

Violência
Passos firmes pela paz
Protesto contra armas reúne 750 pares de sapatos de vítimas
Juliana Cézar Nunes
Da equipe do Correio
| Carlos Vieira |
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Marta de Souza: homenagem à filha de 15 anos assassinada
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Os donos se foram. Deixaram chinelos de dedo, botas de couro, tênis, sandálias de plástico, sapatilhas e pantufas. Alguns pares, assim como boa parte das roupas, acabaram doados. Outros foram guardados como lembrança daquele filho querido, pai amado, mãe dedicada, vítima de um tiro.
No gramado em frente ao Congresso Nacional, familiares de 150 brasilienses mortos pela violência chamaram a atenção para o uso descontrolado de armas. Organizado pelo Instituto Sou da Paz e pelo Comitê Nacional de Vítimas da Violência (Convive), o protesto tinha o objetivo de pressionar o Senado Federal a aprovar uma lei proibindo o porte de armas para civis.
Pais e mães levaram o sapato que o filho mais gostava ou até mesmo calçava na hora da morte. Os 150 pares do DF se juntaram a outros 600 enviados por famílias de São Paulo. Todos tinham uma fita de identificação da vítima — com nome completo, local e data do crime.
Pensativo, o aposentado José de Oliveira, 65 anos, caminhou calmamente em direção ao centro do gramado. Tirou da sacola de plástico transparente dois pares de tênis brancos que pertenciam a seus filhos de 13 e 20 anos, mortos há três anos no P-Sul.
‘‘Eu estava enterrando um deles quando soube que o outro também tinha sido assassinado, bem na porta de casa’’, lembra, com lágrimas nos olhos, o pai de Carlos e Marcelo. O caçula dos Oliveira morreu com 13 tiros pelo corpo. O mais velho foi assassinado com oito tiros nas costas. Preso, o criminoso disse que matou os irmãos por engano. Desde então, a família vive sob ameaças e foi obrigada a mudar de endereço. Levou a dor como companhia. ‘‘É muito difícil continuar vivendo depois de tudo isso’’, desabafa José.
Marta Rosângela de Souza, moradora de Sobradinho, também foi à Esplanada. Levou uma sandália de salto rosa e fivela prata para a manifestação. Colocou o par em cima da caixa de sapato, cuidadosamente revestida pelo cartaz de divulgação do ato público. Ao lado da sandália, uma foto de Aglaé de Souza, 15 anos. Filha de Marta, a adolescente foi assassinada há três anos em Sobradinho. Ela estava no estacionamento de uma boate, na companhia da prima, à espera do pai. Foi abordada por um assassino. ‘‘O monstro estuprou milha filha, depois a colocou de joelhos, disse que era a hora de morrer e deu um tiro na cabeça dela’’, conta.
Atualmente, tramitam 116 projetos de lei no Congresso relacionados com a venda e porte de arma para civis. Um dos mais conhecidos é o PL 292, que prevê a restrição do porte de arma para civis. A proposta está na Subcomissão de Segurança Pública e aguarda a votação do parecer do senador César Borges (PFL-BA).
No Distrito Federal, 320 mil armas circulam sem qualquer controle. Este ano, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) apresentou um projeto restringindo a venda e o porte de armas. Ele está na Comissão de Relações Exteriores e Interesse Nacional..
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