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  Tema do Dia
Eleições 2002

Risco de crime organizado

Rudolfo Lago e Valéria Feitoza
Da equipe do Correio

Sergio Amaral 11.10.02
Benedito Domingos: ‘‘um passo atrás perigoso’’
 
Ronaldo de Oliveira 18.10.01
Dirceu falou em nome de Lula: similar ao Acre
 
 São Paulo — O risco é a mistura promíscua do crime organizado com o poder constituído. A mesma situação que o governador do Acre, Jorge Vianna, encontrou antes de ser eleito pela primeira vez. Naquele momento, a ação de procuradores da República revelou o envolvimento do então governador, Orleir Cameli, com diversas irregularidades. Ao mesmo tempo, deputados e outros representantes do estado, como o ex-deputado Hildebrando Pascoal, integravam quadrilhas e grupos de extermínio. Para o presidente do PT, deputado José Dirceu (SP), o que ocorre no Distrito Federal no governo Joaquim Roriz é a repetição das mesmas condições que levaram a esse tipo de situação.

  ‘‘Tenho muito temor de que todas essas coisas — censura à liberdade de imprensa, ameaça à integridade física das pessoas e relações promíscuas entre o poder instituído e quadrilhas de grileiros — formem o caldo de cultura que leva à institucionalização do crime organizado.’’, disse.

  José Dirceu falou em seu nome, em nome do partido e em nome do candidato do PT à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva. O temor de não encontrar na capital do país nenhum jornal que permita uma interlocução dentro das regras da ética preocupa o partido. O risco de que a atual linha editorial do Correio seja modificada foi motivo de reuniões da equipe que cuida da assessoria de imprensa de Lula.

Retorno à ditadura
Dirceu mencionou as agressões ao diretor de redação do Correio, Ricardo Noblat, e à sua família, obrigados há anos a andar escoltados por seguranças. Mencionou o incitamento à violência contra repórteres do jornal em atos da campanha de Roriz. E, finalmente, o esforço de ações judiciais destinadas a inibir a liberdade de expressão do Correio. ‘‘Roriz faz um tipo de política que mostra um nível assustador de gangsterismo. Ameaça, oprime, se une a figuras de reputação questionável.’’

  Para o líder do PT na Câmara, João Paulo Cunha (SP), se o episódio se limitasse a disputas internas, isso seria aceitável. ‘‘Mas não dá para admitir que haja censura sobre os profissionais que estão trabalhando’’, disse. ‘‘É lamentável que em plena democracia um veículo de comunicação seja censurado dessa forma’’, declarou o candidato do PT ao governo de São Paulo, José Genoíno. ‘‘Ainda mais em um período de eleição, e motivado por uma ação de um dos candidatos.’’

  Para muitos políticos, a presença de um censor na redação do Correio fez lembrar os tempos da ditadura. ‘‘Isso é mais grave do que a presença dos militares nas redações dos jornais à época do Caso Riocentro. Pois ali era mais uma manifestação da ditadura militar. Na democracia, o fato se potencializa. Não foi só o Correio atingido nesse episódio. Atingida foi a consciência nacional. Atingida foi a cidadania brasileira’’, afirmou o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ).

  O senador Jefferson Péres (PDT-AM) sugeriu mudanças na legislação. ‘‘Já está na hora de nós, no Legislativo, impedirmos que algo semelhante volte a ocorrer, seja através de uma lei mais clara ou de uma alteração em possível falha da Constituição’’, disse.

  Na esfera local, a reação à atitude de Roriz foi ainda mais inflamada. ‘‘Esse foi um dos mais duros golpes à democracia. Eu fiquei assustadíssimo, isso acontecendo na capital da República, para proteger alguém que não pode ser protegido. Eu acho que o que aconteceu não agrediu apenas o jornal, agrediu a toda a imprensa brasileira e, sobretudo, agrediu à democracia’’, disse o candidato ao GDF e deputado federal Geraldo Magela (PT).

  ‘‘A censura ao Correio é mais uma demonstração de que o governador Joaquim Roriz não está habituado a conviver com uma imprensa livre e democrática. Deixa muito claro que é um governador autoritário e ultrapassado’’, criticou o deputado distrital Rodrigo Rollemberg (PSB). O vice-governador Benedito Domingos (PPB), ex-aliado de Roriz, também expressou sua indignação. ‘‘Nós estamos dando um passo atrás muito perigoso e isso não pode acontecer’’, afirmou.

  Silêncio. Essa foi a reação de quase todos os aliados de Roriz à censura imposta ao Correio a pedido dele. O único governista que falou sobre o assunto foi o distrital João de Deus (PPB). ‘‘Acredito que a presença de oficiais de Justiça dentro do Correio foi desnecessária. Os jornalistas jamais descumpririam uma decisão judicial.’’

PROTESTO

  Assim que souberam do pedido de renúncia de Paulo Cabral, presidente dos Diários Associados, cerca de 100 manifestantes se reuniram, à meia-noite de quarta-feira, em frente ao Correio para defender a liberdade de imprensa. Eles saíram de um ato pelas candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Magela (PT) e seguiram em carreata para o jornal. Participaram do protesto lideranças católicas e evangélicas de 136 igrejas. Magela, o senador eleito Cristovam Buarque (PT) e o vice-governador Benedito Domingos foram à redação do jornal manifestar apoio aos jornalistas.

 
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