

educação
Um exército de analfabetos
Relatório do Inep traça perfil do analfabetismo no Brasil e alerta para baixo desempenho dos sistemas
escolares. Em apenas 19 cidades do país, a população tem escolaridade equivalente ao ensino fundamental
Dante Accioly
Da equipe do Correio
Um batalhão de 16 milhões de analfabetos perambula pelo Brasil. Estudo divulgado ontem pelo Ministério da Educação mostra que o exército de desletrados corresponde a 13,6% da população nacional e se concentra em grandes cidades do país. O analfabetismo não faz distinção de sexo, região ou faixa etária. Mas é implacável em camadas sociais mais pobres.
O Mapa do Analfabetismo no Brasil foi elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). Segundo o estudo, a cidade de São Paulo apresenta o maior número de pessoas que não sabem ler nem escrever — são 383 mil. Em seguida vem o Rio de Janeiro, com 199 mil. A pesquisa — amparada em dados de 2000 — mostra que entre os 100 municípios com maior número de analfabetos há 24 capitais (veja quadro abaixo).
O município de Jordão (AC) é o que tem a maior taxa da analfabetismo do país: 60,7% da população com 15 anos ou mais não sabe ler nem escrever. A cidade com a menor taxa é São João d’Oeste (SC). Apenas 0,9% da população de jovens e adultos permanece analfabeta.
O estudo mostra que — apesar do número alto de desletrados — o Brasil conseguiu ampliar o número de alunos na escola. A taxa de analfabetismo caiu de 19,7% em 1991 para 13,6% em 2000 e 12,4% em 2001. A ampliação do atendimento escolar desacelerou o analfabetismo entre os mais jovens, mas não foi capaz de garantir ensino fundamental completo.
O ministro da Educação, Cristovam Buarque, anunciou ontem que pretende lançar um pacote de medidas denominado Toda Criança Aprendendo. Uma das iniciativas é criar estímulos financeiros para professores das três primeiras séries do ensino fundamental em troca de dedicação exclusiva.
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Há 83 mil só no DF
A situação do Distrito Federal chama a atenção dos pesquisadores do Inep. Segundo o Mapa do Analfabetismo no Brasil, a unidade da federação ‘‘que detém a melhor condição educacional do país’’ concentra 83 mil analfabetos. Como — ao contrário dos estados — não é dividido em prefeituras, o Distrito Federal ocupa o oitavo lugar entre os municípios com o maior número de analfabetos.
O estudo do Inep revela que 35% dos analfabetos do Brasil já freqüentaram a escola. Eles abandonaram os livros por causa da baixa qualidade do ensino ou pela necessidade de trabalhar. É o chamado analfabetismo funcional — em que o estudante passa menos de quatro anos diante do quadro negro e não aprende a ler.
O Mapa do Analfabetismo no Brasil estima em 30 milhões o número de pessoas nessa situação. É o caso da dona de casa Eunides Caetano da Silva, de 21 anos. Ela nasceu em Cristalina (GO) e mora há seis anos na favela do Iapi, em Brasília. Estudou até a 5ªsérie, mas não consegue ler e escrever como gostaria. ‘‘Fico tentando, tentando. Mas a cabeça cansa. Aí prefiro deixar o livro de lado.’’
Segundo levantamento do Ministério da Educação, 59% dos alunos da 4ª série matriculados em escolas públicas não compreendem o que lêem. O melhor antídoto para o problema é escola para todos na idade certa. ‘‘Contudo, se ela não for de qualidade, continuaremos produzindo o analfabeto funcional, que, apesar de ficar até oito anos estudando, não consegue avançar além das séries iniciais’’, diz o estudo do Inep.
Renda baixa
A pesquisa mostra que as taxas de analfabetismo no país estão diretamente relacionadas à situação financeira. Famílias com renda superior a dez salários mínimos têm índice de 1,4%. Nas com renda inferior a um salário mínimo, o índice atinge 29%.
No meio rural brasileiro, a taxa de analfabetismo é três vezes superior à da população urbana — com índices de 28,7% e 9,5%, respectivamente. No Nordeste, o índice é de 40,7%, alcançando 49,2% no Piauí. A melhor situação está na região Sul, com 11,9% de analfabetos na área rural.
O analfabetismo atinge pessoas de todas as faixas etárias. Entre a população de 10 a 19 anos, a taxa é de 7,4% de analfabetos. A maior concentração de pessoas que não sabem ler nem escrever está na população de 60 anos ou mais, com 34%.
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educação
Barreira para crescer
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
Um drama brasileiro
Dificilmente o Brasil conseguirá entrar no clube dos países desenvolvidos enquanto tiver um número expressivo de pessoas que não sabem ler e escrever. A observação é de John Daniel, diretor-geral-adjunto do Setor de Educação da Unesco, instituição das Nações Unidas. ‘‘Há histórias de pessoas que se envenenam ao usar fertilizantes na zona rural porque não conseguem ler rótulos’’, conta o pesquisador.
Segundo ele, o Brasil não acaba com o analfabetismo porque não quer. ‘‘Se as pessoas quiserem que a erradicação do analfabetismo seja uma prioridade, elas têm que deixar isso claro para o governo.’’ Daniel é especialista em educação à distância e esteve no Brasil para participar do 3º Fórum Brasil de Educação da Unesco, ocorrido em Brasília.
Para erradicar o analfabetismo no Brasil, Daniel sugere que o governo desenvolva programas para garantir que todas as crianças que entrem na escola cheguem a etapa final de ensino. ‘‘É preciso desenvolver programas que beneficiem adultos e crianças’’, ressalta. Ele diz ainda que, ao contrário do que muita gente pensa, não é complicado alfabetizar uma população. Na Índia, por exemplo, três milhões de pessoas foram alfabetizadas em apenas um ano. ‘‘Isso não é um processo de cinco anos. Em três meses uma pessoa pode ser tornar uma alfabetizada funcional.’’ Com isso, se criam as condições básicas para quem não sabe ler e escrever prosseguir os estudos.
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