|
|
|
politica@correioweb.com.br
sistema telebrás
Fundos financiaram sócios sem dinheiro
Consórcio que comprou a Telemar não tinha como bancar o lance, mas conseguiu os recursos em jogadas com os fundos das estatais, conforme revelam as gravações telefônicas. Até o comando da nova empresa estava em negociação
Ana D’angelo
Do Estado de Minas
| Carlos Moura 10.08.98 |
 |
Jereissati tornou-se dono da Telemar mesmo com pouco dinheiro
|
| |
R$ 50 milhões. Era tudo que o empresário Carlos Jereissati tinha em caixa para participar do leilão de privatização das teles, em que o governo estimava arrecadar no mínimo R$ 13 bilhões, segundo relatos de dirigentes da Previ. Mesmo assim se apresentou para ser o financiador de outros três sócios na empreitada (Andrade Gutierrez, Macal e Inepar), que também não tinham dinheiro suficiente. O naco do sistema Telebrás em que o grupo estava de olho era a Tele Norte Leste, que reunia a antiga Telerj e a companhia telefônica de outros 15 estados, cujo preço mínimo era de R$ 3,4 bilhões.
Foi assim, com o pires na mão, que eles bateram às portas da Previ a duas semanas do leilão que ocorreria no dia 29 de julho de 1998, uma quarta-feira. Os quatro sócios privados já tinham ao seu lado as duas seguradoras coligadas do Banco do Brasil (Brasilveículos e Aliança do Brasil), devidamente capitaneadas por Ricardo Sérgio. Faltava o sócio endinheirado: os fundos de pensão.
A aventura financeira da turma de Jereissati fez com que o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, a classificasse de ‘‘telegangue’’ e ‘‘rataiada’’. Na Previ, o grupo ficou conhecido como ‘‘teleduros’’.
Sabendo que os possíveis sócios não tinham dinheiro para honrar os compromissos, o Conselho Deliberativo da Previ optou pela parceria com o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, que contava com um aval de peso, o Palácio do Planalto. Assim, oficialmente, a Previ seguiria com o Opportunity.
Mas, nos bastidores, a diretoria do fundo, tendo à frente João Bosco Madeiro, fiel escudeiro de Ricardo Sérgio de Oliveira, deu cabo à operação para montar a engenharia financeira para arrancar dinheiro da Previ para bancar Jereissati e os três sócios privados. Ao mesmo tempo, colocava em curso uma manobra para puxar o tapete de Daniel Dantas. A estratégia adotada foi de impor tantas condições de forma que Dantas acabasse desistindo da parceria.
Na gestação das manobras para arrancar dinheiro dos fundos, estava, ao lado de Madeiro, José Brafman, o amigo de Ricardo Sérgio. As fitas mostram que ele chegou a operar de dentro das dependências da Previ, com desenvoltura impressionante.
As conversas telefônicas comprovam que Ricardo Sérgio deu aval para a manobra. Ele é carinhosamente chamado pela sua turma de ‘‘Big”. ‘‘O que eu tinha combinado com o Big era trabalhar com os dois cavalos‘‘, diz Brafman em conversa com Madeiro, da Previ, numa referência ao consórcio do Opportunity e de Jereissati.
Ricardo Sérgio sempre negou qualquer ingerência nos negócios dos fundos de pensão à imprensa e à Polícia Federal. As fitas mostram que ele sempre mentiu. Em ligação para João Bosco Madeiro às vésperas do leilão, ele chega a impor uma ordem para os fundos assinarem o acordo com a turma de Jereissati.
|
Depoimentos na berlinda
À Polícia Federal, no ano passado, dirigentes da Previ à época das privatizações deram depoimentos semelhantes. Ninguém viu nada, ninguém ouviu nada. Nada de armação, nada de favorecimentos aos sócios privados do consórcio Telemar. A Previ só teria entrado no consórcio Telemar após a realização do leilão.
A ajuda dos fundos, injetando dinheiro nos sócios privados, só teria ocorrido porque naquele momento não havia mais nada a fazer a não ser salvar o consórcio e aproveitar o bom negócio que ele tinha feito ao arrematar no leilão a Tele Norte Leste com apenas 1% de ágio. Mas as fitas contam outra história.
Poucos dias antes do leilão, marcado para o dia 29 de julho, já estava traçado o destino dos recursos dos fundos de pensão e principalmente da Previ no consórcio tão sonhado por Jereissati: eles pagariam sua parte na sociedade de uma só vez, cobrindo a parte devida pelos três sócios privados que não tinham o dinheiro para honrar o pagamento da primeira parcela. Ao mesmo tempo, a Previ iria capitalizar os parceiros privados.
Pelas regras do edital, o pagamento poderia ser parcelado: 40% de entrada (a ser paga no dia 4 de agosto, cinco dias após o leilão) e duas parcelas anuais de 30% cada, corrigidas pelo IGP-M mais juros anuais de 12% (vencendo em agosto de 1999 e agosto de 2000).
Ao atender na sala de Jair Bilachi telefonema de Humberto Costa Pinto, que surge nas conversas assessorando Antônio Dias Leite, dono da Macal, Brafman relata a solução encontrada para não deixar os fundos descobertos, já que entrariam com todo o dinheiro de uma vez só. Os fundos adquiririam opções de compra de ações dos futuros donos da Tele Norte Leste, ou seja, direito de aquisição dos papéis em determinado prazo. Foi o que ocorreu de fato.
‘‘Você se lembra da preocupação que a gente tinha com a garantia que poderia ser dada aos fundos uma vez que eles estão pagando a parte deles à vista. Isso, em princípio, a gente poderia resolver isso em forma de call. Ou seja, os fundos teriam um call contra as demais empresas que, na hipótese do vencimento da primeira obrigação com o Tesouro as empresas não pagarem, eles pagam e exercem o call das ações da empresas. Isso resolve o primeiro problema”, explica Brafman ao assessor da Macal. Call significa direito de opção de compra de ações. O pagamento à vista pelos fundos também foi assunto de conversa entre Brafman e o advogado Lincoln Chaves, que assessorava a Previ na privatização da Telebras.
|
Os personagens
RICARDO SÉRGIO DE OLIVEIRA
Economista, fez carreira no Citibank, em Nova York, e Crefisul antes de desembarcar no governo FHC em 1995, por indicação de José Serra. Assumiu formalmente a diretoria da Área Internacional e Comercial do Banco do Brasil. Atuou como arrecadador de fundos para as campanhas de José Serra ao Senado, em 1990 e 1994 e de FHC à Presidência em 1998. Acusado de receber propina no leilão da
Vale do Rio Doce e da Telemar, saiu milionário
do governo FHC.
CARLOS JEREISSATI
Irmão do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), comanda o grupo La Fonte, uma holding que atua no ramo de administração de shoppings centers. No início da década de 90, os irmão Tasso e Carlos dividiram o patrimônio da família, que começou com uma indústria têxtil. O segundo ficou com os shoppings e a indústria de fechaduras La Fonte, já vendida. Há três anos, Carlos Jereissati entrou no ramo de telecomunicações. É acusado de ter pago a propina a Ricardo Sérgio em agradecimento à engenhosa operação financeira montada para que virasse sócio da Telemar.
JOSÉ BRAFMAN
Advogado e especialista em finanças, é dono da Único Negócios Corporativos, que atua como intermediária de entrada e saída de capital no Brasil. Amigo de Miguel Ethel e Ricardo Sérgio, que atuaram nos bastidores das privatizações cooptando os fundos de pensão. Após a privatização da Vale, sem cargo formal, mandou e desmandou na mineradora até ser expulso da empresa por Benjamin Steinbruch.
MIGUEL ETHEL
Empresário paulista, mantém relações com o clã Sarney. Foi diretor da Caixa durante o governo Sarney. Após maquinar o consórcio vencedor da privatização da Vale, com José Brafman e Ricardo Sérgio, chegou a conselheiro da mineradora. Também foi conselheiro da Telemar. Consta pagamento de R$ 1 milhão, em 1998, pelos sócios da Telemar a Miguel Ethel por ‘‘serviços de consultoria’’.
JOÃO BOSCO MADEIRO
Funcionário de carreira do Banco do Brasil, foi assessor de Ricardo Sérgio na diretoria do BB. Em seguida, foi nomeado diretor de investimentos da Previ por indicação do ex-chefe. Saiu rico após deixar a Previ. Mora atualmente numa mansão na Barra da Tijuca que está em nome de uma empresa localizada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas. Não consegue explicar o aumento do patrimônio pessoal.
SÉRGIO ANDRADE
Empresário, é um dos donos da Andrade Gutierrez, segundo maior grupo de construção pesada do país, que passou a atuar no ramo de telecomunicações. O grupo se notabilizou por executar grandes obras públicas. Teve crescimento expressivo durante o governo de Orestes Quércia em São Paulo em 1990.
ANTÔNIO DIAS LEITE
Empresário, é o principal acionista da Macal, uma empresa de investimentos. É conhecido como Toninho. Filho do ex-ministro das Minas e Energia Antônio Dias Leite Filho, começou no mundo dos negócios com uma pequena mineradora no Amapá em sociedade com Eike Batista, marido da modelo Luma de Oliveira e filho do ex-presidente da Vale do Rio Doce e ex-ministro Eliezer Batista. Ex-controlador da Multicanal, passou a atuar no setor de telefonia.
CARLOS ALBERTO SICUPIRA
Ex-dono do Banco Garantia, é um dos sócios da GP Investimentos, junto com o banqueiro Jorge Paulo Lemann. A GP é uma companhia de investimentos que conta em seu portfólio com mais de 25 empresas. O grupo associou-se à Macal em 1995 para criação de um canal de compras por TV, o Shoptime. É conhecido como Beto Sicupira.
EDUARDO MODIANO
Professor da PUC-RJ, foi presidente do BNDES durante o governo Collor. Depois passou a atuar no mercado financeiro. Dirigiu o Banco FonteCindam durante o período das privatizações até o início de 1999. Deixou o banco poucos meses após estourar o escândalo da ajuda do Banco Central ao Marka e ao próprio FonteCindam.
JAIR BILACHI
Funcionário de carreira do Banco do Brasil, chegou a superintendente do BB no Distrito Federal e presidente da Previ, entre 1996 e 1998. Após cair com o escândalo do grampo do BNDES, retornou a Brasília, onde ocupa um cargo sem comissão no BB.
|
Ricardo liga para Madeiro
A conversa comprova a intimidade entre eles. Bosco dá a entender que a Previ iria ao leilão da Tele Norte Leste com o Opportunity, mas o decurso da conversa demonstra que eles já faziam planos para a administração da Telemar com os integrantes do consórcio de Jereissati. Outro ponto: Ricardo Sérgio revela que teve ingerência na operação para enfraquecer Benjamin Steinbruch no comando da Vale do Rio Doce no final de 1997 e início de 1998. Na ocasião, os fundos de pensão liderados pela Previ votaram contra projetos importantes propostos por Steinbruch.
Ricardo Sérgio — Alô. Onde você está, boneca?
Bosco — Eu estou aqui começando a reunião com os fundos.
Ricardo Sérgio — (risos)
Bosco — Estão todos presentes. Inclusive Sistel, com três representantes.
Ricardo Sérgio — Tá.
Bosco — Tá? Então quando nós sairmos daqui hoje, não sei que horas, nós sairemos com a decisão final.
Ricardo Sérgio — Tá.
Bosco — E se tudo correr como imagino estamos abrindo com o Opportunity a Telemar, viu?
Ricardo Sérgio — (risos) A gente está ficando cada dia mais experiente, né? Mas ainda continuo preocupado com grana. Porque senão daqui a pouco você vai colocar os 2 bi.
Bosco — É. Na Vale, tive que botar R$ 360 a mais, depois peguei eles, dez dias depois.
Ricardo Sérgio — Porque eu não sei de fato a montagem da grana. Outra coisa. Nós não podemos criar um outro monstro. Essa empresa tem que ser de fato gerida de forma profissional. Será condição desse acordo ser assinado: será contratado um profissional, o melhor profissional do mercado. Senão a gente vai se ... (palavrão) e criar outro Benjamim (referindo-se ao empresário Benjamin Steinbruch da Vale do Rio Doce).
Bosco — Isso é importante.
Ricardo Sérgio — Daqui a pouco é o Beto Sucupira, daqui a pouco o Carlos Jereissati, daqui a pouco o Miguel Ethel, todo mundo querendo ser presidente.
Bosco — E a gente daqui a pouco tem que fazer operação de novo, a segunda operação Benjamin.
Ricardo Sérgio — Desmonte. E isso não vou fazer. É muito desgaste.
Bosco — Sim.
Ricardo Sérgio — Tem que ser condição da fundação. Temos experiência. Tem que ser colocado no acordo: será encontrado o melhor administrador do setor financeiro. O melhor cara do mercado para isso. Nós precisamos de contratar o Luiz Carlos Mendonça de Barros, contrata. É o modo de dizer, estou exagerando....
Bosco — Tudo bem. O Fernando Henrique, contrata.
Ricardo Sérgio — Senão no final a gente vai criar outro monstro.
Bosco — Isso aí é fundamental.
|
Conversas na sede da Previ
Antônio Dias Leite, o Toninho, da Macal, procura por Carlos Jereissati, que estava no gabinete de Jair Bilachi, na Previ. Eles revelam que Ricardo Sérgio, Miguel Ethel e José Brafman comandavam e coordenavam o processo de montagem do consórcio Telemar.
Humberto Costa Pinto — Isabel, Humberto Costa Pinto.
Telefonista da Previ — Tudo bem?
Pinto — Tudo bem, querida? Eu vou precisar de uma gentileza sua. Você consegue me passar lá para cima, para o gabinete do seu Jair, onde está o seu Carlos Jereissati?
Telefonista — Eu acho que eles já saíram. O senhor me aguarde um minuto, por favor. (espera e gravação de jingle da Previ)
Pinto — Humberto, só um minutinho.
Antônio Dias Leite — Carlinhos, estou ligando para seu celular, mas está na caixa postal.
Carlos Jereissati — É, não entra.
Antônio Dias Leite — Pois é. Então, é o seguinte. No caminho para cá, o Beto (supostamente Beto Sicupira, da GP) me ligou e arranjou no Unibanco 680 milhões a 0,5% de fiança. Com quem é que eu falo isso?
Carlos Jereissati — Oh, rapaz, com o Ricardo Sérgio. Com o Ricardo Sérgio.
Antônio Dias Leite — Você quer falar isso para ele?
Carlos Jereissati — Eu falo. Quem saiu para cuidar disso é o Miguel e o Brafman e eu não sei como pegá-los.
Antônio Dias Leite — Tá bom.
Carlos Jereissati — Você tem como...
Antônio Dias Leite — Eu liguei para o Brafman, falei com ele, mas ele estava num lugar que não podia falar, claro. E me pediu para que eu falasse com o Ricardo Sérgio.
Carlos Jereissati — Isso é com o Ricardo Sérgio, Miguel e ele. Eles estão com isso. Eu vou tentar avisar de qualquer jeito.
Antônio Dias Leite — Ok.
Carlos Jereissati — Um abraço.
|
|
|
 |
Warning: main(config.inc) [function.main]: failed to open stream: No such file or directory in /web/sites/correiobraziliense/www/cw/EDICAO_20030401/ultimas.htm on line 2
Fatal error: main() [function.require]: Failed opening required 'config.inc' (include_path='.:/usr/web/inc') in /web/sites/correiobraziliense/www/cw/EDICAO_20030401/ultimas.htm on line 2
| |