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Artes Cênicas
Cortejo popular
Companhia Esquadrão da Vida toma conta das ruas com Folia Real, dirigido por Ary Pára-raios. A peça, que terá quatro apresentações até domingo, cria identificação imediata com o público pelo seu forte caráter mambembe
Da Redação
| SergioAmaral |
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Inspirado em músicas e danças de domínio público, o espetáculo Folia Real parou o Setor Comercial Sul
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O cearense Roberto Rios sentiu-se em casa. A carioca Hermínia Fonseca também voltou ao passado. Os dois estavam boquiabertos com a trupe de atores, que cruzou o Setor Comercial Sul ao som de canções populares. ‘‘Isso é muito comum nas ruas do Rio. Aqui, em Brasília, deveria ter muito mais’’, desejou a senhora, que há 30 anos mora na capital federal. ‘‘É muito parecido com as festas religiosas da minha terra’’, observou o nordestino.
Folia Real é espetáculo de rua concebido pelo diretor Ary Pára-raios. Passando por momento delicado de saúde, ele não pôde acompanhar, na manhã de ontem, o itinerário dos atores da companhia Esquadrão da Vida. Coube à filha Maíra, assistente de direção da peça, conduzir o grupo na temporada que vai até domingo. ‘‘Disse a meu pai que a gente estava vindo para cá apresentar Folia Real. Ele me respondeu: ‘Minha filha é você que vai seguir em frente com minha arte’’’, confessou, emocionada.
Com violão em mãos, Maíra guiou o grupo entre as bancas de roupas, brinquedos e tantos outros produtos expostos nos calçadões do Setor Comercial Sul. Pega de surpresa, a ambulante Eleuza, 20 anos de comércio informal, não resistiu às canções. Enquanto arrumava a mesa de espelhos e pentes, cantarolava: ‘‘Quem me ensinou a nadar/ Quem me ensinou a nadar/ Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar.’’
‘‘Sou de Goiás e isso me lembra demais minha infância.’’ À medida que avançavam, os atores faziam acrobacias, reforçando o espírito mambembe do grupo. Formaram pirâmide humana e, nos raros momentos de interpretação de texto, recitaram jogral, criticando o poder e as distorções da mídia. O público aplaudiu. Até senhores, que jogavam dominó atentamente, interromperam a concentração matemática para acompanhar o Esquadrão da Vida. ‘‘Êta trem bão’’, gritou um deles.
‘‘Muitos criticam o meu pai, dizem que ele é utópico. Porque quer viver de arte, nunca fez concessões. Para mim, ele é minha principal referência. Foi ele quem me transformou em artista. Por isso, sigo agora com seu trabalho’’, orgulha-se Maíra. Além dela, Tiana — outra filha de Pára-raios — integra o grupo.
A estética de Ary Pára-raios é popular. Folia Real é inspirado em danças e músicas de domínio público. Nas ruas, o espetáculo interage facilmente com a platéia. Não à toa, os locais escolhidos para apresentação em Brasília são freqüentados por gente do povo, a exemplo da Rodoviária, Torre de TV e Zoológico. ‘‘Vi esse pessoal passando e perguntei: Meu Deus, que festa é essa? Disseram que era espetáculo de rua. Vim atrás e estou maravilhado. Tudo muito bonito e colorido, elenco perfeito’’, analisou Cardoso da Silva.
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Feliz com Folia Real
O diretor Ary Pára-raios, 63 anos, está em casa. Recentemente, ele foi internado para tratar de câncer. Sem acompanhar a série de apresentações de Folia Real, ele tem informação diária do espetáculo que teve temporada interrompida no final de 2001. ‘‘Este momento é muito delicado para todos nós. Sempre digo que meu pai vai se curar pela arte. O fato de esse espetáculo estar sendo encenado já faz ele muito feliz’’, conta Maíra. Ary Pára-raios chegou a Brasília em 1975. Desde então, o palhaço desenvolve trabalho próprio para espetáculos de rua.
Serviço
FOLIA REAL
Espetáculo de rua com a companhia de teatro Esquadrão da Vida. Direção: Ary Pára-raios. Amanhã, às 17h, na Rodoviária do Plano Piloto. Sábado, às 11h e às 13h, na Torre de TV
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