Brasília, terça-feira, 08 de abril de 2003
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pioneiros
Onde a história se hospedou

Empresário quer reunir em livro episódios pitorescos ocorridos nos hotéis da cidade. Fazem parte do acervo a história dos produtores de banana que se lançaram no ramo e as filas para o elevador panorâmico

Érica Montenegro
Da equipe do Correio

Eraldo Alves da Cruz, 42 anos, tem um amontoado de papéis espalhados pela mesa de seu escritório, no 4ªandar do Eron Brasília Hotel. No meio daquelas folhas, preciosidades históricas. Vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH), Eraldo pretende um dia juntá-las para escrever a memória da hotelaria brasiliense. ‘‘Capítulos importantes da história do Brasil e de Brasília aconteceram dentro dos hotéis’’, afirma o empresário. Entre um e outro caso, ele revela que um hotel da capital foi decorado por uma musa americana e que um elevador foi sensação em uma provinciana Brasília. E conta como a reação contra um preconceito transformou fazendeiros do interior de Goiás em donos de uma rede de hotéis. Leia abaixo essas histórias relatadas por seus personagens e testemunhas. Parece lenda, mas não é.


Um novo eldorado
Jefferson Rudy 2.4.03
Os Barbosa Miguel (E), Lindalva e Dilermando: jeitão de interior
 

Banana financiou a bravata dos Barbosa

  Dois meses depois da inauguração de Brasília, os Barbosa vieram passear no Distrito Federal. Fazendeiros no interior de Goiás, estavam interessados em investir na cidade que se apresentava como o novo eldorado brasileiro. Joaquim, Geraldo, José e Elias decidiram se hospedar no recém-inaugurado Hotel Nacional. Logo na entrada do ‘‘Copacabana Palace’’ do cerrado, descobriram que, mesmo na empoeirada Brasília da década de 60, aparência era coisa importante.

  ‘‘O funcionário começou com umas desculpas para não nos hospedar. Desconfiou do nosso jeitão de interior’’, conta Miguel Pereira Barbosa, 61 anos, na época, um rapazote que acompanhava o pai e os tios na histórica viagem. Joaquim — o mais impetuoso dos irmãos Barbosa — não deixou por menos e avisou ao abusado recepcionista: ‘‘É melhor o senhor nos tratar com educação. Se quisermos, podemos construir um hotel igual ou melhor do que este aqui’’. O funcionário, então, aceitou os Barbosa.

  Mas, na hora do jantar, eles foram barrados de novo. Estavam sem gravata e não poderiam entrar no chiquérrimo restaurante do Nacional. Naquela noite, a bravata de Joaquim virou idéia de negócio: eles poderiam lucrar construindo um hotel bom e confortável que acolhesse bem as pessoas. E os Barbosa construíram não um, mas três hotéis no DF. Em 1965, a família inaugurou o Hotel das Nações. Cinco anos depois, o Alvorada. Passados mais cinco, o Hotel das Américas.

  Miguel conta que o primeiro dos três estrelas foi bancado com o dinheiro que a família ganhava com plantações de banana na pequenina Jandaía (GO). ‘‘Foram toneladas e toneladas de banana’’, brinca. Na década de 80, os Barbosa estavam definitivamente no ramo — além dos três hotéis brasilienses administravam um outro em Tucuruí (PA), no meio da selva amazônica. Ainda assim, continuaram tocando fazendas. ‘‘Somos homens de pegar na enxada’’, diz Delermando Pereira Barbosa, 63, que também acompanhou os tios no lendário episódio.


Glamour americano decorou o cerrado
Jefferson Rudy 2.4.03
Raif Jibran: o pai dele, El-Hadj, ficou amigo das musas de hollywood

Jefferson Rudy Reprodução
Jibran El-Hadj com Mary Martin (E): diva decorou o Torre
 

O Torre Palace Hotel, segundo hotel construído no Setor Hoteleiro Norte (SHN), foi decorado por uma estrela norte-americana. A história começa no final da década de 60, em Anápolis (GO), quando um grupo de gringos bateu na porta do comerciante Jibran El-Hadj. Eram Mary Martin, diva da Paramount no início dos anos 40, Janet Gaynor, primeira mulher a receber o Oscar, e seus respectivos maridos.

Os americanos procuravam alguém que os ajudasse a comprar terras no interior de Goiás. ‘‘Parece incrível, mas eles estavam cansados do glamour do cinema’’, conta Raif Jibran, 56 anos, filho de Jibran El-Hadj. Como Jibran era o único homem fluente em inglês naquela cidade, acabou ganhando a amizade eterna dos estrangeiros. Janet Gaynor, Mary Martin e seus maridos viveram alguns anos entre os ranchos de Goiás e as festas de Nova York e Los Angeles.

Em 1970, Jibran decidiu construir um hotel em Brasília. Mary Martin se encarregou da decoração do estabelecimento. Em 27 de abril de 1973, o Torre Palace foi inaugurado com pompa e circunstância. Os gringos não vieram à festa, mas os ambientes decorados por Mary causaram polêmica. ‘‘A decoração era meio exagerada. Ou as pessoas gostavam ou detestavam ’’, reconhece Raif.

O visual do Torre Palace seguia o estilo ‘‘cassino em Las Vegas’’. Cada andar do prédio era decorado com composições de uma única cor. ‘‘Se o andar fosse vermelho, a cortina era vermelha, a louça do banheiro era vermelha e o lençol também era vermelho’’, conta Raif. A idéia se repetia nas cores azul, amarelo e verde. Na recepção, Mary e o marido colocaram piso xadrez, lustres de cristal. Nas paredes, mosaicos de mármore branco, espelho e granito.

Trinta anos depois, restam apenas fotos da época e um pedacinho do piso xadrez. O Torre já passou por três reformas. ‘‘O tempo passa e as coisas acabam ficando ultrapassadas’’, diz Raif, que assumiu a direção depois que o pai morreu.


O elevador acabou virando estrela
André Corrêa 4.5.94
Hotel Eron: centro das atenções do setor hoteleiro, na década de 70
 

Até o final de 1973, filas se formavam em frente ao Eron Brasília Hotel, no Setor Hoteleiro Norte (SHN) para ver o primeiro elevador panorâmico da América Latina. A idéia de construir a caixa de vidro fumê foi de Eron Alves de Oliveira, um empresário sergipano radicado em São Paulo que já era conhecido por seus empreendimentos arrojados.

  Eron, que começou a vida como camelô na capital paulista, queria construir o hotel mais luxuoso e moderno do Brasil. Associou-se a dois deputados federais e a um comodoro do Iate Clube para realizar o empreendimento. Marqueteiro que estudou apenas até a 4ªsérie do ensino fundamental, embalou a construção do hotel em uma campanha publicitária agressiva. No dia do lançamento da pedra fundamental reuniu a elite brasiliense em um galpão de madeirite para distribuir convites que já marcavam a inauguração para dali a um ano. Para anunciar o empreendimento, o empresário também pagou por três páginas de reportagem da revista Manchete.

  Promessa cumprida: em 25 de outubro de 1973, os convidados estavam reunidos de novo para conhecer o hotel e passear no elevador de vidro, que voltaria a ser notícia em março de 1974. O ditador Augusto Pinochet veio a Brasília para a posse do general Ernesto Geisel. A caixa de vidro foi revestida provisoriamente com chapas de metal. Hospedado no Eron, Pinochet temia atentados.



 
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