Brasília, domingo, 09 de fevereiro de 2003
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  Violência

amargo lar
Laços de sangue

Sucessão de crimes em família mostra que alguma coisa vai mal nos lares brasileiros. Nem o DF escapou dessa onda de brutalidade, em que as principais vítimas são mulheres e crianças. Aqui, a maioria dos casos ocorre no Plano Piloto

Ana Beatriz Magno e Dante Accioly
Da Equipe do Correio

Sérgio Amaral
A delegada Valéria e a agente Adriana, da Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente, usam bonecos com detalhes anatômicos para obter relatos de crianças vítimas de abuso sexual
 
O pai arremessou o filho. A mãe tentou afogar o rebento. A filha assassinou os pais. O tio sufocou, matou e estuprou a garotinha virgem de dez anos. O neto saiu de casa com um facão ensangüentado em uma das mãos e a cabeça da avó na outra.

  Há 40 dias, o Brasil se espanta com tragédias mórbidas. São casos escabrosos de violência doméstica em que vítimas e algozes estão ligados pelo mesmo sangue. Comem e dormem na mesma casa. Não se sabe ao certo se os crimes recentes representam um acréscimo na estatística ou se tudo não passa de mero alarido de mídia. No entanto, os números já mostram uma novidade: a elite está com as mãos sujas de sangue.

  Levantamento obtido pelo Correio Braziliense na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente do Distrito Federal revela que famílias de classe média do Plano Piloto maltratam mais seus filhos, sobrinhos e irmãos do que os moradores da Ceilândia e Taguatinga juntos. Só na Asa Sul, foram 60 crimes em 2002 — 14 a mais do que em Samambaia.

  Em todo o ano passado, 565 meninos e meninas conheceram a violência no DF e 85% deles apanharam, foram maltratados ou abusados sexualmente dentro da própria casa. Foram 139 crimes de natureza sexual. Do total de vítimas, 62% são do sexo feminino. O algoz é quase sempre o mesmo: o adulto que deveria proteger a prole.

  Mas esse não é apenas um drama brasiliense. Um estudo inédito realizado no Rio de Janeiro pelos institutos Noos e Promundo mostra que 51,4% dos homens entre 15 e 60 anos admitem ter praticado algum tipo de violência contra a mulher. Quase 40% ameaçaram, humilharam ou insultaram as parceiras, 25,4% bateram, empurraram, chutaram ou puxaram o cabelo da companheira e 17,2% forçaram uma relação sexual ou ridicularizaram o corpo da mulher.

  A frieza dos números esconde histórias tristes de gente de verdade. São vítimas traídas pelo parente mais próximo, pelo companheiro mais íntimo. Vítimas que se perguntam a cada dia: e isso é família?


amargo lar

Meninas com idades de 11 a 15 anos são as maiores vítimas de agressões domésticas em Brasília. Os maus tratos encabeçam a lista de atrocidades cometidas em casa. Mas também há registros de crimes em família motivados por drogas
Reprodução
Xandy e Sara tentaram matar os filhos de 1 e 6 anos de idade
 

Classe média lidera
116
brasileiros de classe média e alta espancaram, castigaram ou estupraram crianças e adolescentes no Plano Piloto em 2002. Só na Asa Sul foram
60
casos, nove a mais do que em Taguatinga. No total, a fatia próspera da capital da República maltratou mais, quase o dobro, do que os moradores da maior cidade do Distrito Federal, a barrenta e empobrecida Ceilândia, onde
52
meninos e meninas foram agredidos e humilhados de alguma forma no ano passado.

Maria desistiu. Cansou de varar a madrugada de olhos arregalados, abraçada ao travesseiro, com medo das visitas noturnas do padrasto, um funcionário público aposentado, bem de vida, carro do ano, apartamento espaçoso na Asa Sul, cabra doente do corpo e da alma. Violou a menina gorducha quando ela menstruou pela primeira vez. Violou outras tantas vezes. Maria parou da contar na 17ª.

  O homem dizia que era amor, que não suportaria vê-la nos braços de outro, que era melhor estar no seu colo do que no de um estranho. A garota obedecia, confusa sobre o que era certo e o que era errado, silenciava seu drama, não contava nada para a mãe, tremia quando via o algoz, urinava na calcinha, se refugiava na comida. Aos 15 anos, Maria pesava 70 kg.

  Em março passado, quando a balança beirou os 80 kg, Maria tentou se matar. Não queria mais aquela vida, não via possibilidade de escrever outro destino. Tomou oito comprimidos para dormir. Foi parar no hospital, em coma, e ficou amiga da médica. Terminou desabafando seu drama para ela. A doutora se sensibilizou, ajudou Maria a se livrar do padrasto.

  A menina fugiu de casa, mora na casa dos pais da médica, em outro estado, com outra identidade, resguardada por um programa de proteção a crianças vítimas de violência sexual.

  A violência doméstica não é novidade. O que espanta é ver elite com as mãos tão sujas de sangue. Os dados de Brasília ficam mais alarmantes quando se percebe que os números se limitam aos casos registrados na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. Significa que os dados reais podem — e devem — ser muito maiores. ‘‘Sabemos que a classe média e a elite é bem mais calada, denuncia muito menos do que os moradores da periferia’’, explica a delegada Valéria Raquel Pereira Martirena.

O criminoso
Pais e mães são os principais autores de violência doméstica contra crianças e adolescentes. No Distrito Federal, os pais respondem por
108
crimes registrados no ano passado. As mães são responsáveis por outros
106
casos, enquanto padrastos respondem por outros 39

Alexandre Alvarenga e Sara Maria Alvarenga têm 31 anos e são católicos praticantes. Até domingo passado, costumavam se apresentar juntos como a dupla sertaneja Xandy e Sara. No fim de semana, os dois cumpriram pela última vez um ritual típico de família pacata: almoçaram na casa de parentes com os filhos, em Campinas (SP).

  Na volta para casa, o inesperado. Alexandre jogou o filho de um ano contra um carro em movimento e bateu a cabeça da filha de seis contra uma árvore.

  O caso chocou o país. Parentes e amigos garantem que Alexandre e Sara se davam bem, freqüentavam missas e grupos de oração, tratavam os filhos com carinho. Alexandre e Sara foram denunciados por dupla tentativa de homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa das vítimas).

  A socióloga Maria Salete Kern Machado, professora do Departamento de Sociologia de Universidade de Brasília (UnB), explica que crimes como o do casal de Campinas denunciam ‘‘um momento de intolerância generalizada’’. ‘‘É a barbárie social, em que as pessoas perdem os limites e os valores de convivência, inclusive na família. Os Estados Unidos já passaram por esta situação de violência e intolerância, que se agrava pela falta de perspectiva’’.

Dentro de casa
A casa da família é o cenário de
85%
dos casos de violência contra crianças e adolescentes registrados no Distrito Federal. Dos
565
episódios violentos praticados contra menores de 18 anos e notificados pela DPCA em 2002,
408
aconteceram na casa dos pais da vítima.

Ele, um adolescente de 14 anos, derrubou a sobrinha na cama, acertou-lhe um soco no rosto e pisoteou seu pescoço. A garotinha de dez anos resistiu durante três minutos. Morreu sufocada, mas o calvário de seu corpo continuou. A morte excitou o bandido. Arrancou a calcinha branca da menina virgem, que ainda nem menstruara, e estuprou a criança. Ela morreu em 6 de dezembro do ano passado no Recanto das Emas.

  O tio de pequena Graziele é uma exceção. Na maioria dos casos, o estuprador de crianças é adulto. Dos 3.311 crimes praticados por adolescentes no Distrito Federal no ano passado, apenas 39 foram estupros ou atentados violentos ao pudor. Já no capítulo das vítimas, 139 garotas e garotos tiveram o futuro marcado pela violência sexual.  ‘‘Os meninos são mais vítimas do que culpados’’, explica o delegado Sergio Rolo, da Delegacia da Criança e do Adolescente.

  Os bandidos não se intimidam com a inocência da vítima. Nada menos que 116 crianças com menos de cinco anos sofreram algum tipo de violência no ano passado no DF — 8% dos casos nessa faixa etária são de nenéns com menos de um ano.

  Investigar a violência doméstica não é tarefa fácil. Os casos acontecem entre quatro paredes, na alcova, cúmplice do medo, do silêncio e do preconceito.

  Para vasculhar terreno tão traumático, a polícia se modernizou, trocou os delegados parrudos por delegadas e agentes com formação em psicologia. Montaram salas para crianças pequenas, com bonecas e bonecos anatomicamente perfeitos — têm pênis e vagina. ‘‘Assim as crianças falam. Muitas são tão pequenas que ainda não sabem os nomes. Só mostram’’, explica a agente-psicóloga Adriana Napoli.

Mulher é o alvo
62%
das vítimas de violência contra crianças e adolescentes no Distrito Federal são do sexo feminino. No Rio de Janeiro, o perfil se repete. Pesquisa do Instituto Noos mostra que mais da metade dos homens já praticou algum tipo de agressão contra a mulher. A violência psicológica lidera o ranking, com
38,8%
dos casos, seguida da física, com
25,4%
e da sexual, com
17,2%

O estudo é inédito. Pesquisadores dos institutos Noos e Promundo ouviram 749 homens em dois bairros do Rio de Janeiro (Bangu e Botafogo) com um objetivo: fazer com que o próprio agressor explicasse as atitudes violentas tomadas em casa. O resultado da pesquisa será divulgado em março e a expectativa é de que o estudo prossiga este ano em Rio Branco (AC), Recife (PE), Porto Alegre (RS) e Brasília.

  Um dos coordenadores do projeto é o psicólogo Fernando Acosta. ‘‘Os homens agridem as mulheres porque vivemos em uma sociedade machista e patriarcal. Construímos nossa identidade masculina em função deste modelo’’.

Adolescente Infrator
Dos
300
atos infracionais praticados por menores de 18 anos no Distrito Federal,
2%
têm relação com casos de violência doméstica. Os números referentes a 2002 foram divulgados pela Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA).

O menino saiu de casa com a cabeça da avó numa mão e um facão na outra. Só não jogou o crânio decepado da mulher no rio Paraíba, em Volta Redonda (RJ), porque foi detido pelo tio Eduardo Silva. B.S.C.E. tem 16 anos, morava com os pais na Alemanha e está no Brasil há um ano para se livrar do vício da cocaína. Em janeiro, degolou a cabeça da avó Tereza Lucas com um golpe certeiro de facão.

  O adolescente morava com a avó, que, preocupada com a agressividade do neto, já havia pedido ajuda ao Conselho Tutelar da cidade. O menino freqüentava grupos de recuperação para dependentes químicos, mas faltava às sessões.

  Antes de sair de casa com a cabeça da avó na mão, dançou e cantou. Depois, tomou banho sem dar muita importância ao corpo da mulher estendido no chão da sala.

  No mesmo mês, outro adolescente matou a avó. A.D.F. deu 110 facadas na mulher que tentou impedi-lo de roubar dinheiro para comprar drogas no Rio de Janeiro. Não foi o primeiro caso. Em novembro de 2002, o estudante Gustavo de Macedo Pereira Napolitano também matou a avó e a empregada da casa onde morava em São Paulo — após consumir 26 papelotes de cocaína. Ele foi denunciado pelo Ministério Público por duplo homicídio triplamente qualificado.

Idade das vítimas
Meninas entre 11 e 15 anos são o principal alvo da violência doméstica entre crianças e adolescentes. Números da DPCA mostram que
145
delas foram agredidas em 2002, contra
63
meninos na mesma faixa etária. Elas são as que mais sofrem em todas as faixas etárias.

Isabel Brito Vieira Santiago tem 36 anos e três filhos. Na última quarta-feira, ela deixou a capital paulista ao lado das crianças rumo a Mongaguá — cidade balneária no sul do estado. Ela não foi ali para se divertir. Mas para matar afogados os filhos entre um mês e 11 anos de idade.

  Segundo a polícia paulista, Isabel premeditou a tentativa de homicídio. Um casal que passeava pela Praia Agenor de Campos ouviu uma gritaria vinda da orla. Eram os filhos mais velhos da dona-de-casa, que pediam socorro. Mais adiante, as testemunhas viram Isabel Vieira entrar no mar com a criança de apenas um mês de idade nos braços.

  O casal deteve a mulher e chamou a polícia. Segundo uma das testemunhas, Isabel repetia a frase: ‘‘O menorzinho é muito custoso. Vou matar o menorzinho e o outro. Só vou deixar a menina viva’’.

  As três crianças foram encaminhadas para o Conselho Tutelar de Mongaguá e devem ser mantidas sob a guarda provisória da avó materna, que mora em São Paulo. Isabel foi internada no Hospital Vera Cruz, agitada e nervosa. Segundo informações da polícia, ela teve um parto difícil. A possibilidade de a tentativa de homicídio ter sido provocada por depressão pós-parto não está descartada.

  Em junho de 2001, um crime parecido chocou os Estados Unidos. A dona de casa Andrea Yates, uma ex-enfermeira que mora na cidade de Houston, matou afogados os cinco filhos entre seis meses e 7 anos de idade. Mary, Luke, Paul, John e Noah foram mortos em uma banheira de casa.

  No dia 15 de março do ano passado, um júri do Texas condenou Andrea Yates à prisão perpétua. Ela escapou da pena de morte. O júri decidiu que a dona-de-casa não era um risco para a sociedade. Mas, ao condená-la, restringiu a possibilidade de liberdade condicional. A assassina tem 37 anos e disse que matou os filhos para ‘‘protegê-los do diabo’’.

Maus tratos
Os maus tratos lideram o ranking da violência doméstica contra crianças e adolescentes no Distrito Federal. Em 2002, foram
173
casos registrados pela DPCA. Houve
117
registros de atentado violento ao pudor e
22
de estupro. O mau trato não tem sexo: entre as 173 vítimas, havia 86 meninos e 87 meninas.

Aquele foi o melhor remédio que o comerciante S.B., de 36 anos, encontrou para fazer o filho de 9 anos parar de fazer bagunça em casa. Foi até a cozinha, pegou um cabo de vassoura de piaçaba e quebrou a mão esquerda de V.L.B.

  A agressão ocorreu no último domingo, mas foi mantida em segredo durante dois dias. O crime só foi descoberto na terça-feira, quando o menino precisou ser levado a uma unidade pré-hospitalar de Sorocaba — a 92 km de São Paulo.

  S.B. assumiu a agressão. Tentou justificar, alegando que estava muito nervoso e que o filho não parava de fazer bagunça. A surra foi tão violenta que o cabo de vassoura se quebrou. O menino foi submetido a um exame de corpo de delito.

  A mãe da criança, uma professora de Sorocaba, não estava em casa na hora da agressão. Quando chegou no bairro Jardim Santo André, encontrou o filho chorando de dor, com o corpo coberto por hematomas. Os médicos que atenderam V. constataram uma fratura no polegar do menino e entraram em contato com o Conselho Tutelar da cidade.

  A assistente social Salete Marques Dias, 31 anos, é presidente do Centro Crescer Sem Violência e trabalha há nove anos no atendimento de crianças vítimas de agressões em Florianópolis (SC). Para ela, ‘‘a violência em família é endossada por um fator cultural’’. ‘‘Ainda se acredita que é missão dos pais bater para educar os filhos. Alguns pais dão puxão de orelha e palmadas. Mas outros fritam as mãos dos filhos numa frigideira e chegam a serrar os braços deles. É uma questão de legitimação cultural e impunidade’’.


Depoimentos

Surras constantes em 11 anos de vida
‘‘Ele me bateu com um pedaço de pau. E não foi a primeira vez, foi a terceira. Ele já me bateu com um pau, com uma mangueira e com as mãos também. Ele me bate bastante. Sempre quando faço arte ele me bate. Mas acho que é errado. Ele podia falar comigo, falar que não posso fazer as coisas. Dizer o que é errado. Mas não. Ele prefere me bater. É por isso que não gosto dele. Minha avó nunca me bateu. Toda vez que ele me bate, os vizinhos ligam para o SOS Criança. Uma vez cheguei toda roxa na escola e a professora também denunciou. Agora quero ficar aqui na Casa de Passagem. Não tenho casa. Meu pai gosta mais dos outros filhos do que de mim’’.

Maria (nome fictício),
garota de 11 anos espancada pelo pai em Florianópolis


Abuso sexual pelas mãos do padrasto
‘‘Eu vim para o orfanato porque minha mãe morreu. Meu pai também morreu. Meu pai morreu de câncer e minha mãe de derrame. Eu acho que derrame é porque comeu muita manteiga, muito óleo. Morreu minha avó, minha tia, meu avô, minha irmã, minha tia, meu pai e minha mãe. Morreu sete.

  Quando minha mãe era viva, um homem, um homem grandão, pegou e me falou: ‘‘menina, quer uma boneca?’’. Nessa época minha mãe não tinha casa, a casa dela quebrou, aí ela pegou as coisas dela e montou uma cabaninha na rua. Aí o homem falou: ‘‘você quer dormir aqui em minha cama?’’. Aí minha mãe falou, ‘‘não obrigada’’. Ela não sabia para o que era. Ele pegou e ficou de noite, no escuro, pegou e ficou fazendo negócio comigo. Ficou bolinando ni mim. Ele buliu no meu negócio. Meu negócio que faz xixi. Eu dormi, ele foi lá e buliu. Fez isso só para menina ficar com inveja, a namorada dele pequena. Ele não queria namorar com moça grande não.

  Quando ele fez isso comigo, ele tava pelado. Eu tava de short, ele pegou, tirou minha roupa e fez isso. Eu peguei e dei um grito. Aí minha mãe viu e chamou a polícia. Aí no outro dia ele foi soltado. No Carnaval ele tapou minha boca e me levou para o banheiro. Ficou mexendo comigo de novo. Ele ficou bolindo comigo de novo, fazendo ousadia. É ficar namorando. Ele ficou namorando comigo. Ficou mexendo no meu negócio que faz xixi. Aí ficou bolindo. Ele colocou o negócio dele dentro de mim. Doeu, saiu sangue.

  Ele ficou assim balançando o negócio dele, tirando para dentro e para fora, aí saiu um negócio branco, aí ele pegou e quis de novo o meu negócio. Aí eu dei um grito bem altão, bem altão, ele tapou minha boca com um cordão, aí eu tentei tirar com a língua o cordão, gritei ‘‘socorro’’ e ele falou ‘‘cala a boca menina se não eu te estupro de novo aqui e agora’’. Aí eu gritei, eu gritei, ele meteu o negócio dele no meu negócio, toda vez ele ficou fazendo isso, eu caí e falei ‘‘mamãe, mamãe, ele tá me pegando‘‘.

  As meninas ficam dizendo que eu tô com Aids. A Aparecida fica falando toda hora. Às vezes eu vou no banheiro e sai sangue quando eu faço xixi. Igual ao sangue que saiu quando ele fez isso comigo. ’’

M.S.S.,
nove anos, desde os sete em orfanatos da Bahia

 

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