará o projeto em caso de vitória.

  Depois de um segundo bloco voltado para apresentação de propostas, a partir de perguntas de eleitores, o debate esquentou na terceira parte. Os dois candidatos fizeram perguntas, desafiaram um ao outro e discutiram até religião.

  No terceiro bloco, Roriz se atrapalhou em vários momentos. ‘‘Ele mexia no cabelo, ajeitava a gravata, tirava os papéis da ordem em cima da sua bancada. Quando aparecia a placa do tempo, ele ficava sem saber se era para ele ou para o mediador. Confundia-se entre a hora de perguntar e de responder’’, conta uma das poucas pessoas presentes no estúdio.

  ‘‘Roriz fugiu das perguntas e jogou muito com a história de ser o coitado. Mas dessa vez Magela conseguiu evitar a imagem do doutor batendo no caipira que o debate de 1998 passou’’, analisou o cientista político David Fleischer.

  Na saída, com novo esquema para evitar o encontro dos candidatos, Roriz comentou sua performance no encontro. ‘‘O importante não é a eloqüência, mas as propostas. Eu confesso que teve momentos em que as coisas começavam a preocupar, quando havia uma tendência de acusações’’, disse o governador.

  Magela esperou a dispersão dos cabos eleitorais do PMDB para sair. E reclamou da discussão final, sobre religião. ‘‘Na última hora, ele (Roriz) não foi tão leal comigo quanto eu fui com ele. Ele disse que eu não sabia se eu era católico ou não, mas diversas vezes eu já estive em missas com ele’’, comentou.


Novo debate será amanhã

Joaquim Roriz e Geraldo Magela voltam a discutir propostas amanhã à noite na televisão. Os dois confirmaram presença no debate promovido pela Rede Record (Canal 8), que será exibido a partir das 21h10. As regras do programa são diferentes do realizado na segunda-feira pela Rede Bandeirantes. Em quatro blocos, os candidatos farão ao total 12 perguntas para os adversários. Seis com tema livre e outras seis sobre assuntos sorteados. A mediadora será a jornalista Mônica Waldvogel.

O que foi dito e o que foi feito

RELAÇÃO COM IRMÃOS PASSOS

Roriz: ‘‘Jamais fiz qualquer negócio com Pedro Passos e nem sequer conheço a sua família.’’

Além da amizade, Roriz mantém laços de negócios com os Passos. Em 1995, o governador foi avalista de um empréstimo de US$ 1 milhão, no banco Bamerindus, para a empresa Bemvirá, de propriedade dos irmãos Passos. Em uma busca na empresa dos Passos, em outubro de 2001, a Polícia Federal encontrou recibos de pagamento de Roriz para os Passos, em que havia a referência a um empréstimo do banco Bamerindus. Isso gerou a suspeita de que o governador foi beneficiário do empréstimo. Os recibos somam mais de R$ 300 mil.


CADASTRO DE FAMÍLIAS EM PROGRAMAS SOCIAIS DO GOVERNO FEDERAL

Roriz: ‘‘Só o que falta aqui é parte do fornecimento de gás, mas já está em andamento.’’

O Ministério da Saúde oferece, desde outubro do ano passado, 25.225 mil bolsas-alimentação mensais para o governo local distribuir a famílias carentes. Até agora nenhuma bolsa foi distribuída no DF, porque a Secretaria de Saúde não repassou ao Ministério da Saúde o nome das pessoas que têm direito ao benefício. A cada mês, o GDF deixa de repassar aos pobres pelo menos R$ 1,1 milhão desse programa do governo federal.


EMPREGO

Roriz: ‘‘Eu gerei 180 mil novos empregos’’

A última Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) revela que, entre janeiro de 1999 e junho de 2002, foram criados 140 mil novos postos de trabalho. Mas outros 81,4 mil foram eliminados no mesmo período. O saldo positivo é de 58,6 mil. O Pró-DF também não gerou o total de empregos prometidos. Apesar 300 empresas estão funcionando. Juntas, geraram pouco mais de 3 mil empregos diretos.


AGRESSÕES

Roriz: ‘‘Nunca agredi ninguém’’

Em 1994, quando fazia campanha para seu aliado Valmir Campelo, Roriz xingou a tucana Maria de Lourdes Abadia, que hoje é candidata a vice na sua chapa. No dia 31 de janeiro deste ano, o governador encerrou o governo itinerante em Brazlândia xingando um morador da cidade, que protestava contra a cobrança do IPTU. Irritado, Roriz reagiu com a frase: ‘‘Ali está um crioulo petista que eu quero vocês dão (sic) uma salva de vaias nele’’. Em julho deste ano, Roriz insinuou que um de seus adversários na disputa ao Buriti, Rodrigo Rollemberg (PSB), era usuário de maconha.


Perguntas sem resposta

GRILAGEM DE TERRAS

O jornalista Fábio Pannunzio pergunta a Geraldo Magela sobre sua ligação com o grileiro Carlos Germano, envolvendo a regularização do condomínio Alto da Boa Vista. Mas, ao invés de responder, Magela preferiu desqualificar os denunciantes.

Magela: ‘‘Meus adversários estão querendo me colocar na mesma situação em que eles estão. Imaginem dois traficantes que são presos e depois dizem que deram dinheiro para o delegado não prendê-los. No dia 27 de março de 1995, eu suspendi a regularização do Alto da Boa Vista, proque havia a suspeita de que seria um supercondomínio. Para retaliar, bandidos gravaram uma fita dizendo que eu tinha facilitado a regularização. Então, isso tudo é uma armação de bandidos’’.


LEI MAGELA

A jornalista Renata Gonzaga pergunta a Magela sobre a lei distrital 158, chamada Lei Magela, aprovada em 1991 para dar incentivos fiscais a empresas que querem investir em eventos culturais e que nunca saiu do papel. Magela confirma o não-cumprimento da lei, mas não explica o porquê e nem como fará para tirá-la do papel.

Magela: ‘‘Essa lei não foi colocada em cumprimento desde quando Roriz foi governador pela primeira vez. Na época do Cristovam, também tivemos muita dificuldade. Mas no meu governo vai voltar. Foi uma lei discutida com todos os produtores culturais da cidade.’’


CLONAGEM DE PROMESSAS

Magela pergunta a Roriz por que o governador está anunciando, no segundo turno, programas que não anunciava no primeiro turno e que foram propostos pelos adversários. Ele acusa o governador de copiar projetos alheios, como a Bolsa Primeiro Emprego, Cheque-alimentação e a bolsa-universitária para alunos carentes. Roriz responde citando as realizações do governo. Magela insiste, e novamente Roriz deixa a questão sem resposta

Roriz: ‘‘Eu melhorei o trânsito, construí viadutos. Quando assumi o governo, levei um susto: a DF tinha uma dívida de mais de R$ 350 milhões e eu renegociei. Estou tranqüilo, porque a minha administração satisfaz a expectativa da sociedade. Não aumentei nenhum imposto. Ao contrário, diminuí alíquotas para atrair empresas’’

Magela: ‘‘Minha pergunta foi clara, e o senhor preferiu não responder. Não falou da bolsa universitária. Gim Argello, seu aliado, fez o projeto e o senhor vetou. Por que agora vem prometer a mesma coisa?’’. Roriz foge novamente.

Roriz: ‘‘Agora é que eu saí às ruas e ouvi o clamor dos estudantes, senti a necessidade deles. Governar é definir prioridades. Agora eu fui ouvir o povo e senti. Só fui saber disso agora. E tudo que eu prometi, eu fiz.’’

 
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