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pobreza
Maternidade na rua
Mães criam os filhos na rua e sofrem com a fome, a falta de segurança e a incerteza do futuro de suas crianças. Elas contam com a sorte e a solidariedade alheias para cuidar dos meninos
Flávia Duarte
Da equipe do Correio
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A pequena Carol passa horas ninando o coelhinho de pelúcia. Vive na rua com a mãe e a irmã de 1 ano e aguarda a chegada de mais um irmão, que deve nascer no mês que vem
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| Fotos: Carlos Moura |
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Adriana preocupa-se com o futuro de Fabrício: “fico preocupada dele não estudar”
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Na rua, elas ninam suas crianças. Nas calçadas imundas, estendem o colchão ordinário e escolhem um local com sombra para os pequenos tirarem um cochilo. O sol não dá tréguas e castiga quem não pode se proteger com as paredes de concreto. Se os meninos lambuzam-se na terra e brincam, inocentes, à espera de dias melhores, as mães que criam a família nas ruas sentem, com força, a impotência diante da falta de perspectivas. A incerteza de não saber se os filhos sairão dali ou se poderão estudar até ficam pequenas diante da falta de garantias de ter comida no dia seguinte. E assim são todos os dias. As mães que vivem com os filhos nas calçadas têm a mesma preocupação daquelas que, alheias, passeiam de carro na pista próxima ao barraco. A diferença é que uma depende da solidariedade, a outra não.
Mas há os motoristas caridosos. Ainda na correria de quem segue à toda velocidade, eles têm tempo de reconhecer seis crianças quase peladinhas e imundas de terra vermelha. Elas moram na última quadra da Asa Norte, do lado do supermercado Extra, num barraco de lona preta. Eles param e entregam leite, manteiga e pão ainda quente dentro de um saco de supermercado. Jones, 10 anos, corre para receber os presentes. Com o sorriso perfeito, entrega o embrulho à mãe. Jucilene Lima, 28 anos, dá graças pela comida sempre bem-vinda.
Jucilene nasceu nas terras castigadas do interior baiano, mas já peregrinou tanto pelo país afora que sequer sabe ao certo a origem. Está em Brasília há seis anos e em todo esse tempo viveu em barracos de lona armados nas terras do Distrito Federal. Com seis filhos — o mais novo com um ano e meio e o mais velho com 10 anos — para criar, ela não reclama da sorte e vive em função da prole. ‘‘Não achei lugar melhor para morar. Mas ainda assim, aqui é melhor, porque na minha terra a gente não tinha nem o mingau’’, lamenta.
Para ganhar, a cada 15 dias de trabalho, os 20 reais que garantem o sustento mínimo, a baiana acorda às três da madrugada e até as sete cata latinhas. ‘‘Quem mora nesse barro tem de ter dinheiro para dar remédio contra verme e vitaminas para as crianças’’, comenta Jucilene. A água chega em baldes, sem tratamento adequado. Todas as marmitas que ganha passam por uma inspeção na tentativa de garante a qualidade do que os meninos vão comer.
Dor de cabeça também incomoda quando pensa na segurança dos filhos. Sem portões para conter a energia das crianças, ela passa o dia olhando os pequenos que brincam com o velocípede velho perto dos carros. ‘‘Tenho muito medo dessas drogas. A gente vê muitos meninos cheirando cola na rua’’, teme. ‘‘Por isso não me aloto (sic) com ninguém. Moro longe dos outros para criar meus filhos com tranqüilidade’’, confessa a mulher.
Se as mães de rua tentam garantir a segurança da meninada, outras preocupações também apertam o peito. Os brinquedos que os filhos desejam, ficam mesmo só nas vitrines das ruas onde eles costumam perambular. Apesar do desalento de ver Zezinho, 5 anos, passar o dia longe de uma casa, a mãe Neuza Célia da Silva, 26 anos, fica feliz em saber que voluntários não se esquecem de dar um carrinho ou qualquer outro agrado para o menino.
Nascida em Irecê (BA), Neuza arrumou a pouca bagagem e seguiu, há cinco anos, para Brasília em busca de uma vida melhor. Queria se livrar dos calos provocados pela enxada e fugir da fome. Sentada em cima de um pedaço de papelão ao lado da barraca de lona em uma praça de Sobradinho, nem parece que os dias ficaram mais leves. ‘‘Aqui meus filhos não passam fome. Tem sempre alguém que passa e dá comida ou dinheiro. Se falta, peço nas casas’’, conta Neuza, mãe de Zezinho e Gabriel, 3 anos.
Mãe que escolheu as ruas porque nas proximidades do barracão de madeirite que levantou em Brasilinha (GO), os vizinhos também precisam de ajuda. Lá falta gás, comida, roupa e água. Melhor mesmo é passar a semana em cima dos papelões enquanto o marido ganha os trocados fazendo bicos em Sobradinho. ‘‘Tenho muita vergonha de pedir esmolas. Minha preocupação é com as crianças, tanto que fico sem comer para dar a elas’’, comenta constrangida. ‘‘Hoje é mais fácil pedir. A primeira vez que tive de fazer isso, chorei muito, mas preciso cuidar das crianças’’.
No almoço do dia, arroz e macarrão no prato da família de Neuza. As crianças comem a mistura fria de bom grado. Sequer imaginam o que fazem amontoadas entre caixas e sacolas com roupas usadas. Apenas aproveitam o espaço do gramado e a liberdade de não estarem por detrás de portas e janelas. Se questionado onde é o melhor lugar para morar, Zezinho nem titubeia: ‘‘Prefiro ficar na rua. Na minha casa a gente não tem brinquedo nem biscoito’’, avalia o garoto, enquanto brinca com o carrinho verde bandeira que acabou de ganhar.
E os brinquedos sempre chegam. Os olhos azuis de Carolina, 4 anos, brilham enquanto ela insiste em ninar o coelho de pelúcia, presente de um desconhecido. ‘‘Prefiro que as crianças estejam na calçada, mas perto de mim. Já tentaram levar meus filhos embora, mas nessas horas a gente dá uma de valente’’, conta Maria Claudiane da Conceição, 20 anos.
A mãe da pequena Carol passa as horas cuidando dela e da caçula Graziele, de apenas 1 ano. De resto, reza todos os dias para conseguir montar o enxoval do novo bebê, previsto para nascer daqui um mês. Se não há quem dê o leite das crianças, ela torce para que o marido consiga mais que os habituais dez reais arrecadados diariamente como engraxate. ‘‘Meu maior medo é de eles ficarem doentes e eu não ter condições de comprar o medicamento’’, desabafa Maria Claudiane.
Mães como ela contam com a sorte. Irmã de Claudiane, Adriana da Conceição, 30 anos, enfrenta o mesmo drama para cuidar do filho Fabrício, 7 anos. As comidas ficam expostas e sem refrigeração e a água da torneira da rodoviária de Sobradinho refresca sem garantia de manter a saúde. É a mesma água que lava a pele encardida e o cabelo do menino. ‘‘Fico preocupada de meu filho não poder estudar. Quero que tenha um futuro’’, roga Adriana, descrente.
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