Brasília, quinta-feira, 31 de outubro de 2002
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Samuel Rawet o engenheiro e o contista

Escritor da mais alta linhagem, O engenheiro que ajudou a construir Brasília foi engolido pelos próprios conflitos. Sua obra será relançada no próximo ano

Conceição Freitas
Da equipe do Correio

Tadashi Nakagomi/Cedoc CB

 
Dizem que viver dói um bocado e foi disso que Samuel Rawet tratou nos seus escritos. Judeu polonês, alfabetizado em ídiche, veio para o Brasil ainda menino, 7 anos, com a família que fugia das perseguições nazistas. Renegou, ferozmente, todas crenças do judaismo; viu o homem descarnado de todos os seus enfeites e disfarces e tratou disso numa literatura feita de cacos de vidro, doída de ler, porém considerada entre as melhores da língua portuguesa contemporânea.

  Engenheiro de cálculo estrutural, Rawet trabalhou com Joaquim Cardozo nas obras finais da construção de Brasília. Veio e ficou na capital construída. Antes disso, em 1956, revelou-se ao país como um contista de primeira grandeza. Publicou seu primeiro livro, Contos do Imigrante, com prefácio do crítico Assis Brasil que o apresentou como ‘‘um marco em nossa literatura de ficção nova, o ponto convergente de um novo conto brasileiro, ultrapassadas as barreiras prolongadas do modernismo’’.

  Passados 18 anos de sua morte, Samuel Rawet é relembrado como nunca dantes. É certo que sempre houve quem se interessasse por sua obra, mas tem crescido, nesse início de século o interesse pela sua literatura rascante. Há teses acadêmicas sendo elaboradas na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e na Universidade de São Paulo. Planeja-se a edição de suas obras completas para 2003, informa o crítico literário André Seffrin, responsável pela organização dos títulos. Essa onda recente deve-se em muito, acredita Stefania Chiarelli, estudiosa da obra de Rawet, doutoranda da PUC/RJ, ‘‘ao interesse no resgate da voz daqueles que sempre foram colocados à margem’’. Dessa lista constam os gays, as mulheres, os negros, o migrante.

  Era duro o olhar de Rawet para com as misérias da condição humana. A ele não interessava, por exemplo, esconder-se sob o manto da história que pôs os judeus na condição de eternas vítimas do mal. Pagou caro porque a comunidade judaica reagiu, irada. Afastado da família, isolado em seu desconforto diante do mundo, Rawet foi se enfurnando em si mesmo. ‘‘No final da vida, a ira parece ter aumentado ainda mais, é o que se lê em seus ensaios filosóficos. Infelizmente também é a fase em que tudo indica que já estava sofrendo de profundos distúrbios mentais’’, diz Stefania Chiarelli.

  Em texto publicado neste Correio Braziliense, em 18 de maio de 1979, Rawet conta de quando abandonou o arquiteto Oscar Niemeyer em Israel durante a construção da Universidade de Haifa. Antes de deixar a cidade de Telavive, mandou um telegrama para o arquiteto: ‘‘Sem vocação servir espantalho vigaristas, sigo Marselha’’. E comenta: ‘‘Não sei se Oscar me perdoou’’. Deixou Israel e foi conhecer a catedral de Ronchamp, na França, o templo que Le Corbusier construiu para espantar o mundo com suas formas surpreendentes que lembram a Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, na 107/108 Sul.

  No mesmo texto, Rawet vomita sem cerimônia seu ódio aos judeus: ‘‘‘A ruptura com padrões, hábitos, formas tradicionais é uma coisa mais séria do que a simples mudança de esquemas éticos, estéticos ou lógicos. Na minha fase atual, que é dar um pontapé nas partes fofas da milenar cultura judaica, sinto isso bem’’. Samuel Rawet acreditava que os judeus tinham aprendido com seus carrascos a arte da crueldade.

  A certa altura do mesmo texto, depois de citar Le Corbusier, André Malraux e o romeno Panait Istrari, saca novamente sua ira: ‘‘São homens que, oriundos da mais negra miséria ou da abastança mais cretinizante, procuram alguma coisa mais saudável, e deixam seu testemunho, um pouco mais interessante do que os montes de estrume lançados por aí, com arrotos especiais.’’

  Nesse ritmo quase insuportável, Samuel Rawet escreve contos, ensaios filosóficos, novelas, peças de teatro e segue a caminho de seu turbilhão de conflitos. O psicólogo e escritor Ezio Flavio Bazzo dedicou 30 dias de sua vida a cavoucar a trilha de Samuel Rawet por Brasília. Disso resultou Rapsódia a Samuel Rawet, publicado em 1997. ‘‘De vez em quando eu ouvia alguém falar de um judeu louco que foi encontrado morto em Sobradinho’’, conta Bazzo. Tomado pelo personagem, conversou com quem o conheceu, visitou seu túmulo no Campo da Esperança (mais tarde exumado e levado para o cemitério de judeus em São Paulo), escreveu o livro e deu por encerrado o seu encontro com Rawet. ‘‘Foi um surto’’. Guardou as obras do escritor que encontrou em sebos da cidade: ‘‘O Rawet não está a fim de contar historinhas. Ele tira o sono.’’

  Insone em suas próprias chagas, Samuel Rawet atormentou a vida de seus vizinhos na SQS 103, Bloco E. Sentava-se no corredor do prédio, seminu, às vezes nu. Atirava ovos pela porta, não recebia visitas. Quando foi embora, os novos moradores encontraram um mar de sujeira e baratas no apartamento. O arquiteto Carlos Magalhães, também membro da equipe de Oscar Niemeyer na construção de Brasília, lembra-se de encontrá-lo no Hotel Nacional com uma gaiola vazia nas mãos. ‘‘É para os ratos judeus’’, repetia, insano.

  Durante longos anos, Samuel Rawet foi o andarilho louco de Brasília, até ser encontrado morto em uma casa da Quadra 2 de Sobradinho. Incomodados com o mau cheiro e com as moscas azuis, os vizinhos chamaram os bombeiros que arrombaram a casa e encontraram o corpo do escritor caído num canto da casa. Tinha morrido havia mais de quatro dias. O atestado de óbito número 75888 registra morte por insuficiência cardíaca-senilidade.


trecho
O profeta

Samuel Rawet

O mar trazia lembranças tristes e lançava incógnitas. Solidão sobre solidão. Interrogava-se, às vezes, sobre sua capacidade de resistir a um meio que não era mais o seu. Chiado de ondas. Um dedo pequeno mergulhando em sua boca e um riso ao choque. Riso sacudido. Poderia condenar? Não, se fosse gozo após a tormenta. Não, não poderia nem condenar a si mesmo se por qualquer motivo aderisse, apesar da idade. Mas os outros? Cegos e surdos na insensibilidade e auto-suficiência! Erguia-se então. Caminhava pelos cômodos, perscrutando no conforto um contraste que sabia de antemão não existir. Aliciava argumentos contra si mesmo, inutilmente. E do fundo um gosto amargo, decepcionante. Os dias se acumulavam na rotina e lhe era penosa a estada aos sábados na sinagoga. O livro de orações aberto (desnecessário, de cor murmurava todas as preces) fechava os olhos às intrigas e se punha de lado, sempre de lado. No caminho admirava as cores vistosas das vitrinas, os arranha-céus se perdendo na volta do pescoço, e o incessante arrastar de automóveis. E nisso tudo pesava-lhe a solidão, o estado de espírito que não encontrara afinidade.
 
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