Brasília, terça-feira, 11 de março de 2003
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clima de guerra
Bush pode prolongar ultimato

Isolados, EUA já admitem dar mais tempo a Saddam. Países africanos são o foco dos esforços diplomáticos americano e francês para conquistar apoio na ONU

Pedro Paulo Rezende
Da equipe do Correio

Com agências

Por causa da intensa e barulhenta oposição à guerra de França e Rússia, que reafirmaram ontem o veto a qualquer iniciativa na Organização das Nações Unidas (ONU) autorizando um ataque ao Iraque, os Estados Unidos e Grã-Bretanha recuaram. Segundo informações obtidas com exclusividade pelo jornal The Washington Post, os dois governos aliados já estudam estender o prazo de 17 de março, fixado como data final para que Saddam Hussein prove ao mundo que está se desarmando ou enfrente uma ofensiva armada.

  Segundo uma autoridade do gabinete do primeiro-ministro britânico ouvida pelo jornal americano, esse novo ultimato viria acompanhado de um lista de exigências a serem cumpridas pelo Iraque, elaborada com base no que ficou sem resposta nos relatórios dos inspetores de armas da ONU. Analistas políticos acreditam que o recuo de Washington foi estratégico. A Casa Branca precisa de mais votos no Conselho de Segurança da ONU para conseguir ‘‘apoio’’ moral à sua resolução favorável à guerra, apesar dos vetos francês, russo e chinês.

  Os países africanos estão no meio desse fogo diplomático. Estados Unidos, Grã-Bretanha e França desenvolvem intensa ofensiva para conquistar votos no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Desse esforço depende o futuro do Iraque. Norte-americanos e britânicos querem aprovar uma resolução determinando o uso da força contra o regime de Saddam Hussein. Mas o governo francês, apoiado pela Rússia e China, quer dar mais tempo para os inspetores da ONU agirem.

  Nesse processo, países como Angola, Camarões e Guiné Bissau — membros não-permanentes do Conselho de Segurança — ganharam importância. Ter a maioria dos 15 integrantes do organismo ao seu lado daria um mínimo de legitimidade ao desejo norte-americano de derrubar Saddam pelas armas. Para os contrários ao conflito seria uma vitória moral derrotar Bush e Blair, mesmo que eles prossigam nos seus planos de uma ofensiva militar.

  Para isso, o governo da França enviou seu ministro de Relações Exteriores da França, Dominique de Villepin, para uma visita aos três países africanos. País recém-saído de uma longa guerra civil, Angola foi a última escala do roteiro. O presidente José Eduardo dos Santos recebeu Villepin em Luanda, em uma visita que durou mais de duas horas. Dos Santos conversou no sábado, por telefone, com o primeiro-ministro Tony Blair e, no domingo, com Bush, o homem mais poderoso do mundo.

  Em meio a tantas pressões, o país ainda não decidiu qual será sua posição ‘‘Estamos no meio de um tiroteio, temos muito o que discutir’’, disse ao Correio um assessor direto do presidente angolano na tarde de ontem. A posição atual, contrária aos Estados Unidos, como a da Guiné-Bissau, pode mudar diante da certeza de que não há como deter Bush.

  O ministro angolano das Relações Exteriores, João Bernardo de Miranda, admitiu isso claramente ao final do encontro entre Villepin e dos Santos. ‘‘As preocupações devem estar agora centralizadas no pós-guerra’’, salientou, depois de participar da audiência. ‘‘Nosso governo não está mais próximo nem dos Estados Unidos nem da França. Precisamos avaliar as conseqüências da guerra e ajudar o Iraque dentro do contexto de Conselho de Segurança’’, concluiu.

Veto russo
Depois do ministro de Relações Exteriores da Rússia, Igor Ivanov, reafirmar a disposição do país em vetar a proposta anglo-norte-americana, o presidente George W. Bush telefonou para o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, e para o presidente da China, Jiang Zemin. O secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, encontrou-se com o chanceler da Guiné, François Ousseynou Fall, para tentar garantir o voto do país no conselho. A assessora de Segurança Nacional Condoleezza Rice, também participa do esforço concentrado.

  ‘‘Estamos no meio de uma ofensiva diplomática’’, reconheceu o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer. Funcionários do governo dos Estados Unidos não perderam as esperanças de que os russos possam voltar atrás no momento da votação. Afinal de contas, Bush tem fortes laços com o presidente Vladimir Putin. ‘‘O presidente ficaria muito decepcionado se a Rússia vetasse (uma nova resolução). O presidente veria isto como uma oportunidade perdida pela Rússia de adotar uma posição moral e defender a liberdade’’, declarou Fleischer.

  A Casa Branca expressou ontem sua insatisfação com o fato de o chefe dos inspetores da ONU, Hans Blix, ter deixado de mencionar em seu relatório ao Conselho de Segurança, na última sexta-feira, que os técnicos encontraram no Iraque uma aeronave não-tripulada, cuja existência foi revelada num documento secreto de 173 páginas, circulado pelos inspetores. A descoberta do avião, que segundo os EUA poderia ser usado para disseminar armas químicas e biológicas, tornaria mais fácil para o Conselho de Segurança aceitar os argumentos dos EUA e da Grã-Bretanha, de que o Iraque fracassou em cumprir as demandas de desarmamento da ONU.


Reconstrução

O governo norte-americano está preparando contrato de cerca de US$ 900 milhões para iniciar a reconstrução do Iraque depois da guerra. A informação, divulgada inicialmente pelo jornal The Wall Street Journal, foi confirmada por autoridades. Esse seria o maior plano de reconstrução de um país com ajuda dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial (1939-45). A Usaid (agência dos EUA para o desenvolvimento internacional) enviou pedido de orçamento detalhado a pelo menos cinco empreiteiras do país. A expectativa é de que o governo peça mais dinheiro ao Congresso, como parte de um pacote suplementar de gastos para financiar a guerra e suas conseqüências. O custo desse programa deve ser duas vezes maior do que os EUA pretendem gastar ao todo, desde o ano passado até o próximo, com a reconstrução do Afeganistão. (The Washington Post)

Coréia do Norte testa míssil

Da Redação
Com agências

O governo norte-coreano continua tentando pressionar os Estados Unidos a negociar um acordo de não-agressão e voltar a receber combustível para suas usinas termelétricas. As Forças Armadas da Coréia do Norte realizaram ontem mais um teste com um míssil terra-mar sobre o Mar do Japão. A chantagem porém surtiu pouco efeito. Sul-coreanos, norte-americanos e japoneses deram pouca atenção ao fato, ainda que as bolsas asiáticas tenham fechado em baixa.

  ‘‘O míssil foi disparado por volta de 12h (meia-noite de domingo, no horário de Brasília) sobre o mar do Japão, e julgamos que seja do mesmo tipo testado em 24 de fevereiro’’, disse um porta-voz do ministério da Defesa sul-coreano. O míssil, afirmou o ministério, alcançou 110km, antes de cair no mar.

  Há duas semanas, na mesma região, os norte-coreanos testaram uma versão do míssil chinês Silkworm, que caiu a 60km da costa japonesa. O presidente da Coréia do Sul, Roh Moo-hyun, tem evitando críticas ao governo do Norte. Em editorial, o jornal Korea Times acusou o novo governo por supostamente menosprezar a ameaça nuclear do vizinho do Norte.

Despreocupação
O Japão disse que, por não se tratar de um míssil balístico, o teste não preocupa o país. ‘‘Mas não achamos que isso seja muito favorável, dada a situação já instável criada pelo desenvolvimento nuclear da Coréia do Norte’’, disse um porta-voz da chancelaria em Tóquio.

  A atual crise começou em outubro do ano passado, quando a Coréia do Norte admitiu a reativação de seu programa nuclear, banido em 1994. Desde então, o regime comunista já abandonou um tratado internacional de não-proliferação nuclear, expulsou inspetores das Nações Unidas (ONU) e anunciou a reabertura de um reator capaz de enriquecer plutônio para uso em bombas.

  O lançamento do novo míssil abalou os mercados sul-coreanos, já preocupados com os efeitos de uma possível guerra no Iraque sobre a economia do país. O instituto Keri previu que, por causa dos problemas políticos mundiais, o crescimento sul-coreano em 2003 pode ser de apenas 1,4% — bem abaixo dos 6,2% estimados para 2002.

  No domingo, o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, disse que seu país vai acabar negociando com a Coréia do Norte, mas pediu também a participação de outros países da Ásia. Em entrevista à CNN, o secretário argumentou que o acordo de não-proliferação nuclear de 1994, agora desrespeitado, foi firmado de forma bilateral entre EUA e Coréia do Norte.

  Até agora, China e Rússia resistem à possibilidade de negociações multilaterais, embora sem descartá-la. A Coréia do Norte também defende um diálogo direto que leve a um acordo de não-agressão com os EUA. O governo de Pyongyang afirmou que está disposto a aceitar um acordo pacífico por meio de negociações diretas com os EUA.

 

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