Brasília, terça-feira, 25 de março de 2003
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TRÂNSITO
Barbárie no asfalto

Mulher grávida é atropelada e morta por delegado de Águas Lindas ao sair do posto de saúde. Três acidentes fatais aconteceram na mesma pista, em apenas um ano

Guilherme Goulart
Da equipe do Correio

Carlos Moura
Desesperado, Charlon Silva Bezerra chora no colo da mãe, Maria Lenir Bezerra, a violência que tirou a vida de sua mulher, Antônia

Reprodução
Antônia estava feliz com a quinta gravidez: dedicação aos filhos
 
Eram 16h10 quando o auxiliar de serviços gerais Charlon Silva Bezerra, 37 anos, chegou em casa, na Quadra 2 do bairro Jardim Califórnia, em Águas Lindas. De dentro de um Escort vermelho, conduzido por um amigo, ele espichou um olhar tímido para os familiares, que choravam abraçados. Para ele, a cena foi suficiente para confirmar a trágica notícia da morte da mulher, grávida de três meses. Antônia Ferreira Bezerra Araújo, 34, e o quinto filho do casal, ainda na barriga, morreram na hora ao serem atropelados pelo delegado de polícia da cidade, ontem de manhã, na BR-070.

  Ao deixar o carro que o trouxera de Brasília, onde trabalha como funcionário da Concepa, Charlon foi recebido pelo filho mais novo, Alex Mateus, 5. Ele não segurou o desespero. Curvou-se, de joelhos, em frente ao garoto. ‘‘É a sua mãe, meu filho. É a sua mãe.’’ Logo em seguida, entrou na casa e foi cercado pelos parentes. No colo da mãe, a aposentada Maria Lenir Silva Bezerra, ele chorou mais uma vez.

  O acidente de Águas Lindas é mais um capítulo da barbárie que tomou conta do trânsito do Distrito Federal e Entorno, nos últimos anos. Em 2002, o Detran-DF registrou 444 vítimas fatais em 407 acidentes. Nas últimas duas semanas, em três acidentes na Esplanada dos Ministérios, duas pessoas foram mortas e um garoto de dez anos está internado em estado grave no Hospital de Base, há 11 dias.

  No caso de Antônia, mais uma vez a imprudência foi a responsável pelo fim de uma vida. Segundo testemunhas, o delegado Paulo Roberto Ribeiro dos Santos, titular da Delegacia de Águas Lindas, falava ao telefone celular no momento em que atingiu a mulher grávida. ‘‘Eu estava do lado dela. Vi que ele estava com o celular. Ele também estava correndo muito, nem com a freada brusca conseguiu parar’’, disse a amiga e vizinha Sueli Viana Moraes, 24.

  No asfalto da BR-070, no trecho que separa os bairros Água Bonita I e Morada da Serra, ficaram as marcas dos pneus do Pálio branco, placa JEL-5759-DF, guiado pelo delegado. O comerciante Eurípedes Gomes Vieira, 57, que tem um quiosque em frente, conta que Paulo Roberto acertou a vítima, que atravessava a rodovia, ao desviar de um ônibus parado no acostamento.

Placas trocadas
Eurípedes foi o primeiro a se aproximar de Antônia. O delegado, segundo ele, parou para socorrê-la, mas já era tarde. ‘‘Ele tremia bastante. Tirou o colete da Polícia Civil e colocou sobre o corpo dela. Infelizmente, acidente aqui já virou rotina.’’ Minutos depois, o local foi cercado por policiais militares e civis e pelo Corpo de Bombeiros. Rapidamente, eles tiraram o corpo do local e trocaram as placas do Pálio. ‘‘Exigi deles a placa e me explicaram que esse era um procedimento comum. Parecia que tentavam esconder algo’’, diz a cunhada da vítima, Chesma Silva Bezerra, 33.

  À tarde, Paulo Roberto não foi à delegacia. A delegada plantonista Ilda Helbingen disse que ele ‘‘estava arrasado e sem condições de trabalhar’’. Ela negou que a troca de placas seja procedimento usual em casos de acidentes com viaturas policiais, mesmo as descaracterizadas. O acidente aconteceu por volta de 11h, quando Paulo Roberto ia para um encontro de diretores da Polícia Civil de Goiás, em Goiânia. Ilda adiantou que ele será indiciado por homicídio culposo (sem intenção de matar). Segundo ela, o fato de o delegado estar ao celular não é considerado agravante, pois trata-se de uma infração administrativa.

  Os familiares contam que Antônia era conhecida pela religiosidade e dedicação aos quatro filhos, com idades entre cinco e 17 anos. Pouco antes de ser morta, ela saiu do posto de saúde com a confirmação da gravidez. O documento iria garantir o pré-natal do quinto filho. ‘‘Lembro que ela saiu daqui radiante. Não dá para acreditar no que aconteceu’’, afirmou uma funcionária do posto, que não quis se identificar.

  O promotor de vendas José Alencar Alves Filho, 33, em um ano, testemunhou três acidentes fatais no trecho onde Antônia morreu. ‘‘A reivindicação aqui é antiga. Pedimos quebra-mola, detectores de velocidade e duplicação da pista. Enquanto isso não acontecer, mais mães e pais de família vão morrer.’’


Esplanada perigosa

Marcelo Araújo e Sheila Messerschmidt
Da equipe do Correio
Carlos Vieira 23.3.03
Um Peugeot a 150 km/h partiu um Escort ao meio, matou um pedestre e deixou outro ferido na Esplanada
 

A Esplanada dos Ministérios, concebida pelos criadores de Brasília para ser o acesso aos poderes da capital do país, tornou-se território perigoso. Segundo estimativa do Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF), desde a inauguração da Ponte Jk, em 15 de dezembro do ano passado, a média de velocidade no local cresceu 20%. Na via, onde a velocidade permitida é de 60 km/h, motoristas trafegavam em média a 70 km/h. Hoje, esse número já chega a 85 km/h.

No mesmo período, o tráfego na Esplanada dos Ministérios aumentou em média 40%. Durante as manhãs, o tráfego chega a crescer 60%. São cerca de 60 mil veículos circulando nos dois sentidos, diariamente.

 Duas mortes em acidentes de trânsito tiveram de ocorrer nos últimos dez dias para que algum tipo de fiscalização eletrônica fixa fosse instalada no local. A partir da próxima semana o Detran promete colocar em um dos semáforos em frente à Catedral equipamento de radar e avanço de sinal. Segundo o diretor de Segurança de Trânsito do departamento, Antônio Bonfim, outros três serão instalados, em data a ser definida. Como paliativo, desde a semana passada, dois radares móveis vêm fiscalizando o trânsito na Esplanada, apenas pela manhã e à tarde. Também serão colocados quatro semáforos perto do Palácio do Planalto.

  Na madrugada de domingo, um carro atropelou três pessoas na Praça dos Três Poderes — matou um homem e feriu gravemente outro. Segundo peritos da Polícia Civil, o analista de sistemas Eduardo Tavares Ribeiro, 31, dirigia seu Peugeot a 150 km/h. Um vigia de carros conhecido como Baiano, ainda não identificado, teve uma perna decepada e morreu no local. O universitário Rafael Cardinalli Rodrigues, 19, está com o braço esquerdo imobilizado e passou por uma cirurgia de reconstrução da mandíbula.

Liberdade
O delegado Flávio Messina Alvin, da 1ªDP, disse que Ribeiro estava visivelmente bêbado na hora do acidente. Ele foi preso em flagrante por homicídio doloso — o delegado entendeu que o motorista assumiu o risco de matar. Mas não passou mais do que 17 horas na cadeia. O juiz Ricardo Nório, do Tribunal de Justiça do DF, decidiu ainda no domingo que, por ter residência e emprego fixos, o motorista poderia ser solto. Um médico de uma clínica do Lago Sul atestou que Ribeiro precisava ‘‘de internação imediata em face de grave depressão’’.

  O advogado do motorista, Carlos Alberto Gomes, disse que Ribeiro está internado na clínica, sem previsão de alta. O pai dele morreu há um mês de câncer, o que teria sido traumático para o analista. Ribeiro tem duas irmãs e vive com a mãe, em um apartamento da 202 Norte. Preso após o acidente, o motorista teria tentado saltar da viatura da PM na qual era transportado para a delgacia.

  O pai do estudante Rafael, Jaime Rodrigues Júnior, 40, disse que vai processar o motorista civilmente pelo atropelamento. ‘‘Se a justiça criminal não agir, vamos fazer o que estiver a nosso alcance.’’ A polícia enviará cópias das digitais do vigia morto para outros estados a fim de indentificá-lo. O outro acidente fatal ocorreu no dia 13. O corretor de imóveis Reginaldo Castro, 44, morreu depois que um BMW se chocou contra seu Palio, em frente à Catedral.



TRÁFEGO INTENSO

30 mil
veículos circulam pela Esplanada, em cada sentido, nos dias de semana

60%
é o aumento médio de tráfego na Esplanada pela manhã desde a inauguração da Ponte JK

20%
é o aumento médio de velocidade registrada nos veículos que circulam pela Esplanada, desde o mesmo período


Nova intimação

Tarcísio Gonczarowska, 28, foi intimado a prestar depoimento hoje, às 10h, na 2ªDP (Asa Norte). Na audiência marcada para ontem, ele não apareceu. Ele conduzia o BMW que se chocou com o Palio do corretor Reginaldo de Castro, 44, que morreu no local. O filho de Reginaldo, Rodrigo, 10, teve afundamento de crânio e está internado no Hospital de Base, onde permanecia em coma induzido e respirava com a ajuda de aparelhos.
 

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