Brasília, terça-feira, 06 de maio de 2003
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Correio 2003

  

radiação
Poluição de ondas na Esplanada

Cientista paulista pesquisa campos magnéticos no DF e vê riscos para a saúde com exposição prolongada. Especialista da UnB minimiza problema. Áreas de maior concentração ficam no centro do Plano Piloto

Daniel Ferreira
O físico José Marcondes mede a radiação emitida por torre de Celular em Ceilândia, onde João da Silva vende frutas em verdurão improvisado
 
Muitas vezes, a imagem do televisor pode embaralhar quando alguém liga o liquidificador ou o secador de cabelo na casa. Dependendo da distância do computador, o telefone celular também pode interferir na imagem do monitor. Esses distúrbios têm explicação científica. São causados pelo excedente de ondas geradas pela corrente elétrica. É uma espécie de poluição imperceptível, que na rua existe em maior escala e pode ser detectada perto de redes de transmissão, fios de alta tensão, antenas de TV, rádio e telefonia celular.

  Entre os cientistas, o fenômeno da poluição eletromagnética é indiscutível. O que provoca controvérsia é a extensão dos danos que pode causar ao ser humano. O físico José Barbosa Marcondes, 75 anos, estuda as radiações eletromagnéticas desde 1951. Ele acredita que os campos magnéticos podem causar depressões psíquicas. ‘‘A exposição prolongada pode ter como conseqüências a diminuição dos glóbulos vermelhos e o aumento dos glóbulos brancos, favorecendo o surgimento de um câncer’’, diz

  Marcondes veio a Brasília na semana passada e mediu a radiação em alguns pontos da cidade, com ajuda de aparelhos como o voltímetro. Apontou como áreas com maiores índices de ondas eletromagnéticas a Praça dos Três Poderes, a Esplanada dos Ministérios, o Setor Hoteleiro Sul e o Norte, o Setor Policial Sul e os Setores de Rádio e TV Sul e Norte.

  ‘‘São regiões com muitas antenas de comunicação e construções em cima de lençóis freáticos. As pessoas instaladas acima do terceiro andar desses prédios devem se preocupar com sua saúde’’, diz o cientista. Segundo ele, se a nocividade de uma linha de transmissão elétrica afeta normalmente uma faixa de 100m a 200m ao seu redor, quando instalada sobre um lençol freático ela estende-se dez vezes mais.

  Professor do Departamento de Engenharia da Universidade de Brasília (UnB), Leonardo de Menezes concorda que as ondas eletromagnéticas podem ser nocivas, mas é menos alarmista. ‘‘Ninguém sabe com certeza que males esse tipo de radiação pode causar no ser humano. O certo é que as ondas eletromagnéticas podem danificar aparelhos eletrônicos’’, pondera.

  O Setor de Embaixadas, segundo ele, é o mais preocupante. ‘‘As embaixadas têm transmissores potentes, equipamentos de segurança e de comunicação de última geração.’’ Mas ele lembra que o governo brasileiro pouco pode fazer nesse caso: as embaixadas não têm que seguir a lei do Brasil.


FALTA LEGISLAÇÃO

  As empresas de telefonia de celular que operam no
DF alegam que seguem todas as normas estabelecidas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Por meio da portaria 1533/96, a Anatel determina que a instalação das antenas deve ser regida por legislação local. Caberia a uma lei distrital definir os parâmetros de afastamento de edificações e a altura máxima das torres. Mas o Distrito Federal ainda não tem uma lei específica para regular essa questão.


Campos magnéticos

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Riscos e mitos

  • A poluição eletromagnética é o excesso de ondas refletidas pelos aparelhos eletrônicos e elétricos, redes de luz, antenas parabólicas, torres de alta tensão e outros.

  • Quando lançadas no ar ou nas redes de luz, as ondas eletromagnéticas podem interferir em aparelhos que têm componentes eletrônicos e causar de uma simples dor de cabeça a doenças que podem levar à morte.

  • Os riscos de câncer são oferecidos por radiação do tipo ionizante, capaz de dissociar átomos. Os aparelhos de raios-X, por exemplo, possuem esse tipo de radiação. Também o microondas, mas ele é blindado para isolar a radiação.

  • A radiação emitida pelos aparelhos celulares e torres transmissoras é não ionizante. O que faz mal é a radiação ionizante. Não há estudo que comprove males causados por celulares e antenas de rádio base das empresas de telefonia celular.

  • Deve-se, no entanto, evitar o uso prolongado do celular, pois a bateria provoca aquecimento de vários graus numa região muito próxima ao cérebro.

  • Os aparelhos eletrônicos emitem radiações eletromagnéticas em freqüências baixas, entre 100 e 1.000 hertz. Um televisor, por exemplo, exige cuidados: não deve ser visto por uma criança a menos de um metro de distância.

  • Reclamação na Justiça

      As torres de antenas de telefonia celular ocupam áreas públicas de todo o DF. Nos últimos quatro anos, segundo a Administração Regional de Brasília, cerca de 50 torres foram implantadas no Plano Piloto. A tecnologia que chegou para facilitar a vida das pessoas, agora assusta. As empresas do setor enfrentaram ações judiciais dos moradores que se sentiam ameaçados pelas antenas perto de casa.

      Os fabricantes de celulares tentam derrubar esse mito. Apresentam estudos de pesquisadores independentes e entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), apontando que a exposição a campos magnéticos gerados por estações de celular não resulta em mal à saúde.

      Ao contrário de moradores de classe média do Plano Piloto que passaram noites em claro por causa das torres instaladas a menos de 100m de casa, desempregados e profissionais autônomos de cidades mais pobres do DF dormem sob as antenas, em troca de uma renda extra.

      É o caso de João da Silva, 78 anos. Ele passa o dia vendendo verduras e frutas no verdurão improvisado embaixo de uma torre de telefonia celular, num lote do conjunto A da QNN 19, em Ceilândia. ‘‘Eu nunca ouvi falar dessa radiação não’’, diz. A torre foi instalada com o consentimento do dono do terreno, o motorista de ônibus Humberto Rodrigues dos Santos, 35, genro de João. ‘‘O pessoal da empresa telefônica disse que isso não faz mal e eu topei’’, afirma Humberto.

      Não muito longe dali, Maria da Conceição Vale, 38, o marido e o filho adolescente convivem com o equipamento em frente ao barraco, há cinco anos. ‘‘Eu não sei se é por causa da torre. Mas desde que instalaram ela aqui meu marido começou a ter vômitos e fortes dores de cabeça sempre’’, conta. Ela e a família não ganham nada com a torre, pois o imóvel onde moram é alugado. Segundo Maria, a empresa de telefonia que instalou o aparelho nunca lhes deu qualquer orientação.



     
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