COMPORTAMENTO
Assim também se ama em Brasília
Na cidade cartão-postal, nem todos os lugares têm paisagens dignas de romance. Mas a gente simples e humilde não se preocupa com aparências e faz ficar bonito qualquer canto, desde que tenha amor no meio
Da Redação
| José Varella |
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É na estação rodoviária do Plano Piloto, onde Washington trabalha, que sua mulher, Adriana, mata as saudades. Como ele trabalha muito, o casal não tem tempo de se ver, aproveitando bem os momentos em que estão juntos, não importa onde seja
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Dizem que Shakespeare inventou o amor voraz, contaminou o amor platônico e fez dele, a partir do século 16 para sempre, o mais nobre dos sentimentos entre um homem e uma mulher. Mas o dramaturgo inglês, ao arrebatar os corações com seus personagens, nem sequer pensou nos príncipes e princesas que encenam nos palcos não-elisabetanos do dia-a-dia.
Para a imensa maioria, no teatro da vida nunca houve conflitos entre reinos e sucessores pelas luxuosas cortes. Há, sim e ainda, um querer bem tão forte e verdadeiro, mesmo nos muquifos e cortiços dessa Brasília. Assim como Romeu, Washington Dias de Matos, 30 anos, trouxe felicidade para a sua Julieta, Adriana da Silva Honorato, de 24, quatro anos atrás. Ela, religiosa, sempre ia aos cultos evangélicos onde morava, na Ceilândia. Ele, menos, circulava por lá de quando em vez, mas passou a ter Adriana como motivo para orar.
Em pouco tempo ela também percebeu Washington. A irmã dele era o cupido de uma amizade que, sem o pedido de ambos, virou namoro. Uma vez Adriana, desejosa de vê-lo, foi pedir um filme para assistir. Ele é aficcionado por filmes de ação. Mas não aparecia à porta. Aflita, ela esperava-o.
Washington apareceu. Corações em polvorosa. Convidou-a para entrar. Pernas trêmulas. ‘‘Aí ele me pediu em namoro na frente dos meus pais’’, conta Adriana, para desespero dos familiares e realização dela. Ele estava desempregado e não inspirava confiança para a família Silva Honorato.
Mesmo assim, daí ao casório foram três meses. Ao largo do exemplo dos Montéquio e Capuleto shakespeareano, as resistências foram sendo quebradas. Washington cativou a família, conquistou uma filha — de um relacionamento do qual Adriana não quer lembrar — e fez outra durante o rápido noivado. ‘‘Ela queria ver o filme’’, brinca Washington, que arranja a família com seus R$ 600, como despachante de ônibus da Rodoviária, das 6h às 19h30.
O casal pouco se vê. A exceção é terça-feira, quando Adriana religiosamente sai de Girassol, a 50 km do Plano Piloto, e vai ao culto no Setor de Diversões Sul. Antes aproveita um tempinho, sob as baforadas de diesel dos ônibus, fedor de restos de alimentos e muito barulho, para ficar com Washington.
‘‘Sempre coloco ela e nossas duas filhas na frente de tudo’’, afirma o determinado Washington, que faz bico, deixa o presente ‘‘para depois’’, mas reforça que comida não falta. E o aluguel tenta não faltar. Mas amor há de sobra.
Joana Nunes Gomes, 19 anos, seria outra a fazer das tragédias do bardo inglês uma comédia pela sua história. Garota tímida, chegada de Santa Rita de Cássia (BA) há cerca de dois anos, ela namora Ed, que é instrutor de informática perto de sua casa. Está desempregada e mora com os pais, em Taguatinga Norte.
Ele, também tímido, mora com a família. Por coincidência veio da mesma Santa Rita sem nunca terem se batido por lá. O relacionamento com Edmarlos (não se lembra do sobrenome) começou no vai-não-vai entre as aulas. ‘‘Só ficou sério na terceira tentativa’’, diz a jovem, de voz ressabiada.
Para sair dos curiosos olhos da família, o jeito encontrado foi namorar de noite na decaída praça do Bicalho. Este freqüentado por velhos truqüeiros, mendigos e outros desocupados. ‘‘Paciência, falta dinheiro e espaço’’, afirma.
Quando sobra um trocado, a primeira coisa que ele faz é presenteá-la: são mensagens fonadas, flores e cestas de café da manhã. ‘‘Às vezes ele torra tudo comigo. E eu não gosto muito de aceitar’’, conta. Para ela, quem aceita tem de dar outro em troca. ‘‘Isso tira minha independência.”
Pontos de encontro
Os 100 metros mais movimentados da cidade, da Rodoviária ao Conjunto Nacional, em nada inspira os casais. A saída para muitos é usufriur dos bancos de madeira, ao sol ou à sombra, da pracinha próxima.
O casal Micael*, 29 anos, e Lindalva*, 24, vez por outra se encontra no local. A facilidade do lugar — ponto de encontro dela, que mora no Pedregal (GO), no lado sul, e dele no Varjão, lado norte — é um motivo a mais para curtirem o namoro de três meses por lá.
‘‘Fugimos também do olho dos vizinhos’’, conta Lindalva, que há três meses conheceu Micael dentro da informalidade de um supermercado. ‘‘Agora a praça está mais bonita’’, afirma a diarista. Eles apreciam a praça, onde um insólito chafariz d’água funciona às vezes. Onde mendigos, taxistas e meninos de rua compõem um quadro do qual o rico Shakespeare dificilmente se encantaria.
Pouco e que mesmo assim persiste em encantar. No dia em que a reportagem do Correio visitou a praça, o auxiliar de manutenção Renato Rodrigues, 27 anos, e a advogada Dalmma Irie, 23, tinham acabado de se conhecer. Esbarraram por ali perto e foram para o refúgio do local. ‘‘Estamos ainda nos conhecendo’’, dizia, aos risos, Dalmma. ‘‘Infelizmente, ainda’’, apressava-se em retrucar Renato. Conhecendo e se possível até mais...
As pilastras brancas que rodeiam este shopping center são outro inusitado ponto de encontro do mais vivo pedaço de Brasília. Nada de pilastras de castelos, sobre as quais Romeu Montéquio subia para ver Lady Capuleto. Na verdade, são olhos desconfiados, para quem passa. De intimidade aflorada, para quem por lá se deixou ficar. Numa palavra, constrangimento. ‘‘Aqui é escondidinho, mas um pouco inconveniente’’, diz a contadora Márcia. ‘‘O amor às vezes não espera, né’’, graceja seu companheiro, o vendedor Robson Silva, 30*.
Em um mês de namoro, tinha sido a primeira vez que o casal se encontrou no local. Ele trabalha por ali. Ela estava de passagem e, então, buscaram um encosto que pudessem ser mais ‘‘os dois’’ — como definiram.
TEATRO DA VIDA
Nos séculos 16 e 17, a literatura de Shakespeare foi tida como popular: homens e mulheres, de todas as classes, liam as peças do inglês. Os abastados iam às encenações nos teatros da corte. Quem não era influente ou possuía dinheiro ao menos se deleitava com o texto popular, até mesmo erótico do bardo para os padrões da época. Mas, posteriormente, as adaptações dele foram elevadas à categoria do erudito. A linguagem direta, expressiva, dramática foi relegada ao esquecimento das bibliotecas e de seus poucos leitores. As temáticas de Shakespeare envolviam disputas de reinos, com amores proibidos ao meio. Por conta disso, uma grande parte dos encontros se dão em lugares nada românticos: cemitérios, calabouços e praças esquecidas: é o teatro da vida, no qual o amor é feito pelas pessoas, e não pelos lugares.
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