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Entrevista / Bruno Tolentino
poesia
Encarnação de Goethe
Escrito ao longo dos últimos 40 anos, O mundo como idéia sintetiza a poesia publicada pelo autor que naturalmente se compara ao genial criador de Fausto
Nahima Maciel
Da equipe do Correio
| O mundo como idéia |
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Poesias de Bruno Tolentino. Editora Globo, 443 páginas. R$ 50,00.
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Bruno Tolentino retornou ao Brasil em 1994, depois de 30 anos no exterior. Aterrissou por aqui sem papas na língua e foi logo comprando brigas. Muitas brigas. Reclamou que Caetano Veloso era considerado poeta quando não passava de letrista, que os irmãos Campos (Haroldo e Augusto) nada sabiam de traduções e andou soltando farpas contra professores de filosofia da Universidade de São Paulo. Disse que fez isso somente para estimular o debate.
Virou, óbvio, figura non grata e polêmica ao acusar o concretismo de minar a poesia brasileira de qualidade produzida nos anos 50. Tolentino também levou a pecha de mitômano. Culpa da sua biografia, em muitos pontos extravagante e até duvidável. Diz ele ter convivido com figuras como Elisabeth Bishop, Samuel Beckett — que o teria aconselhado a escrever em inglês, já que os escritos em português eram ‘‘excelentes’’ —, Marguerite Yourcenar e Giuseppe Ungaretti, do qual foi hóspede em Roma em 1964, depois de fugir do regime militar.
A lista de referências é tão ‘‘especial’’ que a imprensa tentou checar a veracidade. Não conseguiu. Mas também não provou o contrário. À mitomania de Tolentino também foram creditados um câncer (curado!) e a Aids, além de oito anos de prisão na Inglaterra, onde morou, por tráfico de drogas. ‘‘Às vezes, dão mais importância à minha biografia que aos meus livros’’, costuma lamentar, sem no entanto deixar de falar sobre o assunto. Fato é que o poeta trabalhou com W.A. Auden quando dirigiu o Oxford Poetry Now, departamento de poesia da Oxford Press University. Também é primo de Bárbara Heliodora e Antonio Cândido, responsável por eventuais encontros de um Tolentino adolescente e personalidades literárias.
Aos 62 anos, o poeta tem no currículo obra bilíngüe. Escreveu em inglês (About the hunt), francês (Le Vrai Le Vain) e português (As horas de Katharina, Os deuses de hoje). Agora, lança no Brasil O mundo como idéia, fruto de 40 anos de trabalho e espécie de síntese de sua poesia publicada. ‘‘O mundo como idéia está em todos os meus livros, e não é de espantar, pois sua matéria está ligada ao centro nevrálgico de toda minha problemática’’, explica, em entrevista por e-mail ao Correio. Entrevista, aliás, na qual se permitiu alterar algumas perguntas e respondê-las com a justificativa de que ficavam melhor a seu modo. Não há modéstia com Bruno Tolentino. Com naturalidade, ele se compara a Goethe. A língua afiada já lhe valeu o título de maldito, mas a produção literária é celebrada em muitos meios. Nas resenhas (que o poeta não chama de resenhas, já que, segundo ele, não há críticos literários no Brasil) publicadas recentemente, poucos são os críticos desgostosos. Tolentino é sofisticado, sugerem.
De volta ao Brasil, dividido entre um mosteiro em Caeté (MG), a montagem do Centro de Fé e Cultura da PUC em São Paulo e o Rio de Janeiro, onde nasceu e tem família, o poeta resolveu não mais deixar o solo tupiniquim. Lei abaixo trechos da entrevista.
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CORREIO BRAZILIENSE — Por que 88 páginas só de introdução à temática de O mundo como idéia?
BRUNO TOLENTINO — Porque não é meramente de uma temática, mas de uma problemática que se trata. Todos os meus demais livros seriam extensões, ou particularizações, das questões fundantes, dos contrastes cruciais, de cujo embate contínuo este livro-arena foi durante 40 anos o espelho vivo e o campo de batalha. Este é o único livro que eu planejava escrever, ou seja, o projeto de composição de O mundo como idéia desde cedo aparecia-me como a indispensável decifração do mapa da mina, sem a qual eu jamais encontraria, digamos, o Ouro da Musa...
CORREIO — Nesse prólogo, o senhor sugere uma luta que lhe permitisse exercer uma ‘‘filosofia’’ da forma sem ‘‘má consciência’’. O que na forma poderia ser responsável por uma má consciência?
TOLENTINO — Chamo má consciência em arte o 171 típico do mau artista, aquele que a si mesmo insiste em vender gato por lebre. Exemplos: por um lado, a noção de arte ‘‘espontânea’’, a arte como espirro emocionado, e, por outro, os simplismos que levam a tantos outros ‘‘ismos’’, a facilidade das fórmulas que terminam por substituir-se ao esforço e à lucidez. Em arte, há má consciência sempre que, falseando a complexidade da questão capital das relações entre a expressão e a forma, os variegados formalismos esvaziam-na de todo significado relevante e fazem do ato de criação mero malabarismo, jogo mental. Concordo com (Yves, poeta) Bonnefoy, quando nos adverte de que não há pior maldição neste mundo do que reduzir a vida a uma brincadeirinha solenizada, a um jogo aparentemente arrojado, mas de mentirinha. Ora, o vale-tudo de nossa poesia desde os anos 60 é predominantemente o resultado desse vício, dessa moléstia fatal à vida do espírito. Foi a contrapelo disso que compuz este livro: ‘‘...para contar daquele instante/ quando o que mais amamos chega ao fim,/ e um belo simulacro delirante/ usurpa-lhe o lugar; quando é assim/ que a arte desfaz da luz agonizante,/ convence a muitos, não comove a mim.’’
CORREIO — Mas fazer arte não é, de certo modo, trocar o mundo-como-tal pelo mundo-como-idéia?
TOLENTINO — Só de certo modo, e ainda assim até certo ponto, ou seja, haverá sempre esse momento de risco, basicamente o problema da adequação de uma linguagem a uma visão. A esse risco chamo no livro ‘‘passagem de nível’’, algo assim como o cruzar de uma ferrovia. É a operação inerente ao fenômeno formal, daí a necessidade de filosofia da forma que clarifique os termos em questão e minimize os riscos da substituição, digamos, de um sujeito (ou, no caso da pintura, de um objeto) por uma imagem; aqui os riscos são enormes, a questão da justeza da forma é coisa delicadíssima, dado que na arte não há figuração sem transfiguração. É aqui, nesse ponto crucial de transformação de uma visão do mundo num fenômeno de representação pela linguagem, que surge o perigo de desvio, de perda de substância. Se lhe pergunto onde fica a padaria tal, não me posso contentar com uma dissertação sobre a correta temperatura em que se ‘‘deve’’ fazer o pão, e em que tipo de forno etc. Pertinente ou não, isso é teoria, e a arte não procede de generalidades, sua forma e sua função estão ligadas à pertinência de tal ou tal visão pessoal, é a particularidade da percepção do real em ato que lhe confere voz, veracidade, vida. Como se deve fazer o pão não vem ao caso, jamais vou me alimentar disso... É isso o mundo-como-idéia, substituição indevida, que nos menos dotados resulta em discurso oco, na vã eloqüência, numa pomposidade tão danosa quanto inútil.
CORREIO — Quando e como nasceu O mundo como idéia?
TOLENTINO — A semente surge entre 1957 e 1959, das conversas com o (Ferreira) Gullar e da correspondência com Bonnefoy. A partir de então, a questão da ‘‘veracidade’’ da obra contra o fundo de ‘‘irrealidade’’ da forma não me daria mais sossego. Comecei o livro em francês, e em 1966 ele ainda se confundia com Le Vrai Le Vain. Foi só depois da publicação deste, em 1971, que a autonomia de O mundo como idéia se tornou evidente e a necessidade de continuá-lo fez-se imperativa. Ainda assim, foi ao longo da composição de About the hunt, publicado em 1979, que a necessidade de aprofundar todas aquelas questões me forçou a estender até seus limites a enorme imprudência daquele projeto juvenil. Posteriormente, ao coligir em 1984 dez anos de anotações para o curso de História das Idéias que vinha mantendo em Oxford, todo ele baseado na mudança de paradigma como aparece na pintura da Renascença, foram-me surgindo os 101 sonetos da parte principal da obra, A imitação da música, todos em português, uma dezena dos quais já no Brasil. Mas o batismo de fogo de O mundo como idéia foi mesmo o empenho com que José Mário Pereira praticamente me acorrentou à tarefa de ampliar ao máximo o livro que lhe mostrei em 1995. Daí a encomenda que me fez desse prólogo sobre ‘‘a gênese do livro’’. Como vê, nem tudo é culpa minha...
CORREIO — O senhor diz que O mundo como idéia serviu de sustentação a sua obra. Isto significa que a obra de Bruno Tolentino pode ser encontrada neste livro?
TOLENTINO — Não, é o contrário que me parece verdade: O mundo como idéia está em todos os meus livros, e não é de espantar, pois sua matéria está ligada ao centro nevrálgico de toda minha problemática. Como espécie de ponto de convergência de minha visão de mundo, neste livro estão todos os dados objetivos de minha busca do real através da arte, mas há outros aspectos dessa relação que se desenvolveram em livros independentes. Por exemplo: As horas de Katharina ficcionaliza coisa bem mais profunda que meras interrogações filosóficas, pois concerne à busca específica de relação pessoal com Deus; assim como Os deuses de hoje retrata minha relação pessoal com a pátria, as raízes, o passado da raça; já A balada do cárcere, não obstante ser livro quase acidental, também analisa a inadequação da criatura à realidade, o conflito entre vontade de poder e os conceitos de Bem como de Mal. Mas tudo em meus 45 anos de escrita converge para ou nasce deste O mundo como idéia, de modo especial meu livro sobre a filosofia da História, o Eros-Thanatos, a antinomia Oriente-Ocidente, segundo muita gente boa, o meu melhor trabalho: A imitação do amanhecer, a ser publicado ano que vem.
CORREIO — Foi o rigor formal ou a gravidade do sujeito o que exigiu 40 anos para permiti-lo terminar O mundo como idéia?
TOLENTINO — Uma coisa e outra, de resto inseparáveis em minha definição de forma. Note-se que Goethe também investiu quatro décadas na composição de seu Fausto, súmula de obra ímpar que sem aquele apogeu teria bem menos impacto. Malgrado o esplendor de tudo o mais que fizera, seria em seu livro-cume que o sábio de Weimar iria expor e elucidar questões cruciais que vão da análise das categorias do real à definição dos fundamentos do ser, dos riscos do livre arbítrio aos termos e limites da liberdade, do duelo do Bem e do Mal ao confronto do real com seus simulacros. Tudo isso deveria estar também no meu O mundo como idéia. Aliás, como Goethe, também venho sendo acossado pelas ‘‘matilhas do irracional’’, meu ‘‘drama da razão’’ tem tudo a ver com o dele. Acusado de altivez e alheamento ante as convulsões de seu tempo, faço minha sua famosa resposta, segundo a qual a obsessão com a atualidade do presente é tarefa para os que nela cabem inteiros e com ela se contentam; a do verdadeiro artista é a de ‘‘garantir valores imprescindíveis à possibilidade mesma de um futuro’’.
CORREIO — Em certo momento, o senhor descreve o livro como ‘‘alinhavo’’ de metáforas e ritmos nascido de ‘‘meio milênio de ocidentais perplexidades’’. A ambição contida num projeto como o de O mundo como idéia não é de deixar perplexo também qualquer poeta?
TOLENTINO — Talvez. Mas hoje não tenho dúvidas de que O mundo como idéia responde, em termos de modernidade estética e pertinência filosófica, à mesma ‘‘situação’’ que Goethe enfrentou há 200 anos. Como no caso do seu Fausto, não fiz um livro ‘‘sobre’’ uma civilização em crise de autoconfiança, mas a análise de uma enfermidade da mente, a nosema te adikias segundo o Górgias de Platão. E espero ter indicado um roteiro para fora, para além, para acima — para muito acima — desse labirinto de ilusões banais que insistimos em cultuar como moderno, atual, da hora etc. Porque, afinal, não estamos vivendo nenhum fim da História, mas apenas a catarse de drama barato, totalmente manufaturado por caricatura do Prometeu clássico, o homem pós-renascentista, esse candidato a clone que já nem sabe que nome dar à falida falácia de seu sonho de onipotência.
CORREIO — Quando deu declarações polêmicas sobre os irmãos Campos e Cateano, o senhor foi acusado de estar fazendo marketing para lançar um livro. Por que acha que foi interpretado dessa maneira?
TOLENTINO — Esse pessoal só pensa nesses termos. São caixeiros de supermercado. Não conseguem entender que não se faça nada que não seja pela cultura. Além de terem biotipo de quitandeiros. Não fiz nada disso para lançar livros. Aliás, escrevi até artigo para denunciar essas pessoas que fazem parte do crime organizado da República das Letras.
CORREIO — O senhor disse certa vez que nunca daria aula em universidades brasileiras. Qual o problema delas?
TOLENTINO — A caralhice (sic) da universidade brasileira só me deixa entrar se for disfarçado de cachorro. A universidade é um esgoto pensante. Se eu vier a dar aulas será na PUC/SP e para detonar. Aqui, você não pode ter idéias que não sejam marxistas. A PUC é um túmulo de Tutankamon. É o último baluarte do muro de Berlim. Todos os professores são ex-guerrilheiros. Essa é a elite radical. É lá que posso fazer a diferença.
CORREIO — Há algo de bom na poesia brasileira contemporânea?
TOLENTINO — Aí você me pegou. Vamos ver... Alberto Cunha Mello. É de uma integridade total, tem responsabilidade moral e vive essa responsabilidade. É pernambucano. O problema é que se houver algo que preste por lá eles (Ariano Suassuna e o falecido João Cabral de Melo Neto) tratam de cobrir de silêncio. Se houver alguém que não rode a bolsinha não está no noticiário. A não ser que seja bandido que nem eu.
CORREIO — O que é a boa poesia?
TOLENTINO — É como boa trepada. Ou você sabe ou não sabe. É alquimia inconfundível, você sabe muito bem o que aconteceu. A boa poesia você tem que poder viver como se vive um romance. A emoção estética pode até existir em nível de instinto, mas a boa poesia é coisa tão bem resolvida que se sabe imediatamente que se está diante de algo bom.
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Poema
19
(19º poema do livro A Imitação da Música,
o último de O Mundo como Idéia)
Estranho imaginar já murcha a fronte
do jovial autor da Primavera...
Recurvo como um dorso de bisonte,
um velhote esquecido de quem era
penosamente cruza a velha ponte,
entra no Carmo e mede a sombra austera
da esmola do Masaccio: a mão que dera
tal tributo sumira no horizonte...
E o esteta envelhecido uma vez mais
reúne as parcas forças e admira
no adeus do último olhar o que já vira
interminavelmente, se jamais
como a alma o mendiga — aquela paz
que vai dizendo ao coração: suspira!
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