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LITERATURA
O lado oculto de Hemingway
Manuscritos originais do autor de O Velho e o Mar encontrados por equipe americana poderão desvendar parte da atribulada vida de um dos maiores escritores do século 20
Kevin Sullivan
Do The Washington Post
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Num clima de umidade tropical, uma delegação de quatro norte-americanos encontraram o que descreveram como a sorte grande: armários e caixas cheios de milhares de páginas dos manuscritos originais de Ernest Hemingway. Um quarto onde apenas poucas pessoas tiveram acesso nas últimas quatro décadas apresenta o que estudiosos dizem que promete ser um dos mais importantes tesouros na história da literatura norte-americana. São rascunhos de várias obras, cartas de amor e ódio escritas a mão, bilhetes em inglês e espanhol e milhares de fotografias no porão de sua casa em Cuba.
Sandra Spanier, pesquisadora da universidade da Pensilvânia e editora da uma coleção completa de cartas do escritor descreve a visita ao porão como ‘‘a emoção de uma vida’’. Ela disse que a coleção iria dar aos pesquisadores e biógrafos um entendimento mais completo do tempo que Hemingway passou em Cuba. Esse período importante sempre atormentou aqueles que estudam o ícone norte-americano, que se matou em Idaho, nos Estados Unidos, em 1961. Agora eles terão um novo material rico para examinar, incluindo o que parece ser um epílogo de Por quem os sinos dobram.
O porão também guarda um manuscrito original datilografado de In Another Country, uma história que Hemingway escreveu em Paris nos anos 20. E há também cartas que ele mandou e recebeu de sua quarta mulher, Mary, junto com uma coleção de cartas de Adriana Ivancich, uma aristocrata italiana de 19 anos por quem Hemingway esteve totalmente apaixonado e que inspirou a personagem Renata em Do outro lado do rio; entre as árvores.
Tesouro detalhado
Nesse porão, também foram encontrados contas de bar e de lavanderias, e um conjunto de instruções em espanhol de como a cozinheira deveria preparar e servir suas comidas favoritas, especialmente abacates. ‘‘Esses detalhes domésticos realmente fornecem uma imagem dele’’, disse Sandra. ‘‘É possível reconstruir sua vida num nível extraordinário de detalhes, o que ajuda a separar o homem do mito e ver o artista trabalhando’’.
A visita feita por Sandra em março a Finca Vigia, ou à Fazenda Vigilante, a casa em cima da colina a pouco mais de 14 km de Havana, foi o primeiro passo num esforço ambicioso de microfilmar, digitalizar e preservar os papéis de Hemingway. O projeto de preservação vai ser lançado oficialmente em 11 de novembro.
Cecília Lambrada, uma das guias da casa, diz que o projeto de preservação seria fantástico. ‘‘Não é segredo que nós temos poucos recursos, e os materiais de preservação e restauração são extremamente caros’’. No entanto, o Departamento de Tesouro norte-americano tem que aprovar o projeto porque envolve um embargo econômico de 40 anos que os Estados Unidos impuseram a Cuba.
O projeto de preservar os papéis de Hemingway começou em janeiro de 2001 com a visita de Jenny Phillips, a neta de Maxwell Perkins, o editor lendário de Hemingway. Naquela viagem, Jenny e seu marido ouviram boatos sobre um porão que estava fechado ao público. O interesse deles foi imediato. Contactaram James McGovern, um advogado com laços estreitos com Cuba, para ajudá-los a encontrar um jeito de ir até esse porão. McGovern liderou uma delegação para Havana uma ano depois. Os visitantes e funcionários cubanos concordaram em fazer parte do esforço de preservação.
McGovern disse que os norte-americanos pediram que os cubanos deixassem que as posses de Hemingway fossem levadas para os Estados Unidos para serem preservadas, o que ele chamou de ‘‘arrogante e humilhante’’. ‘‘Reconhecemos que Ernest Hemingway é uma figura com importância histórica, cultural e literária não só nos Estados Unidos mas em Cuba também’’, disse McGovern.
Segundo o advogado, o projeto será aprovado pelo Departamento de Tesouro, mas não sem problemas. McGovern disse que um burocrata do governo norte-americano sugeriu que pode ser difícil levar um ar-condicionado para Cuba, um utensílio que os defensores do projeto querem para controlar o calor e a umidade no porão. O funcionário disse que poderiam haver objeções porque um ar-condicionado poderia ser usado para resfriar a temperatura nas barracas militares cubanas. ‘‘É história, e não tem nada a ver com o que você pense sobre as políticas de Fidel Castro’’, rebateu McGovern.
Reminiscências do escritor
‘‘Hemingway é um ícone em ambas as culturas’’, disse Sandra, mostrando que o escritor passou mais de um terço de seus 61 anos em Cuba — de 1939 a 1960 — e doou para o povo cubano a medalha do seu prêmio Nobel de Literatura de 1954. O nome e a imagem de Hemingway estão por todos os lugares em Havana, desde o bar El Florida, o seu lugar preferido para beber daiquiris, até La Bodeguita del Medio, seu lugar favorito para beber mojitos, até seu quarto perfeitamente preservado no Ambos Mundos Hotel, onde ele freqüentemente escrevia e dormia depois de beber. Em Cojimar, a pequena vila do porto que inspirou O Velho e o Mar, pescadores que o conheciam doaram suas hélices dos barcos para serem derretidas e servirem de matéria-prima para um busto do escritor.
A máquina de escrever, como todo o restante do dia-a-dia da vida de Hemingway, foi preservada pelo governo cubano. Um mês depois de sua morte, Mary Hemingway colocou quase 100kg de papéis e outros itens pessoais num barco de pesca de camarão com destino a Flórida. Sandra disse que esses manuscritos que Mary tirou de Havana se tornaram trabalhos póstumos publicados, incluindo Ilhas na Corrente e O Jardim do Éden.
Atualmente, os mocassins de Hemingway ainda estão guardados num armário perto da escrivaninha com os cartuchos de espingarda e estátuas de elefantes. A sua poltrona favorita ainda está perto de uma bandeja cheia de garrafas de gim Gordon’s e bourbon Old Forester. Cabeças enormes de búfalo e antílope ainda estão penduradas na parede vazia e cópias velhas da Sports Illustrated e Today’s Japan estão no porta-revistas. A mesa de jantar ainda está arrumada com louça de Limoge (França) para uma refeição que jamais será feita.
As estantes nos oito quartos ainda estão abarrotadas com nove mil livros. Na sua cópia de O Livro de Prosa Inglesa da Oxford, Hemingway circulou o verso de John Donnes — ‘‘Nenhum homem é uma ilha’’, que se tornou o epígrafo de Por quem os sinos dobram. Na sua cópia de O Morro dos Ventos Uivantes, ele anotou sua altura, peso, pressão sanguínea e batimento cardíaco.
Sua coleção de pôsteres de tourada e telas ainda estão nas paredes junto com um prato que seu velho amigo Pablo Picasso lhe deu com uma imagem de touro. O sofá que o ator Gary Cooper usou para dormir ainda está coberto com uma pele de guepardo, do lado de uma escrivaninha onde Hemingway abria a correspondência habilmente. No banheiro, o registro diário de seu peso ainda está anotado na parede perto do lagarto que ele mantinha num jarro. Isso se deve, aparentemente, os guias dizem, em tributo a sua braveza num encontro fatal com um de seus gatos.
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