Brasília, sábado, 15 de fevereiro de 2003
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teatro
Vida dedicada à alegria

Em 63 anos de vida, o músico, palhaço, ator, diretor e jornalista Ary Pára-Raios encantou a cidade com sua arte

Thaís Cieglinski
Da equipe do Correio

Brasília perdeu esta semana um de seus artistas mais atuantes e criativos. Aos 63 anos, Ary Pára-Raios morreu e deixou a cidade mais triste. Ary José de Oliveira virou Pára-Raios a partir do apelido de infância, Papagaios, e, desde que chegou à capital, na década de 70, tratou de escrever seu nome na história cultural da ainda jovem Brasília. Criou o Esquadrão da Vida, em protesto ao desmando violento do Esquadrão da Morte, e tomou de assalto artístico as ruas da cidade.

  ‘‘Por sua generosidade espacial, Brasília é cruel com o homem, que precisa se sobressair. Então, defendo um teatro que extrapole o espaço tradicional, com quatro paredes e uma platéia à frente’’, declarou em entrevista ao Correio, em maio de 2001. A dedicação incansável à arte de rua não foi, no entanto, a única na vida de Pará-Raios, que encontrou tempo para desenvolver as carreiras de jornalista e músico, ambas com reconhecido talento na cidade.


Artista, músico e poeta
Luiz Clementino/Divulgação
 

Cantar e tocar viola foram outras das grandes paixões do palhaço mais famoso de Brasília. Em julho de 1988, estreou no Teatro Garagem Pararraios e Caraíbas, um de seus muitos espetáculos musicais da carreira. Em janeiro de 2001, realizou Romances, seu último show, que definia como um ‘‘concerto de teatro, música, prosa e verso.’’

Com o riso solto
 

Em janeiro de 1981, o Esquadrão da Vida ainda engatinhava para completar dois anos de vida. O riso e a palhaçada foram os elementos encontrados por Ary para fazer crítica ao Esquadrão da Morte, grupo de justiceiros que chocava a sociedade brasileira. O primeiro ‘‘protesto’’ do grupo aconteceu em dezembro de 1979, quando os atores convocaram a comunidade para participar da
Procissão da Alegria.


A vitória do palhaço
 

O palhaço venceu.
Eu vi seu esquadrão cantando,
carregando faixas,
entre bumbos e violas.
Ouvi o minuto de silêncio,
e os vivas dos amigos,
e o grito contra a guerra.
Vi seus filhos rindo e chorando,
na frente, no Canto,
acompanhando seu corpo.
E Fernanda, companheira, em paz.
Mas ele vence este tempo de lutas,
soldado com todas as armas do artista.
Brincadeira solar, palhaçada e música.
Piruetas, saltos e pirâmides.
No meio do cerrado eu os vi cantando,
na defesa da mata, da vida.
No meio da cidade eu os vi cantando,
na defesa do homem, da criança.
Nos palcos, recitando a viola,
recriando o Brasil.
Seu corpo agora somos nós.
Sua vitória agora somos nós,
para sempre Ary.

Homenagem de Fernando Lopes


Profissão séria
 

Quem se acostumou a ver Ary Pará-Raios com o rosto pintado e plantando bananeira pela cidade talvez não saiba que, além de ator, ele era também jornalista. Trabalhou no Correio na década de 70 e em outros veículos de comunicação da capital. Em 1989, fundou o jornalzinho Viva Alternativa, especializado em assuntos relacionados à ecologia.

Teatro engajado
Jossonhir Britto
 

Pioneiro do teatro de rua em Brasília, o grupo comandado por Pará-Raios baseou seus trabalhos na mistura de experimentalismo artístico e compromisso social. Entre os espetáculos produzidos pela trupe estão O Bicho Homem e Outros Bichos, Na Rua com Romeu e Julieta e Folia Real, o mais recente. Ao longo de duas décadas, mais de 150 pessoas passaram pela companhia, que registrou 21 peças, 25 campanhas e mais de 20 oficinas.
 

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