Brasília, quinta-feira, 29 de maio de 2003
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Correio 2003

  

Incansáveis realizadores

Premiados quase 20 vezes no ano passado pelo curta-metragem O Lobisomem e o Coronel, Ítalo Cajueiro, Krishnamurti Costa e Zeluca apresentam seus novos projetos

Ricardo Daehn
Da equipe do Correio

Sensazione, de Krishnamurti: três anos de trabalho para atingir clima hiper-realista
Fotos: Divulgação
A velhinha aterradora é um dos personagens da animaçãosensazione, em trama movida por relações de dominação
 
A jovem rebelde Corina, uma ameaçadora idosa e um sapo falante são personagens independentes que não interagem em outro enredo, a não ser no que dá seqüência à vitoriosa trajetória de três realizadores locais unidos pelo curta-metragem O lobisomem e o coronel. Ao lado de Elvis Kleber, Ítalo Cajueiro, Kri-shnamurti Costa e Zeluca responderam, no ano passado, pelo fenômeno que arrebatou quase 20 prêmios, entre os quais o do cortejado Anima Mundi — Festival Internacional de Animação do Brasil (maior do gênero na América Latina). Com projetos quase finalizados ou embrionários, o trio apresenta aos leitores do Correio suas novas incursões pelo universo dos desenhos.

  Uma ‘‘inusitada história de animação sem ação’’, como sugere o trocadilho com o título (Sensazione, em italiano, impressão) do novo curta de Krishnamurti Costa, 31 anos, promete servir para o reconhecimento internacional do padrão brasiliense de cinema. Não se trata de lábia, quando se comprova a dedicação dele ao objetivo: para os estimados cinco minutos e meio de fita, Krishnamurti já trabalha há dez meses, e prevê mais dois anos de envolvimento. Tudo para que o filme tenda ao hiper-realismo esperado.

  ‘‘Cada coisa é muito cuidada, para nada parecer muito plástico. Quero personagens caricatos num ambiente com texturas bem realistas. Tem que causar um certo incômodo, que vai estar de acordo com o enredo’’, adianta. Com imagens estáticas do filme já compartilhadas em sites especializados de computação gráfica, o diretor comemora a receptividade. ‘‘De agosto até hoje, os 18 fóruns (virtuais) internacionais que incorporaram as prévias da fita como destaque já tiveram mais de 60 mil acessos. Tenho recebido respostas muito positivas de profissionais do ramo’’, comemora.

  O mistério em torno do enredo original é uma das maiores preocupações do cineasta. Um encanador, uma velhinha aterradora e o filho dela — um quarentão assexuado, que vive para limpar a casa — são os personagens centrais de Sensazione, numa trama movida por relações de dominação.

  Abastecido com pesquisas que vão do comportamento individual do brilho em móveis e objetos ao nível de reflexo proporcionado por elemento, o cineasta parte de estruturas (virtuais) semelhantes a um cubo que, depois de esculpidas, adquirem texturas diversificadas. Seis mapas (estudos gráficos) justapostos formam a imagem final, constituída por amassados (rugas e saliências), especular (superfícies refletoras), cor, refração e translucidez.

  Há nove anos imerso no campo da computação, Krishnamurti tem ultrapassado limites para a recente empreitada. O custo zero, por enquanto, tem sido possível pela disposição em enfrentar três turnos de produção: é estudante de Artes Plásticas pela manhã, animador e ilustrador da produtora Mister Grafix à tarde e realizador independente entre noites e madrugadas. ‘‘Felizmente, eu e minha mulher temos vidas conturbadas e chegamos bem exaustos em casa’’, brinca o cineasta, que já levou até pito pelo excesso de jornada.
  
Simplicidade
Partindo de princípios completamente opostos aos de Krishnamurti, Zeluca e Ítalo Cajueiro têm se concentrando na simplicidade para o desenvolvimento de seus projetos: o livro Histórias do meio do mato e o curta-metragem A moça que dançou depois de morta. Ambos estão em fase bem adiantada.

  Morador de Brasília há mais de 25 anos, o desenhista mineiro Zeluca, 52, pretende prestar homenagem à cidade com o livro Histórias do meio do mato, que apresenta lendas indígenas sobre o surgimento de plantas. ‘‘Faço uma viagem forte pelo Brasil — de nariz na terra, mesmo. Tenho uma fissura muito grande pelo país. Quero desenhar coisas e histórias nossas e não super-heróis. Minha idéia é a de que o livro venha a ser distribuído para as escolas públicas’’, comenta.

  Surgida há mais de uma década, a proposta de livre adaptação para quadrinhos de histórias folclóricas recolhidas em publicações de Câmara Cascudo, Altimar de Alencar Pimentel, Sílvio Romero e Luiz Pereira partiu para agradar a pequena Maíra, filha de uma ex-vizinha da 714 Sul.

  ‘‘Agora, estou em processo de fechar o livro mesmo. Não tinha procurado nenhum tipo de produção, para não ficar preso a prazos e ter minha liberdade. Gosto do prazer de sentar pela manhã, acender um incenso, ouvir Ravi Shankar e trabalhar um bico-de-pena’’, conta.

  Com cerca de 60 páginas (média de 14 quadrinhos por folha), Zeluca está produzindo a última história. Um sapo falante conduz todo o enredo, sempre relatando cada uma das sete histórias, sobre plantas, ervas, frutos e arbustos que servem de alimento ou ornamento para os seres humanos. É onde aparecem as lendas sobre vitória-régia, milho, mandioca, guaraná, castanha, tinhorão e abacaxi. ‘‘Quase todas as lendas versam sobre mudanças. As situações de dificuldade aparecem e forçam a transformação dos personagens. É uma característica comuns às tramas’’, analisa o desenhista.

  Responsável pela concepção de objetos e cenários do curta O lobisomem e o coronel, Zeluca viu a produção ser remodelada pelo colega Krishnamurti. ‘‘Somos os extremos: ele, hiper-realista, e eu, minimalista’’, brinca o artista, que assume influências de Flávio Colin e do pintor alemão Johann Rugendas.

  Destinado ao público infanto-juvenil, Histórias do meio do mato deverá comportar ‘‘um traçado diferente dos atuais, baseado em quadrinhos antigos’’, como adianta Zeluca, ainda inseguro quanto à colorização da obra. ‘‘A cor parece que ilude um pouco. Ela enriquece o conjunto, mas o desenho é o bico-de-pena — a cor não é o desenho’’, enfatiza.



 



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