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Seminário O Escritor e a Cidade reúne até quinta-feira na Universidade de Brasília um time de autores brasileiros e portugueses, como Helder Macedo e João Almino, para discutir a presença e o peso da metrópole na criação literária
Paulo Paniago
Da equipe do Correio
| André Brant 25.8.94 |
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Antes mesmo de morar na cidade, o escritor João Almino iniciou trilogia ambientada em Brasília
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Cidade é um labirinto onde se perder. Quando se é escritor, a tentação é grande. Mas o 3º Encontro de Escritores de Língua Portuguesa que começa hoje no auditório da reitoria da Universidade de Brasília, cujo tema é O Escritor e a Cidade, tem outra pretensão: fazer os escritores se encontrarem nas cidades. O time reunido tem experiência. João Almino, por exemplo, fez trilogia que tem Brasília como cenário — e boa parte da escrita foi feita quando ele sequer morava aqui. Autor dos romances como Pedro e Paula, Viagem de Inverno e Partes de África, o português Helder Macedo nasceu na África do Sul, mora na Inglaterra e passou infância e adolescência em Moçambique e Portugal (leia entrevista).
Ou tome o escritor Luís Filipe Castro Mendes, cônsul-geral que em breve sairá do Rio de Janeiro para se tornar embaixador na Hungria. ‘‘Existem vários poemas do meu último livro, Os Dias Inventados, dedicados ao Rio de Janeiro, cidade em que fui recebido com muito carinho, que guarda herança portuguesa, que tem gentileza e onde fui conquistado pelas pessoas’’, derrama-se.
Rogério Menezes, autor de Três Elefantes na Ópera, que divide a noite de amanhã com Luís Filipe, também se sente à vontade com o assunto. Acha que São Paulo, onde morou 12 anos, lhe deu material para o romance, mas não tempo. E Brasília, onde hoje mora, além de material, também forneceu tempo e um tipo especial de solidão, necessária à escrita.
São muitos os escritores que se relacionam de modo todo especial com cidades: não só como cenário, mas como personagens. A Dublin de James Joyce, por exemplo, ou as muitas cidades, imaginárias e/ou reais que aparecem em As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. Retire de Machado de Assis o Rio de Janeiro e veja o que resta da obra. E note como João do Rio fala da importância de saber flanar (andar sem rumo, seguindo o fluxo) no Rio de Janeiro do início do século, em A Alma Encantada das Ruas.
Topografia montuosa
Em O Triste Fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto faz descrição dos subúrbios cariocas: ‘‘São a mais curiosa coisa em matéria de edificação da cidade. A topografia do local, caprichosamente montuosa, influi decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções. Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas se fizeram.’’
Ronaldo Costa Fernandes, co-organizador de O Imaginário da Cidade (com Rogério Lima, mediador hoje), que faz palestra na quinta-feira, tem uma tese. ‘‘A cidade é instrumento para o escritor entrar em contato com a civilização’’, argumenta, ‘‘mesmo que more na província’’. Mas isso, continua, depende muito do grau de percepção do escritor (a palestra se concentra a respeito de dois: Fernando Pessoa e García Lorca): ‘‘Mario Sá-Carneiro em Paris, no meio da vanguarda modernista, não percebeu nada daquilo até que foi alertado por Pessoa.’’
Rui Rasquilho, diretor do Instituto Camões e um dos organizadores do evento, diz que a idéia é fazer que alunos de cursos de letras, mas não só eles (a entrada é franca), possam ter contato com escritores de língua portuguesa. ‘‘É um contato com as respostas que os escritores formulam a diversas questões’’, diz. Nas edições passadas, o moçambicano Mia Couto, o angolano Pepetela e até o ganhador do Nobel de Literatura José Saramago foram alguns dos participantes.
PROGRAMAÇÃO
HOJE
19h às 21h
Abertura: Timothy Mulholland, Henryk Siewierski, Rui Rasquilho
Palestrantes: Helder Macedo (Portugal) e Tereza Cristina Cerdeira da Silva (Brasil)
Mediador: Rogério Lima (Brasil)
AMANHÃ
19h30 às 22h
Palestrantes: Rogério Menezes (Brasil) e Luís Filipe Castro Mendes (Portugal)
Mediador: Maria Isabel Edom Pires (Brasil)
QUINTA-FEIRA
19h30 às 22h
Palestrantes:João Almino (Brasil) e Ronaldo Costa Fernandes (Brasil)
Mediador: Sylvia H. Cintrão (Brasil)
Encerramento: Rui Rasquilho, Rita de Cassi Pereira, Maria Isabel Edom Pires
Todas as palestras serão no auditório da Reitoria da Universidade de Brasília
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entrevista / helder macedo
‘‘O Brasil é o futuro da língua portuguesa’’
Do Zero Hora
| Divulgação |
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Helder Macedo: Drummond foi mais importante que Pessoa
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Helder Macedo tem trajetória de vida singular: passou a infância em Moçambique e a adolescência em Portugal. Buscou exílio na Inglaterra, em 1960. Depois da Revolução dos Cravos, em abril de 1974, decidiu morar em Lisboa. Até 1980, colaborou com os governos pós-revolucionários, no Ministério da Cultura português. Desde 1969, trabalha no King’s College de Londres como titular da cadeira de Camões. Escritor de extensa obra ensaística, também é poeta e ficcionista. Vícios e Virtudes, seu novo romance, foi publicado no Brasil pela Editora Record.
Apoiado pelo Brasil, Portugal incentivou a criação da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Seria a iniciativa eventual retrocesso, já que Portugal hoje se insere na Comunidade Européia?
Essa comunidade lingüística foi apadrinhada pelo brasileiro José Aparecido. Mas há uma série de ambivalências. Quando foi discutido o acordo ortográfico entre Brasil e Portugal, houve acusações mútuas de imperialismo ou de colonialismo. Mas acho esse um assunto menor. Todos perdemos a virgindade ortográfica há muitos anos. Agora, o futuro da língua portuguesa, inevitavelmente, tem a ver com o Brasil. É o país com o maior número de falantes e, portanto, de escreventes. É paradoxal, mas sinto que o português falado e escrito em Portugal depende, de alguma maneira, mais da identidade cultural do Brasil do que o oposto.
Do ponto de vista do conhecimento de autores de língua portuguesa e brasileira, é vantagem ou desvantagem escrever
em português?
O primeiro passo para que seja vantagem será que os escritores de língua portuguesa se leiam uns aos outros, nos respectivos países. Houve tempo em que se liam autores brasileiros, até mais que escritores portugueses. Inclusive por razões políticas. Poetas como Drummond, para minha geração, foram mais importantes do que o próprio Fernando Pessoa. Drummond é um espantoso poeta, que sabia os versos de Bandeira de cor. Alguma coisa aconteceu que se está lendo menos literatura brasileira em Portugal. No Brasil, se estuda muito mais literatura portuguesa do que em Portugal se estuda literatura brasileira. Isso, acredito, é natural. Mas se não nos unirmos para promover uns aos outros, aí estamos enfraquecidos.
O senhor concorda com a afirmativa de que José Saramago teria colocado à margem uma geração de escritores?
Não. Pelo contrário. Há um fenômeno Saramago, que não se sabe muito bem como ocorreu. Inclusive, ele publicou sem sucesso no Brasil alguns de seus melhores romances. O Memorial do Convento, um grande romance, certamente não vendeu em Portugal mais exemplares do que vendeu no Brasil. Depois, houve um salto. São acidentes que ocorrem. Mas o fato de o foco estar em Saramago havia acontecido antes, com Fernando Pessoa. Aconteceu de um chofer de táxi me dizer que Pessoa fala por todos nós. Agora, é Saramago que fala por todos nós. É importante um Nobel de língua portuguesa, e mais ainda o fato de esse Nobel ser um bom escritor e ter escrito pelo menos uma obra-prima, O Ano da Morte de Ricardo Reis.
O senhor tem publicado mais narrativa. A carreira como narrador tem dez anos. Será que isso significa aquela questão ‘‘se é romancista mais tarde’’, ou pode significar alteração
de interesses?
Publiquei meu primeiro livro de poemas aos 20 anos e continuo escrevendo poesia. Sou poeta dos anos 50, ensaísta dos anos 70 e 80 e jovem romancista dos anos 90.
A personagem central do novo romance é uma mulher. Como é, para um homem, a construção de personagens femininas?
Essas personagens femininas são forma de tentar conhecer precisamente o outro. A predisposição de desejar conhecer essas personagens femininas se dá na medida em que gosto das mulheres. Esse desejo de conhecer o outro, acho fundamental em termos da ficção, de processo literário. Há escritores que pensam numa história. Penso numa pessoa, e meu processo costuma ser imaginá-la tão em detalhe quanto é possível.
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