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grampo
A um passo do processo no Conselho de Ética

IstoÉ revela ter recebido de ACM um dossiê com degravações de fitas, acompanhado da seguinte declaração: ‘‘Eu grampeei Geddel’’

Rudolfo Lago
Da equipe do Correio

Carlos Moura 17.02.03
Sorte política de ACM depende do que dirá hoje, à PF, sua ex-namorada adriana barreto, também gravada pela polícia baiana
 
Na manhã de ontem, o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, redigiu uma nota em que reiterava a confiança na ‘‘negativa peremptória’’ do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) de que estava por trás do escândalo dos grampos da Bahia, que escutou ilegalmente mais de 200 telefones. À tarde, Bornhausen soube que a capa da revista IstoÉ que começa a circular hoje traz uma foto de ACM e a seguinte manchete: ‘‘Eu mandei grampear Geddel’’. Geddel é o primeiro-secretário da Câmara, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), inimigo figadal de ACM e uma das vítimas do grampo baiano. A preocupação de Bornhausen chegou aos ouvidos de companheiros de PFL. Se o partido tiver de ficar repetindo declarações de confiança e retificando-as a cada fato novo que apareça e que comprometa mais ACM, o PFL afundará junto com ele.

  A reportagem da revista IstoÉ caiu como uma bomba no meio político ontem. Adversários e aliados de ACM já estavam tensos com a perspectiva dos depoimentos da ex-namorada de Antonio Carlos Magalhães, Adriana Barreto, e de seu marido, Plácido Farias. Sob proteção policial, Adriana está em Brasília desde quinta-feira. Plácido chegou ontem à tarde. Os dois vão depor hoje. E deverão confirmar o que já disseram em entrevista à revista Veja: que foram grampeados por ACM. A reportagem de IstoÉ é mais um elemento a ligar ACM diretamente com o maior caso conhecido de uso do aparelho policial de um governo para praticar ilegalidades e abusos contra a privacidade alheia.

  De acordo com a revista, no dia 30 de janeiro, o repórter Luís Cláudio Cunha procurou ACM em busca de informações sobre um suposto envolvimento de Geddel Vieira Lima com uma empreiteira de Minas Gerais. O senador disse que sobre esse caso nada sabia. ‘‘Mas eu tenho uma coisa melhor do Geddel’’, respondeu, segundo IstoÉ, com um sorriso maroto. Era um documento, batizado de ‘‘Relatório Confidencial’’, que continha uma descrição de trechos de conversas de Geddel com várias pessoas, entre elas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (para entender melhor o caso, leia quadro ao lado).

  ‘‘O que eu vou lhe dizer, você não pode publicar. Eu mandei grampear o Geddel’’, disse ACM ao repórter de IstoÉ. ‘‘Gravei quase 200 horas de conversas vergonhosas dele, inclusive com o presidente da República’’, continuou. De acordo com a revista, ACM explicou que não tinha mais as gravações. Elas teriam sido apagadas, disse ele a Luís Cláudio. Restava, portanto, apenas o relatório com algumas degravações. Luís Cláudio pediu para ver o material. ‘‘Não. Isso aqui é um crime. Não posso lhe mostrar’’, respondeu o senador.

  O repórter de IstoÉ insistiu que as degravações poderiam valer como informações para iniciar um trabalho de investigação jornalística. Foi apenas assim que ACM concordou em entregar o material. Há duas semanas, a revista não cumpriu o prometido: publicou o conteúdo de alguns trechos do relatório entregue por ACM.

  A revista argumenta que a descoberta de que as degravações eram parte de um imenso esquema de escuta ilegal na Bahia levaram à decisão de quebrar o compromisso assumido com o senador. E também foi pela gravidade do episódio que a revista resolveu contar esta semana, quase um mês depois, que ACM, naquela ocasião, admitira ter mandado fazer o grampo.


Negativa
A conversa em que ACM admite ter grampeado Geddel não foi gravada por IstoÉ. Os assessores do senador desconfiam que uma segunda conversa, alguns dias depois, por telefone, pode ter sido gravada. Por enquanto, porém, ACM continua negando a autoria do grampo. ‘‘Não tenho envolvimento no episódio’’, insistiu ele ontem.

  Como ACM nega o que afirma a revista, pode ficar a palavra de um contra a palavra de outro. Mas a avaliação tanto de políticos como de policiais que investigam o caso é que a revelação da revista é mais um forte indício a complicar a vida do senador baiano. Investigadores que trabalham no caso avaliam que a apuração pode mudar de rumo este fim de semana, com a publicação da revista e os depoimentos de Adriana Barreto e Plácido Farias. ACM pode finalmente ser citado oficialmente no caso. Até agora, nenhuma das pessoas que depôs no inquérito envolveu o senador diretamente com o grampo.

  Em conversas reservadas, políticos do PFL concordavam que a situação do senador vai ficando cada vez mais complicada. E que vai ficando praticamente impossível evitar que o senador acabe respondendo a novo processo no Conselho de Ética do Senado. A hipótese de ACM renunciar ao seu mandato era cogitada no partido.

  Em Salvador, ACM negou que esteja pensando em renunciar outra vez. ‘‘Desafio qualquer pessoa, do PFL ou de outros partidos, ou quem quer que seja, a dizer que ouviu de mim a possibilidade de renunciar ao mandato. Não existe nada disso’’, afirmou. No episódio da violação do painel eletrônico do Senado, porém, ACM também negou a renúncia. Até renunciar.


Entenda o caso

DOSSIÊ
Com a informação a respeito do esquema, a revista IstoÉ publicou, há duas semanas, trechos de um relatório feito a partir da degravação de conversas de Geddel Vieira Lima. Nas conversas, Geddel fala com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Faz pesadas críticas ao candidato derrotado do PSDB à Presidência, José Serra, e comenta um pedido de liberação de uma verba orçamentária. O dossiê contém comentários escritos à mão pelo próprio ACM.

PRIMEIRA DEFESA
ACM admite ter recebido o dossiê. Mas diz que o documento chegou a ele de forma anônima e que não tem qualquer responsabilidade pelo grampo.

DEPOIMENTOS
A Polícia Federal preserva Adriana e Plácido, esconde os dois e os traz para prestar depoimento em Brasília. Ambos falarão à Polícia Federal hoje e deverão confirmar em depoimento oficial o que disseram a Veja.

ISTOÉ
Na edição da revista IstoÉ que chega neste fim de semana às bancas, o repórter Luís Claudio Cunha conta que foi ACM quem passou à revista a transcrição das conversas de Geddel. E garante que, na ocasião, ACM afirmou com todas as letras: ‘‘Eu mandei grampear Geddel’’.

A PRIMEIRA VÍTIMA
Com a certeza de que estava sendo grampeado pelo senador Antonio Carlos Magalhães, o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), procurou a Polícia Federal. O inquérito aberto a partir da denúncia revelou que a Secretaria de Segurança da Bahia mantinha um impressionante esquema ilegal de escuta telefônica, que grampeou mais de 200 telefones.

ADVERSÁRIOS
O esquema iniciou-se pegando carona em um pedido de quebra de sigilo telefônico para investigar um caso de seqüestro na cidade de Itapetinga. No pedido, foram incluídos os números de adversários políticos de ACM — além de Geddel, o líder do PT na Câmara, Nelson Pellegrino (BA), e o ex-deputado Benito Gama (PMDB-BA).

EX-NAMORADA
O jornal A Tarde descobre novo elo ligando ACM ao caso. Além dos inimigos do senador, também estavam grampeados uma ex-namorada de ACM, Adriana Barreto, e seu marido, Plácido Farias.

ENTREVISTA
Adriana dá entrevista à revista Veja desta semana e admite um relacionamento amoroso com ACM. Ela e seu marido afirmam que estavam sendo gravados pelo senador. Adriana conta que ACM lhe disse que grampearia Plácido para provar a ela que ele não prestava.



‘‘Ele (ACM) vinha negando sistematicamente a participação no caso. Agora está provado de uma vez por todas: é o próprio senador assumindo o que fez’’.
Deputado federal Walter Pinheiro (PT-BA)

‘‘Tenho conversado com todos os senadores, inclusive com os líderes do governo e do PT no Senado. O partido nunca serviu, não serve e não servirá de escudo para ACM’’.
Deputado federal Nelson Pellegrino (PT-BA)

Ninguém vai conseguir sair desta história como entrou. Cada um vai escolher se quer sair como pigmeu ou gigante’’.
Ex-deputado federal Benito Gama (PMDB-BA)



Adversários comemoram

Dante Accioly
Da equipe do Correio

Aliviado. Foi com uma só palavra que o ex-deputado federal Benito Gama (PMDB-BA) definiu como se sentia após ler a reportagem da revista IstoÉ no final da tarde de ontem. Uma das 230 vítimas dos grampos baianos, o peemedebista acusa ao senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) de ter planejado a arapongagem. ‘‘Começo a entrar na sala de descompressão. Agora ficou claro para todo o Brasil que o senador Antônio Carlos Magalhães representa o que há de mais baixo no submundo político do país’’.

  Para o ex-deputado, a suposta participação de ACM no episódio dos grampos ‘‘deve ser apurada policial e politicamente’’. Benito Gama acredita que ACM não vai conseguir evitar o isolamento entre os colegas do Senado Federal a tempo de impedir uma investigação pelo Conselho de Ética. ‘‘Ninguém vai conseguir sair deste episódio do jeito que entrou. Cada um vai escolher se quer sair como pigmeu ou como gigante’’.

  O deputado federal Nelson Pellegrino (PT-BA) — outra vítima do grampo — já nem vê necessidade de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a participação de ACM no episódio. ‘‘Com os fatos novos, não é mais o caso de se abrir CPI. Já há elementos suficientes para o Conselho de Ética do Senado iniciar uma investigação contra o senador’’.

  Pellegrino, que estava em Salvador na tarde de ontem, não conseguia esconder a euforia que tomou conta dos adversários baianos de ACM ao saberem da reportagem da revista IstoÉ. ‘‘Vai ser uma bomba. Era a peça que faltava no quebra-cabeça do grampo. É o tiro de misericórdia’’.

  O deputado federal Walter Pinheiro (PT-BA) considerou comprometedoras as declarações do senador Antônio Carlos Magalhães à reportagem da revista. ‘‘Conversas de família foram devassadas. Foi uma invasão da intimidade, algo simplesmente inaceitável’’.

  Pinheiro conversou ontem com outra vítima do grampo. O deputado federal baiano Geddel Vieira Lima (PMDB) disse estar ‘‘angustiado e desgastado’’ com a repercussão do caso. ‘‘Ele (Geddel) disse que não se regozija com a desgraça alheia. Mas está satisfeito porque agora ficou claro que o que sempre se falou de Antônio Carlos Magalhães aqui na Bahia não era folclore’’

 

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