COMPORTAMENTO
Necessidade
de gastar
Diagnosticada pela psiquiatria somente na década passada, a compulsão é doença e pode ser tratada por remédios ou grupos de ajuda
Era mais uma oportunidade para presentear. Os amigos, parentes, vizinhos e até os ‘‘conhecidos só de cumprimento’’ sabiam que invariavelmente a assistente jurídica Maria José dos Reis* agradaria-lhes com uma ‘‘lembrancinha’’. Mas os regalos não vinham apenas nos aniversários, natais ou demais datas comemorativas. Vinham também em situações nada comuns, como, por exemplo, na internação de um colega de trabalho. ‘‘Aí eu dava brincos de ouro para enfermeiros e médicos cuidarem direitinho dele’’, conta a paulistana.
Maria José, que começou a trabalhar aos 13 anos e conquistou rápido sua independência financeira, foi construindo ao longo de seus 60 anos amizades e companhias na base da troca. ‘‘As coisas na minha cabeça funcionavam assim: para eles me darem carinho, amor e afeto, necessariamente tinha que dar algo.’’
Ela também se autopresenteava com gosto. Há dois anos, a assistente jurídica foi a uma concessionária para comprar um carro, sem ao menos ter contado a façanha ao ex-marido dela. Maria José deu um lance no automóvel no valor de seu salário. Isso era uma sexta-feira, mas o carro sairia apenas na segunda-feira. Foi um final de semana de intensa expectativa para. Tanta que a ansiedade levou a pressão lá para as alturas, o que acabou numa internação. Só depois de dar entrada no hospital é que seu marido soube dos devaneios dela.
A atualmente aposentada, de 60 anos, nem sabia que seu gosto de dar presentes além da conta (bancária) é uma doença incurável: ela sofre de compulsão por compras, ou oneomania. Esse mal, descrito pela psiquiatria no meio da década passada e que não conta com um diagnóstico preciso, atinge, de acordo com estudos publicados, cerca de 1% da população mundial.
‘‘Comprar é um ato impulsivo, mas a compulsividade é marcada por comportamentos extremados’’, diz a psiquiatra Sílvia Sabóia Martins, doutoranda em compulsão por jogo pela Universidade de São Paulo. A diferença entre a impulsão e a compulsão em compras é tênue: a impulsão ocorre quando a pessoa tem um ‘‘rompante’’, aliciada pela publicidade ou desejo controlável de ter algo, e compra para satisfazê-lo no momento; na compulsão, o descontrole beira a compra de coisas para as quais não havia quaisquer necessidade.
Segundo Dílson Gabriel dos Santos, professor de Comportamento do Consumidor, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, o comportamento compulsivo e obsessivo causa transtornos físicos e psicológicos e a pessoa perde o ‘‘freio’’. Dílson, que ensina aos futuros administradores a arte da venda, afirma que são inúmeros os fatores de compra, como carência afetiva, estado emocional, ansiedade, a pressão ‘‘no momento da gôndola de supermercado’’.
Contraponto
Mesmo assim, as razões nem sempre claras da compra e o tipo de produto adquirido comprometem o diagnóstico da doença. O bancário Flávio Saraiva* bem sabe disso. A diversão dele era viajar pelo mundo. Todo final de ano, partia pelos cantos do mundo. Foram 21 idas à Europa, 12 à Disneylândia, outras tantas ao Japão, China, Índia, Macau, Filipinas, Camboja, Vietnã, Havaí, Rússia, Antártida, a antiga Rodésia (atualmente Zimbábue), nove fins de fins de semana na Argentina...
A vida de Flávio resumia-se ao prazer de viajar.‘‘Minhas dívidas começaram no dia primeiro de abril de 1956, primeiro dia de trabalho no Banco do Estado do Rio de Janeiro’’, conta o carioca. Na irônica data, ele já teve que pedir emprestado para os pais.
Mas o planejador de mapas e bancário exemplar não manteve controle sobre as contas: evaporaram-se dois luxuosos apartamentos e três carros, ao fim de 64 anos de vida. Além de ter cancelado os sete cheques especiais e dez cartões de crédito. Atualmente ele mora com a mãe em Pindamonhangaba, São Paulo, e, desde junho passado, já conseguiu pagar 60% do devido. Faltam R$ 32 mil.
Desde junho do ano passado, a paulistana Maria José e o carioca Flávio Saraiva se cuidam no grupo de Devedores Anônimos de São Paulo. Nem mesmo os remédios prescritos durante quatro meses por psiquiatras melhoraram o estado dela. Ambos conheceram o grupo pela televisão.
No grupo, são feitas sessões em que cada um conta seus casos. ‘‘É impressionante como as angústias são iguais’’, diz Maria José, que vai todas as semanas, ao lembrar que ‘‘a doença persiste, a dívida é curável.’’
Serviço
Devedores Anônimos São Paulo
Telefone: (11) 5572-2689 e 9945-1122
Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados
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