Brasília, domingo, 06 de abril de 2003
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Cinqüentão bom de praia

Christiana Suppa

Da equipe do Correio

 
 Quem diria? Um dos mais populares petiscos cariocas é paulista. A receita do biscoito de polvilho Globo, que seduz o Rio de Janeiro das areias da praia às arquibancadas do Maracanã, nasceu com sotaque caipira há 50 anos das mãos de um paulista do interior, de Franca.

  A massa leve e crocante, nos sabores salgado e doce, é irresistível e fez dos Biscoitos Globo — Bissshhhcoito Grobo, para os mais íntimos — quase que uma unanimidade. Ele não tem propaganda nem embalagem atraente. Mesmo assim, está — ao lado do samba, da cerveja e do mate Leão — na lista dos Dez Mais da maioria dos cariocas.

  Ninguém sabe de onde ele vem nem como é feito. Muito menos como os pacotes de 30g vão parar nas mãos de uma legião de vendedores ambulantes, que chegam a mais de 200 nos dias quentes de verão. Por isso, há quem especule que o Grobo faz parte de uma máfia que fica rondando a cidade em helicópteros atrás de congestionamentos. Assim que se forma um, os vendedores descem com cordas, silenciosos como ninjas, e começam a vender o biscoito. Quando o trânsito anda, eles somem dentro de uma nuvem de fumaça.

  Outros cariocas brincam dizendo que a venda para os ambulantes é algo mais secreto e exclusivo que o tráfico de drogas ou venda de armas proibidas. Ninguém conhece o local de distribuição, além dos vendedores, que guardam segredo a respeito.

  Mas, ao contrário do que imaginam as mentes mais criativas, o Biscoito Globo não faz parte de máfia nenhuma. É fabricado na Panificadora Mandarino, na Rua do Senado, em pleno centro do Rio de Janeiro, desde 1965 — quando a receita de polvilho azedo com água, leite e ovos foi batizada de Globo por Milton Ponce, sócio da padaria junto com dois irmãos e um amigo. Ele aprendera a fazer a massa do biscoito de polvilho em 1953, quando ainda era funcionário da Padaria Globo, no bairro Ipiranga, na capital paulista. Isso mesmo!

  Só que o biscoito não pegou em São Paulo. Ironia do destino, quando chegou ao Rio pela primeira vez, em 1955, por ocasião de um congresso eucarístico, caiu nas graças dos cariocas. E foi assim que Milton Ponce, na época com 18 anos, foi parar na Cidade Maravilhosa. ‘‘Depois de ter sido sócio de três padarias que não deram muito certo no Rio, vi que o que sabia mesmo fazer era biscoito. Hoje me dedico só a isso e não tenho do que reclamar’’, diz Ponce.

SAUDADES Os cariocas radicados em Brasília guardam lembranças saudosas do Globo. ‘‘O biscoito é a imagem da praia nas décadas de 70 e 80. Hoje vendem de tudo, mas naquela época o Globo reinava absoluto’’, conta o administrador Ronaldo Lanzellotti, 53 anos, morador de Brasília há apenas 1 ano. Ele se lembra de que os saquinhos vazios do biscoito eram usados no Maracanã de uma forma bastante insólita: o pessoal da arquibancada fazia xixi no saquinho e jogava na galera da geral. ‘‘Mas eu nunca fiz isso’’, garante. Já para José Luiz Vasconcelos, 45 anos, o biscoito lembra o tempo em que ia à praia de Copacabana com o pai, ‘‘antes de fazerem o aterro’’. ‘‘O Globo faz parte de um tempo bom da minha vida que me dá muita saudade’’, acrescenta José Luiz, que veio para Brasília pouco depois da inauguração da capital.

• Colaborou Rosane Torres



‘‘Não tem nada que combine mais com a praia de Ipanema do que o biscoito Globo acompanhado do mate Leão (outro sucesso nas praias cariocas) com uma pitada de limão’’

Léo Jayme, cantor e compositor goiano, que viveu muitos anos no Rio e hoje mora em São Paulo

‘‘Não sei do que se trata.
Não vou à praia e nunca comi esse biscoito’’

Lobão, cantor e compositor, que se autodefine como um carioca que vive no inverno e só vai pra praia pra uma eventual caminhada no calçadão


Sucesso em números

A receita original dos biscoitos Globo nasceu em 1953 pelas mãos do paulista Milton Ponce, mas a marca só surgiu em 1965.
A fábrica tem 20 funcionários que fabricam por dia 700 quilos de biscoito, que são vendidos a R$ 0,33 para os cerca de 200 ambulantes que chegam a vender nos dias mais quentes do verão 15 mil pacotes de 30 gramas.


Efeito maracanã

O ator e cantor Evandro Mesquita, ex-Blitz, tem uma boa lembrança dos Biscoitos Globo. Quando estava em cartaz com a peça Céus, há uns quatro anos, num teatro no Humaitá, ele pediu patrocínio a Milton Ponce para incrementar a abertura do espetáculo e descontrair a platéia. Ponce enviava a cada apresentação vários pacotes do biscoito. ‘‘Era muito divertido. As meninas ofereciam o biscoito para as pessoas, que ficavam sem entender muito bem o que estava acontecendo. Mas depois de um tempo o pessoal se descontraía e rolava até guerra de biscoito na platéia, que a gente passou a chamar de efeito Maracanã’’, conta Evandro. Ele prefere o doce ao salgado.


 
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