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Doentes de emoção

Cerca de um terço das enfermidades que afligem a população são de origem exclusivamente emocional. Esses problemas são conhecidos como doenças psicossomáticas

Guaíra Flor
Da equipe do Correio

 
Arrancar os cabelos de tanto nervosismo não é apenas figura de linguagem. Isso é doença e tem nome: tricotilomania. A pessoa fica tão estressada que, sem perceber, arranca os cabelos e faz feridas na cabeça. Coisa de gente doida? De jeito nenhum. Qualquer um pode ter essa ou outra doença de fundo emocional se não conseguir lidar bem com um problema ou sentimento.

  Cerca de um terço das enfermidades que afligem a população são de origem exclusivamente emocional (psicossomáticas). Elas aparecem em momentos de grande estresse, frustração ou ansiedade. Como, por exemplo, durante uma separação. Se a pessoa não enfrentar a situação de frente, toda a dor e mágoa ficarão guardados. E sentimentos — sejam eles quais forem — não aceitam ser ignorados. Eles chamam atenção para si, por bem ou por mal. Nem que, para isso, tenham de abalar todo o organismo.

  É o caso de Margarida, 33 anos, funcionária pública federal. Há quase um ano, ela sofre com a possibilidade de perder o cargo no ministério onde trabalha. Como se não bastasse a indefinição profissional, Margarida terminou um namoro de sete anos. ‘‘Eu tento ter pensamentos positivos e pensar nisso tudo como uma fase ruim’’, desabafa. ‘‘Mas é difícil superar essa ansiedade.’’ Desde então, ela enfrenta grave crise de tricotilomania. Margarida, literalmente, arranca os cabelos quando chega em casa. ‘‘Quando vejo, já arranquei um pedaço fora’’, conta.

  A cabeça de Margarida é cheia de falhas e feridas por causa da doença. Como tem muito cabelo, os colegas nem percebem o drama pelo qual ela passa. ‘‘Tenho medo do meu chefe achar que é frescura e me demitir, por pensar que não dou conta do trabalho.’’

  A estratégia de Margarida — de esconder os próprios sentimentos — é típica de pessoas propensas a desenvolver doenças psicossomáticas. ‘‘A pessoa finge que está tudo bem para os outros, mas o organismo se encarrega de mostrar que a história é diferente’’, explica o psiquiatra Geraldo Massera, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

  Segundo ele, o poder da mente é, às vezes, inacreditável. ‘‘Tive um paciente que ficou cego por motivos psicológicos’’, recorda. Os olhos deles funcionavam perfeitamente, mas o cérebro não permitia a formação de nenhuma imagem. A doença do rapaz durou cerca de 20 dias. Ele perdeu a visão durante o enterro do pai. ‘‘Aquela visão foi tão dolorosa que a mente dele simplesmente se recusou a continuar presenciando a cena. Daí, a impressão da cegueira.’’

Sintomas reais
Médicos e psiquiatras são unânimes ao afirmar: qualquer pessoa está sujeita a desenvolver uma doença psicossomática. Algumas até já sofrem do mal sem perceber. A asma e a artrite (dores nas articulações), por exemplo, têm um forte fator emocional. Crianças que só começam a ter dificuldades para respirar depois de completar 5 ou 6 anos sofrem de asma psicossomática. A falta de ar é uma maneira de atrair a atenção dos pais.

  Para ter certeza de que uma doença tem origem psicológica, deve-se descartar todas as causas orgânicas primeiro. Por isso, recomenda-se uma série de exames antes de fechar o diagnostico. É importante esclarecer que, apesar de a enfermidade ser emocional, o paciente precisará de tratamento médico. ‘‘Os sintomas que ela apresenta não são imaginários e, portanto, exigem cuidados especiais’’, ensina o psiquiatra.

  Outras doenças psicossomáticas comuns são a psoríase (descamação da pele), o vitiligo (perda do pigmento da pele) e a alopécia (perda espontânea de pêlos do corpo). O fato de todas afetarem a pele não é coincidência. ‘‘Depois do cérebro, a pele é o órgão com o maior número de terminações nervosas do corpo’’, explica o dermatologista Francisco Leite. ‘‘Isso quer dizer que a pele está intimamente ligada ao sistema nervoso central e, conseqüentemente, às emoções.’’

  Em princípio, os pacientes nem imaginam que as irritações na pele e queda de cabelo têm fundo emocional. Mas, ao conversar com o dermatologista, acabam percebendo: o problema surgiu após um forte estresse.

A melhor maneira de acabar com o problema é tratando, simultaneamente, a pele e a mente. Por isso, além dos medicamentos tradicionais, recomenda-se terapia. Quando a pessoa ficar de bem consigo mesma, os sintomas tendem a regredir. O doente citado acima, por exemplo, controlou a doença logo após o novo matrimônio. O fato de se sentir amado novamente ajudou na cura.


O nome da entrevistada foi trocado para preservar sua identidade

Sintomas reais, origem imaginária

Quem sofre de alguma doença psicossomática não tem controle sobre ela. A pessoa não pensa conscientemente em arrancar os cabelos ou ficar com a pele manchada. Quem se encarrega disso é o sistema nervoso central, que lança uma série de hormônios na corrente sangüínea — capazes de alterar o funcionamento normal do organismo. Conheça, a seguir, algumas doenças de fundo emocional:

Alopécia Areata
Vulgarmente conhecida como ‘‘pelada’’. Se caracteriza pela perda espontânea e repentina dos pêlos do corpo. Pode ser universal (perdem-se todos os pêlos, inclusive os cabelos) ou parcial. O fotógrafo Sebastião Salgado, famoso internacionalmente por suas fotos sobre a miséria e os trabalhadores sem terra, sofre de alopécia universal.

Artrite
Alguns tipos de inflamação nas articulações têm fundo emocional. A dificuldade para movimentar dedos, mãos e pernas está ligadaao estresse, não a causas físicas.

Asma
A falta de ar muitas vezes é uma estratégia do subconsciente. A mente sabe que ao sentir dificuldades para respirar, a pessoa chamará atenção para si ou conseguirá escapar por alguns momentos de outros problemas.

Psoríase
Descamação da pele. Atinge regiões simétricas, como joelhos, mãos e cotovelos, simultaneamente. A doença afeta muito a auto-estima da pessoa, porque atinge regiões do corpo que não se pode esconder.

Síndrome do Pânico
Potencialização da ansiedade desencadeada por algum evento estressante. Provoca aumento dos batimentos cardíacos, sudorese, dormência dos membros e sensação anormal de medo.

Tricotilomania
É a mania de arrancar pêlos. Quem sofre da doença arranca os cabelos inconscientemente. De tanto coçar a região, ela faz feridas e consegue arrancar os fios pela raiz.

Vitiligo
Destruição progressiva das células que dão pigmentação à pele. Isso provoca manchas brancas de tamanhos variáveis em todo o corpo. O cantor Michael Jackson diz sofrer da doença. Ele garante que fez a cirurgia para ficar branco para esconder as manchas de vitiligo. Acredite se quiser...

 

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