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Cacilda por inteiro

Com sete anos de preparação, Fúria Santa reconstitui a vida profissional e afetiva da maior atriz brasileira do século 20. De passagem por Brasília, Cleide Yáconis viu pela primeira vez o livro sobre a vida da irmã

Sérgio Maggio
Da equipe do Correio

Fotos: Divulgação

 

 

 

 
Cleide Yáconis, 79 anos, não é uma mulher dada a emoções fáceis. Assumidamente cerebral, uma das damas do teatro brasileiro deixa para as personagens a invasão de sentimentos à flor da pele. A atriz, que passou três semanas em Brasília com a temporada do espetáculo Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, no entanto, desfaz o tom formal da entrevista quando vê, pela primeira vez, a biografia Cacilda Becker — Fúria Santa, do jornalista Luís André do Prado. ‘‘Você tem o livro! Como conseguiu? O meu já deve estar em casa’’, surpreende-se.

  Cleide Yáconis confessa que desde a morte da irmã, em 14 de junho de 1969, nunca deixou de estar com ela um dia sequer. ‘‘Com Cacilda, minha outra irmã (Dirce) e minha mãe (Alzira). Em todos os momentos, manhã, tarde e noite, estamos juntas. Não sei por qual razão fiquei como a última, depois vou saber por quê. Mas já está chegando a hora de encontrá-las.’’

  O prenúncio da morte de Cacilda Becker, aliás, é o ponto de partida para a narrativa de Fúria Santa. Como em um roteiro cinematográfico, Luís André do Prado retroage o tempo cronológico para o fatídico 6 de maio de 1969. Naquela data, Cacilda, já atriz consagrada no país, encenava Esperando Godot, de Samuel Beckett, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC — São Paulo). O espetáculo foi interrompido após o primeiro ato. Com forte dor de cabeça, a atriz vomitou na coxia, desmaiando em seguida. ‘‘Minha mãe saiu dali vestida de Estragon, aquela roupa toda rasgada do personagem’’, lembra Luiz Carlos Becker Fleury Martins. Trinta e nove dias depois, morreria de aneurisma cerebral.

  Luís André do Prado parte das impressões das testemunhas da última sessão de Esperando Godot para reconstituir a vida de Cacilda Becker. Da origem genealógica do sobrenome Becker à constituição da personalidade da atriz. As figuras da mulher e da profissional obstinada surgem simultaneamente aos olhos do leitor, inseridas em cenário histórico da formação do teatro brasileiro. Isso faz de Fúria Santa uma das melhores biografias publicadas no país.

  ‘‘É impossível compreender a importância de Cacilda sem entender a história do próprio teatro brasileiro, que muitas vezes, como disse a Bárbara Heliodora, ‘precisava mais dela do que ela dele’. Cacilda foi uma atriz essencialmente moderna’’, destaca Luís André.
  
Pelas coxias
Os bastidores das companhias são descortinados na biografia de Cacilda Becker. A montagem histórica de Vestido de Noiva (1947), apontada como marco zero do teatro contemporâneo brasileiro, é um dos capítulos mais instigantes. O autor reconstitui a entrada da estrela Cacilda Becker para integrar a trupe Os Comediantes, comandada pelo diretor polonês Ziembinski. ‘‘De minha parte não havia ciúmes, porque vivia o meu mundo. Mas os atores mais velhos e experientes pensavam: ‘Ela veio para tomar conta’’’, revela Maria Della Costa. Algumas linhas depois, o ator e marido de Cacilda, Tito Fleury, estabelece a contradição ao revelar que o grupo se dividiu com a chegada da estrela. ‘‘A grande rivalidade de Cacilda era com a Maria Della Costa.’’

  A riqueza da pesquisa — foram sete anos de preparação — e o universo dos depoimentos, 135 horas de fitas gravadas, espalham credibilidade pelas 623 páginas de Fúria Santa. Há ainda trechos de cartas escritas por Cacilda, que dão o tom de primeira pessoa à obra. ‘‘Eu estava apanhando do Ziembinski, mas fizemos ensaio sem papel (sem o texto na mão). Brilhei gente! Não ouvi uma reprimenda e olhem lá — Cacilda Becker!!! Fui aplaudida e Ziembinski disse que não tinha nada a corrigir. Fiquei feliz! Para mim, acabou o tabu Comediantes!!!’’, revela à família,

  ‘‘Como personalidade, a de uma mulher obstinada e intensa, em tudo que fez. Cacilda não era de meias medidas. Como atriz, uma profissional de grande sensibilidade, que se atirava no trabalho ‘sem rede de seguranças’, emprestando as palavras de Antônio Abujamra. Ela era assim no palco porque era assim na vida’’, descreve o autor.

  Cacilda Becker já foi tema de outros livros, estudos e espetáculos. Fúria Santa, no entanto, a traz de forma definitiva. Agora, a memória da atriz magistral passa às novas gerações com vigor. Até então, quem não viveu o seu tempo a lembrava muito mais pela célebre citação de Caetano Veloso: ‘‘Viva a Cacilda Becker!’’, frase que interrompeu as vaias à interpretação de É Proibido Proibir, no Festival Internacional da Canção (Record). Com essa obra, é possível chegar mais perto do mito Cacilda Becker, classificado por Cleide Yáconis como insubstituível.


Serviço
Cacilda Becker — Fúria Santa
Biografia de Luís André do Prado. Geração Editorial. 626 páginas. R$ 49,00.

Lembranças sem saudosismo
Cleide Yáconis em cena como Mary de Longa Jornada de um Dia Noite Adentro: Cacilda fez o mesmo papel
 

Cacilda Becker já era atriz quando Cleide Yáconis pisou pela primeira vez no palco. Não houve influência direta da irmã. Ao contrário, a estréia foi incidental. ‘‘Assistia a muitos espetáculos. Um dia a Nydia Lícia ficou doente e, espontaneamente, a substituí. Todo mundo estava tão desesperado que fiz o papel. Mas não fui tomada por nada, custei muito a gostar do teatro. Não sabia o que era o teatro, não sabia da sua realidade fantástica, nunca tinha lido uma peça. Sabia de biologia, química, física’’, conta a atriz.

  Muito lentamente o teatro abortou os planos de Cleide em seguir carreira de Medicina. Ziembinski a levou para o TBC e, um ano depois da estréia, recebia o prêmio de atriz-revelação pelo espetáculo Anjo de Pedra (1951). ‘‘Tudo isso era uma contradição. Porque o teatro não foi para mim uma paixão à primeira vista. Os diretores me convidavam e, em sete anos de TBC, fiz 28 peças. Aí, comecei a entender que, através do teatro, a gente conhece a história da humanidade.’’

  As irmãs Cleide e Cacilda são do tempo em que o teatro brasileiro era puro ofício. Uma época em que o ator entrava às 13h e saía no meio da madrugada. ‘‘Tínhamos diretores extraordinários, não eram só ensaios, tínhamos aulas e aulas, laboratórios, leitura de texto e convivência com o elenco’’, lembra Cleide.

  Mesmo em meio a reminiscências, Cleide Yáconis é pouco afeita ao saudosismo. Não elege uma personagem, nem diretor, nem espetáculo. Vive com intensidade o presente. Faz isso com Mary de Longa Jornada de um Dia Noite Dentro, uma composição fenomenal da matriarca dos Tyrone, criada por Eugene O’Neill. Por coincidência, Cacilda fez o mesmo papel. ‘‘Minha irmã a fez extremamente jovem, com trinta e poucos anos. Mas o papel exige a vivência, não é só a técnica’’, pondera Cleide, levantando uma questão explicitada na biografia Fúria Santa: Cacilda gostava de viver personagens incompatíveis com seu tipo físico.

  Comedida, Cleide se define como uma ostra. Não costuma falar de sua vida pessoal. Gaba-se de nunca ter aparecido em revistas do tipo Caras. A reclusão tem seus méritos. Pouca gente sabe, por exemplo, que foi casada com o ator Stênio Garcia. ‘‘Sou um poço de contradição, muito forte, muito frágil, muito brava, muito doce. Na minha vida pessoal, sou quadradona, mística, gosto de orar. Deixo as loucuras para o palco, faz muito bem’’, revela a atriz que mora só numa chácara em São Paulo. ‘‘Tenho um filho de rabo, um cachorro: Felipe.’’

 
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