Brasília, sexta-feira, 21 de fevereiro de 2003
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GRAMPO
Ex-namorada pronta para depor

Os dois principais elos da ligação de Antonio Carlos Magalhães com as escutas telefônicas ilegais na Bahia estão em Brasília para testemunhar. Poderão evitar que prevaleça o clima de pizza que José Sarney tenta patrocinar no Congresso

Rudolfo Lago
Da equipe do Correio

As testemunhas-chave do escândalo dos grampos da Bahia, Adriana Barreto e Plácido Farias, prestarão depoimento hoje à Polícia Federal em Brasília. O casal é o elo mais forte a unir o escândalo ao senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Em entrevista à revista Veja desta semana, Adriana e Plácido apontaram os indícios mais fortes de que ACM seja o mandante dos grampos telefônicos ilegais de mais de 200 telefones na Bahia, entre eles os celulares do líder do PT na Câmara, Nelson Pelegrino (BA), e do primeiro-secretário da Câmara, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). E também os telefones de Adriana e Plácido. Mesmo os aliados de ACM concordam que, se o casal repetir o que disse à Veja e ainda reforçar seus depoimentos com provas, complicará muito a vida do senador.

  Nos últimos dias, os adversários de ACM preocuparam-se com a possibilidade de que Adriana e Plácido pudessem ser pressionados para dar um depoimento mais ameno do que as entrevistas para a revista. Formava-se o cenário para que alguém assumisse na Bahia toda a responsabilidade pelo grampo irregular. O principal candidato a bode expiatório é o delegado Valdir Barbosa, que pediu as quebras de sigilo telefônico. Anteontem, ele pediu demissão de seu cargo na Secretaria de Segurança. A Polícia Federal buscou eliminar a possibilidade de um abrandamento dos depoimentos de Adriana e Plácido em conseqüência de pressões. Os dois foram retirados de Salvador e ficaram escondidos, sob a proteção de policiais. Acertou-se que os depoimentos não ocorreriam na Bahia. Adriana depõe hoje pela manhã. Plácido à tarde. Os depoimentos podem ser adiados para sábado.

  Adriana foi namorada de ACM. Começou a se afastar dele ao iniciar uma relação com o advogado Plácido Farias. De acordo com ela, foi nesse momento que o senador começou a grampear seu telefone e o de Plácido. ‘‘Ele me disse que grampearia o Plácido para provar que ele não me merecia’’, disse Adriana. À revista, os dois apresentaram vários indícios de que ACM teve acesso a conversas reservadas pelo telefone de ambos.

Prós e contras
A decisão de proteger Adriana e Plácido e de tomar seus depoimentos em um campo neutro é a principal vitória do grupo dentro do governo e do PT que batalha para não ver o episódio do grampo telefônico baiano transformado em uma pizza de dendê. O governo está dividido quanto ao episódio da cassação.

  Por pressão principalmente do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), parte do governo, principalmente no Palácio do Planalto, defende que o caso do grampo fique restrito à investigação policial e a um eventual e demorado processo posterior no Supremo Tribunal Federal. Sarney defendeu pessoalmente essa posição com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o ministro da Casa Civil, José Dirceu, e o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP). Percebendo o cheiro da pizza, os adversários de ACM, principalmente Pelegrino e o controlador-geral da União, Waldir Pires, pressionam fortemente para que a investigação seja rigorosa.

  As relações de ACM e Sarney são antigas. Mas a última ação conjunta dos dois deu-se no início do ano. ACM esteve na linha de frente das negociações que garantiram o PFL como ‘‘Plano B’’ para possibilitar a vitória de Sarney no Senado e a de João Paulo Cunha na Câmara. Quando o PMDB percebeu a preferência do governo por Sarney no Senado, contra o preferido da cúpula, Renan Calheiros (AL), ameaçou lançar o deputado Michel Temer (PMDB-SP) como candidato avulso contra João Paulo pela presidência da Câmara. Com a ajuda de ACM, o PFL ficou como linha auxiliar de João Paulo. Caso Temer lançasse de fato a sua candidatura, o PFL entraria na chapa de João Paulo. E garantiria apoio para que Sarney se lançasse candidato avulso no plenário, ainda que perdesse a disputa para Renan Calheiros na bancada do PMDB. O Plano B de João Paulo e Sarney, com a ajuda de ACM, demoliu de vez as pretensões de Temer e de Renan.

  O pacto das eleições no Congresso gerou um compromisso que engessa politicamente o governo e a cúpula do PT. Por isso, os adversários perceberam que ACM está nas mãos de Adriana e de seu marido. Um forte depoimento dos dois dará uma força ao caso que nenhum compromisso político poderá diminuir. Um depoimento fraco salvará a vida do senador baiano.


A frase
‘‘Ele me disse que grampearia o plácido para provar que ele não me merecia’’,
Adriana Barreto, sobre a suspeita de seu marido estar sendo grampeado por ACM, em entrevista a Veja
 

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