Brasília, sexta-feira, 28 de março de 2003
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TRÂNSITO
Cidade proibida para ciclista

Bicicleta vira opção de risco para quem decide se aventurar pelas ruas do DF. Número de mortes nas pistas cresceu 36% em 2002, em relação a 2001. Direitos e deveres são desrespeitados. Especialista propõe campanha educativa

Sheila Messerschmidt e Renato Alves
Da equipe do Correio

Jefferson Rudy
Ciclista desafia o perigo na Avenida Hélio Prates, em Taguatinga, uma das mais movimentadas do DF: normas do Código são ignoradas
 
A luta diária por espaço no abarrotado trânsito do Distrito Federal está deixando corpos e ferros retorcidos pelo acostamento. No ano passado, um ciclista morreu a cada semana, em média, em acidentes registrados pelo Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF). Foram 57 mortes no total, 36% a mais do que em 2001, quando 42 ciclistas perderam a vida nas ruas do DF.

  Para quem precisa usar as duas rodas como principal meio de locomoção, só resta encarar o perigo. Durante os 40 minutos de pedalada para ir e voltar do trabalho, o zelador Valdecir Chaves Varão, 32 anos, morador do P Sul, em Ceilândia, faz da bicicleta sua companheira, entre ônibus e caminhões que transitam na Estrada Parque Taguatinga—Guará (EPTG). ‘‘Nunca tive um susto pra querer desistir, mas às vezes os busu (ônibus) correm e tenho de pisar no freio’’, conta Valdecir.

  O zelador começou a usar a bicicleta para ir até o Guará I há quase três anos. A passagem de ônibus economizada ajuda no orçamento para sustentar a família. Faça chuva, ou sol, Valdecir não dispensa a bicicleta, ainda que confirme sentir medo entre os carros. ‘‘Não tem engarrafamento que me pare’’, gaba-se, sem usar nenhum equipamento de segurança pessoal.

  Antônio Carlos Fonseca da Silva, 34 anos, também encara o trânsito rápido de uma rodovia sobre duas rodas, para economizar. Morador da Vila Estrutural, ele vai de bicicleta todos os dias até o Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), onde trabalha como entregador de gás. Assim como Valdecir, Antônio teme os carros e sempre vai pelo acostamento da Via Estrutural. Ali, a velocidade máxima permitida é de 80 km/h, mas é comum que carros e ônibus rodem bem acima desse limite. ‘‘Eles (motoristas) não respeitam moto, quanto menos bicicleta.’’

Desrespeito
Conforme o artigo 58 do Código de Trânsito Brasileiro, quando não há ciclovia ou acostamento o ciclista tem o direito de pedalar nas vias, contanto que use o mesmo sentido dos veículos e o extremo direito da pista. O Código deixa claro que o ciclista tem a preferência e que o condutor deve manter distância de pelo menos 1,2m da bicicleta, inclusive sob pena de multa.

  Mas o cumprimento das normas não é garantia de sobreviver no
trânsito. Alguns ciclistas são atropelados mesmo quando seguem todas as normas de segurança. No dia 25 de agosto de 2001, a vítima foi a triatleta brasiliense Mariana Ohata, 22 anos, bicampeã sul-americana. Enquanto pedalava no Lago Sul, na altura da QL 10, Ohata foi atropelada por um Fiat Uno. Ela cumpria todos os deveres do ciclista.

  Quem não é profissional sofre mais ainda com o desrespeito. Em outubro passado, o trânsito violento da Avenida Alagados, em Santa Maria, matou o mecânico Aécio Pereira de Souza, 29 anos. Numa bicicleta, ele foi atropelado por um ônibus e teve o crânio esmagado. A viúva, Rosana Fontineli de Souza, 23 anos, reluta em aceitar a versão do motorista, que disse que Aécio perdeu o controle e caiu embaixo da roda do veículo. ‘‘Ele sempre andava de bicicleta e não se arriscava pelo meio da pista’’, afirma. Rosana até hoje não recebeu o seguro que deveria ser pago pela morte do marido. Desempregada, ela cria dois filhos.


MEMÓRIA
Tragédias se repetem nas pistas

11 de junho de 2002
  O estudante Francisco da Silva Neto, 8 anos, seguia de bicicleta para a Escola Classe 6, em Planaltina. Num cruzamento na quadra 4 da Vila Buritis, ele bateu na lateral de um ônibus da empresa São José que seguia na mesma pista. Eram 7h25. O motorista e alguns passageiros tentaram salvar o menino, que sofreu uma forte pancada na cabeça. Francisco morreu antes de receber socorro.

10 de julho de 2002
  José Ribeiro da Silva, 58 anos, foi encontrado morto, às 20h, na DF-180, km 30. Ao lado da bicicleta dele, estavam um símbolo da marca Mercedes Benz e a placa JJV 0468 (DF). A placa, segundo investigações da 18ªDelegacia de Polícia (Brazlândia), pertencia a um caminhão-pipa da empresa de ônibus Via Brasília. O motorista do caminhão foi identificado dois dias depois e indiciado por homicídio culposo.

17 de julho de 2002
  Valdir Chaves Barbosa, 21 anos, morreu atropelado em Santa Maria. No início da noite, ele andava de bicicleta na avenida principal da cidade, quando foi atingido por uma Kombi, dirigida por Marcos Antônio da Silva, 25.

15 de setembro de 2002
  Givanildo Vieira, 22 anos, morreu após ser atropelado, em sua bicicleta, por um Gol na DF-345, próximo ao Morro da Capelinha, em Planaltina. Três curiosos que se aproximaram para ver o acidente também foram atropelados por um Santana Quantum. Um deles morreu.


Brasiliense ignora a legislação
Kleber Lima 11.03.03
Rosana Fontineli perdeu o marido para a violência no trânsito: dificuldade para criar os dois filhos
 

  O arquiteto Frederico de Holanda, em seu livro Espaço de Exceção, diz que Brasília, ao contrário do que suas vias planas possam sugerir, não foi construída para bicicletas. Ele acredita que a velocidade desenvolvida pelos carros e a distância entre os lugares são desvantagens para os ciclistas. ‘‘É sobre quatro rodas que a grande maioria da população do Plano Piloto, em seus movimentos diários, usa e percebe a cidade’’, escreve.

  O diretor de Segurança do Detran-DF, Antônio Bonfim, defende que as pessoas evitem usar bicicletas como meio de locomoção. ‘‘Os ciclistas deveriam procurar parques. Temos mais de 40 pelo DF todo.’’ Bonfim diz que os acidentes são causados, na maioria das vezes, pelo ciclista — assim como os atropelamentos, segundo ele, são responsabilidade dos pedestres.

  A jornalista Elisabeth Veloso, da ONG Rodas da Paz, contesta o especialista. ‘‘Isso demonstra que a ignorância sobre o assunto é tão grande, que o próprio Detran desconhece a lei.’’ Elisabeth argumenta que eliminar os ciclistas das ruas não é solução para o aumento das mortes. ‘‘Essa situação não está ligada simplesmente à violência, mas ao desconhecimento dos direitos que os ciclistas têm’’, analisa.

  O triatleta Alexandre Manzan, 28 anos, quase entrou para lista de mortos em acidentes no DF (leia artigo ao lado). Em maio de 1997, ele foi atropelado quando pedalava pela rodovia que liga Brasília a Unaí (MG). Ficou quase seis meses sem competir. E não participou dos Jogos Pan-Americanos de 1995 por conta de outro atropelamento, no Eixão.

  Ciclista profissional, Gláucio Fontenelle, 33 anos, conhece bem a Europa, onde já correu em mais de 20 torneios. Ele diz que lá os ciclistas são tratados como manda a lei, tendo direitos e deveres iguais aos dos motoristas. ‘‘O respeito é mútuo. Todos sabem seus limites. Os ciclistas não circulam nas vias principais, que equivalem ao Eixão e W3. Mas nos locais onde transitam, têm a preferência’’, conta Fontenelle, sete vezes campeão brasiliense de ciclismo.

  Para o professor Paulo César Marques, do mestrado em Transportes da Universidade de Brasília, a primeira medida para diminuir a violência contra os ciclistas é a construção de ciclovias e de sinalização para as bicicletas. Ele diz que no trânsito prevalece a lei do mais forte. ‘‘A realidade é o contrário da lei, que favorece o menor.’’ Marques aponta o desconhecimento como causa do desrespeito. ‘‘Nem o ciclista segue as normas, porque não as conhece. Já os motoristas de carros acham que ciclistas não têm lugar. Isso é culpa da falta de programas educativos.’’ O Detran-DF espera para breve a liberação de recursos do GDF, para fazer uma campanha sobre segurança no trânsito.


Colaborou Juliana Cézar Nunes

Artigo - Uma questão de educação

 Como já se esperava, a única coisa que prevaleceu do novo Código de Trânsito foram as multas extorsivas que vêm sendo aplicadas pelos robocops eletrônicos que infestam a cidade, e nada mais se fez. Coincidência ou não, só no ano passado, nada menos que 57 acidentes fatais envolvendo ciclistas foram registrados em Brasília. Ao ser entrevistado, o diretor do Detran, ingenuamente, sugeriu que os ciclistas deveriam abandonar as ruas e passar a pedalar nos parques, o que inviabilizaria os treinamentos esportivos e o uso da bicicleta como transporte. Ou seja: os incomodados que se retirem, ou então, que se submetam à lei da selva.

  Com certeza, não se lembrou o entrevistado de que, nos países de Primeiro Mundo, os ciclistas são tratados como pessoas e, como tais, merecedores de respeito e de espaço nas vias. Para tanto, dispõem de ciclovias ou, quando inviáveis, repartem o espaço público com os carros em igualdade de condições. Certa vez, quando pedalava com alguns colegas numa via sinuosa do Canadá, percebi que uma fila de carros se formava atrás de nós: respeitosamente, aguardavam uma oportunidade para nos ultrapassar com segurança. Admirado, percebi que se tratava de uma simples questão de educação, o que certamente não existe por aqui.

  Em maio de 99, quando pedalava nas imediações do Jardim Botânico, sofri traumatismo craniano e tive as pernas arrebentadas ao ser atropelado por um motorista irresponsável. Desde então, tenho participado com outras pessoas e organizações de movimentos e campanhas que visam educar a população e alertar o governo para a importância de medidas preventivas, como a conscientização da população de que os ciclistas são parte do trânsito e, como tal, sujeitos às mesmas regras e merecedores do mesmo respeito. Só quem pedala sabe dizer o quanto é revoltante receber fechadas ou finos de motoristas insensíveis ao perigo que provocam, ou ser alvo de cusparadas e buchas de laranja lançadas por gente inconseqüente.

  O que se espera é que, numa cidade como Brasília, que já produziu tantos atletas de nível internacional, os quais já conquistaram títulos de reconhecida importância, se possa retribuir esse esforço, simplesmente, com atitudes de gentileza, educação e, acima de tudo, de respeito à vida dos outros. Afinal, esse outro poderá ser você mesmo, ou seu próprio filho, o que certamente não será uma boa.


Alexandre Manzan é triatleta sobrevivente
 

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