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TRÂNSITO
Uma família destroçada
Acidente em frente à Catedral mata o corretor Reginaldo Fernando de Castro e deixa dois filhos feridos: O mais novo, de 10 anos, em estado gravíssimo. Motorista que atingiu carro da vítima estava em alta velocidade
Maria Ferri e Dante Accioly
Da equipe do Correio
| José Varella |
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Com o impacto da batida, o Palio capotou e bateu contra uma árvore. Desgovernado, o BMW bateu novamente no Palio: Bombeiros resgataram os garotos com vida
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| Sérgio Amaral 15.1.03 |
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Tarcísio é universitário: inquérito será respondido em liberdade
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José Mateus Filho desceu do Tempra azul, ajoelhou-se no asfalto quente, levantou as mãos para o céu e agradeceu a Deus por estar vivo. Eram 13h10 no Eixo Monumental. O motorista escapara com vida do acidente que matou o corretor de imóveis Reginaldo Fernando de Castro, 44 anos. Em frente à Catedral de Brasília, José Mateus viu o corpo do corretor ser retirado do que sobrou das ferragens de um Palio branco. Reginaldo morreu após o carro dele ter sido esmagado por um BMW preto que — segundo testemunhas — estava em alta velocidade. Enquanto arrastava o Palio, o BMW guiado pelo estudante de Administração Tarcísio Oliveira Gonczarowska, 28, atingiu de raspão o carro de Mateus.
O acidente fez outras duas vítimas: os filhos que Reginaldo Fernando acabara de buscar no colégio Santa Rosa, na quadra 602 Sul. Rodrigo de Albuquerque Castro tem 10 anos e está internado no Hospital de Base com traumatismo e afundamento craniano. O estado dele é gravíssimo. Até o fechamento desta edição ainda estava no centro cirúrgico. O mais velho, Bruno de Albuquerque Castro, 14, sofreu ferimentos na boca e nas pernas. Ele recebeu alta às 19h, ainda sem saber da morte do pai. Reginaldo deixou ainda uma filha de um ano.
Tarcísio Gonczarowska, quase linchado por pessoas que passavam pelo local, foi detido por policiais militares e levado à 2ªDP (Asa Norte). Ficou quase quatro horas numa cela da delegacia e não prestou depoimento. Foi liberado às 17h para ser atendido em um hospital de Brasília. Ele fez exames de raio-X na coluna e nas pernas, que sofreram cortes.
O estudante deve voltar a se apresentar à delegacia ainda esta semana, mas os advogados garantem: Tarcísio só presta depoimento em juízo. Ele foi indiciado por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) e, se condenado, está sujeito a pena de um a três anos de prisão.
Testemunhas
Motorista do Ministério do Planejamento, José Mateus estava com o Tempra parado na via de retorno entre as pistas do Eixo quando foi atingido pelo BMW. Ele afirma que percebeu o veículo em alta velocidade e achou arriscado prosseguir. ‘‘Se não tivesse cautela, o BMW viria pra cima de mim. Agradeço a Deus por não ter sofrido nenhum arranhão e lamento pela vida que foi tirada.’’ Para Mateus, o motorista do Palio não foi responsável pela tragédia. ‘‘Mesmo que o Palio tivesse ultrapassado o sinal, nada justifica aquela velocidade em horário de pico.’’
Luiza Lindoso Saboya, 44, estava parada no semáforo antes da Catedral quando presenciou a batida. Muito abalada, ela não conseguia descrever a cena. As imagens que perturbavam sua mente eram as do resgate das vítimas. ‘‘Não sei quem estava errado. Só me lembro do menino machucado. Comecei a chorar’’, lembrou Luiza, arrolada como testemunha do acidente.
O major da Aeronáutica Willian Freitas da Silva e Silva também prestou depoimento na delegacia por ter presenciado o BMW seguir pelo Eixo numa velocidade acima do limite de 60 km/h. ‘‘O carro passou por mim como um tiro. Até levei um susto’’. Mais à frente, o oficial parou para ajudar a socorrer as vítimas. ‘‘Me desesperei quando vi as crianças com as camisetas da escola cheias de sangue. Foi terrível’’, contou o major, com os olhos cheios de lágrimas.
O acidente
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A frase
‘‘Agradeço a Deus por não ter sofrido nenhum arranhão e lamento pela vida que foi tirada’’
José Mateus Filhos, motorista do Tempra também atingido no acidente
A frase
‘‘Me desesperei quando vi as crianças com as camisetas da escola cheias de sangue’’
Willian Freitas da Silva e Silva, testemunha do acidente.
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Pai amoroso e sempre presente
Guilherme Goulart e Lilian Tahan
Da equipe do Correio
Rodrigo e Bruno de Albuquerque Castro eram acostumados à presença do pai. Todos os dias, esperavam Reginaldo na porta da escola. O pai não falhava nunca. Queria garantir que eles chegariam seguros em casa. Ontem, o corretor de imóveis Reginaldo Fernando Castro não evitou a tragédia. Morreu antes que pudesse socorrer os dois filhos mais velhos. E deixou órfã Gabriela, de 1 ano.
A notícia do acidente chocou os colegas do colégio Santa Rosa, na 602 Sul. Bruno, de 14 anos, cursou todo o ensino fundamental na escola. Desde 1985, quando fez a primeira série, seu histórico escolar é impecável. Até a 8ª série manteve média nove em todas as disciplinas.
O irmão mais novo, Rodrigo, 10, é estudante da 4ªsérie. Os professores do garoto contam que eles têm temperamentos bem diferentes. Enquanto o maior é mais quieto, Rodrigo é brincalhão. Ontem mesmo deu uma prova de seu bom humor durante a aula de religião.
A professora Ana Lídia Martins descobriu na agenda de Rodrigo que ele e um coleguinha se referiam a ela e à professora de inglês, Elisa Pimenta, como Tico e Teco. ‘‘É que nós duas nunca nos separávamos. Ele é daquele tipo de aluno que brinca, mas presta atenção na aula.’’
Rodrigo tem duas paixões. O pai e o futebol. ‘‘Ele é um craque, realmente tem talento. Além do mais, é o xodozinho da turma’’, conta a professora Cristina Lacerda de Educação Física. A tia Luciana Nascimento confirma o interesse do pequeno pelo esporte e a afinidade com Reginaldo. ‘‘Ele é viciado no pai’’, diz.
Além de levar e buscar os filhos no colégio, os pais de Bruno e Rodrigo participavam ativamente da vida escolar dos garotos. A diretora da escola, Maristela Pereira de Carvalho, lembra-se de ter estado várias vezes com os pais dos estudantes, que se esforçavam para acompanhar as atividades extra-classe dos filhos.
Ontem, as responsabilidades da funcionária pública Daisy Maria de Albuquerque Castro foram além do cuidado com os estudos dos filhos. Em meio à preocupação com a saúde de Rodrigo e Bruno, feridos por causa do acidente, ela precisou acompanhar a liberação do corpo do marido no Instituto de Medicina Legal (IML). A filha mais nova ficou aos cuidados de familiares.
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BMW era emprestado
O BMW preto que Tarcísio Oliveira Gonczarowska dirigia na tarde de ontem pertence a um primo dele. Os dois moram no condomínio Ouro Vermelho, em São Sebastião. Tarcísio voltou a Brasília há três meses, depois de morar mais de dez anos em Fortaleza (CE). Ele retornou à capital federal para cursar Administração de Empresas em uma faculdade particular de Santa Maria. O curso é pago pelo pai dele, o funcionário do Banco Central Jankiel Gonczarowska, que chega de Fortaleza às 9h de hoje.
O estudante nasceu em Brasília no dia 1º de agosto de 1974. Morou com os pais no Guará até os 15 anos de idade, até que Jankiel Gonczarowska foi transferido para Fortaleza. Tarcísio continuou vivendo na capital cearense mesmo após a separação de Jankiel e Maria Helena Gonczarowska.
Segundo familiares, Tarcísio sentiu o divórcio dos pais. Tentou morar com a mãe, casada pela segunda vez. Não se adaptou. Mudou-se para a casa do pai, também casado com uma segunda mulher. Não deu certo. Passou a morar na casa de um irmão em Fortaleza.
Tarcísio é descrito por parentes como ‘‘alguém que não se envolve em confusão’’. ‘‘Ele não sai à noite, não bebe. Nunca ouvi dizer que ele tenha se envolvido em outros acidentes de trânsito’’, afirma um familiar que não quis ser identificado. Outro parente que pede sigilo descreve o estudante como alguém ‘‘um pouco agitado’’.
O rapaz vai responder ao inquérito em liberdade. Um estudo divulgado ontem em São Paulo mostra que de 52 processos por morte ou lesão corporal grave no trânsito registrados entre 2000 e 2001 na capital paulista, a Justiça deixou o acusado em liberdade em 42 casos. Em 30 processos, houve arquivamento. Em apenas cinco, condenação. Todas as penas eram de prestação de serviços à comunidade. (D.A.)
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