A Brasília de Athos
Pesquisadoras brasilienses preparam guia das obras do artista Athos Bulcão na capital. Maior surpresa são os trabalhos pouco conhecidos e dispostos em espaços públicos e particulares da cidade
Nahima Maciel
Da equipe do Correio
| Carlos Moura |
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Lana e Tatiana no Instituto de Artes da UnB
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Fotos: Lara Guimarães/Divulgação |
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Ministério das Relações Exteriores
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Jardim do Ministério das Relações Exteriores
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Que Brasília é um museu a céu aberto, Tatiana Petra e Lana Guimarães não pretendem ensinar. Elas confiam nas linhas modernas da capital. São explícitas, acreditam. O que as duas pesquisadoras querem é mostrar que há algo além do explícito capaz de enriquecer o acervo ao ar livre. Há um ano, Lana e Tatiana começaram a mapear as obras do artista plástico Athos Bulcão espalhadas pelos espaços públicos e privados de Brasília. Além das tradicionais e conhecidas paredes de azulejos e painéis, elas queriam garimpar trabalhos pouco conhecidos que costumam passar despercebidos.
A idéia virou o projeto Brasiliathos — Um roteiro cultural pelas ruas de Brasília e tomou forma de guia. Com apoio institucional da Unesco, Fundação Athos Bulcão, Secretaria de Turismo e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), as pesquisadoras vão montar um guia das obras de Athos Bulcão em Brasília. Aprovado para captação de recursos no Ministério da Cultura pela Lei Rouanet, o projeto tem apresentação do próprio artista, que completa 85 anos no próximo mês, e foi dividido em três circuitos.
O Monumental vai apresentar as obras de Athos espalhadas pelos prédios do Eixo Monumental, o setor administrativo da cidade. O Vivencial tem como tema a maneira de viver e morar do brasiliense e está concentrado nas asas Sul e Norte, enquanto o Comercial reunirá os setores Comercial e Hospitalar Sul, regiões por onde circula grande fluxo de pessoas durante o dia. ‘‘Esses três circuitos foram divididos com base na escala urbanística de Lucio Costa’’, explica Lana, lembrando que a divisão em setores é parte fundamental do projeto do urbanista.
Ao montar o Brasiliathos, Lana e Tatiana não pensaram apenas nos turistas. Elas querem que os próprios moradores de Brasília se interessem pela presença da arte pública de Athos na cidade. Para isso, montaram também um projeto de educação patrimonial. Formadas em Turismo e com pós-graduação na área, as pesquisadoras planejam sensibilizar a população para os riscos de depredação do patrimônio e para a importância da qualidade de vida gerada pela integração arte-arquitetura. ‘‘Não queremos só divulgar as obras, mas contextualizá-las no processo cultural e de identidade da cidade’’, adianta Tatiana.
‘‘Uma das grandes propostas do projeto é o resgate da cultura patrimonial em Brasília. Temos um museu riquíssimo a céu aberto, mas, enquanto o morador não reconhecer isso, a gente terá dificuldade em valorizar’’, repara Lana. Tal dificuldade ficou clara quando a dupla começou a esbarrar em obras de difícil catalogação. Guiadas por suposições e pelo conhecimento de Brasília — as duas nasceram e cresceram na cidade —, elas saíram em busca de obras que acreditavam ser de autoria de Athos, mas não tinham certeza.
Como o artista não assina suas obras públicas, o jeito foi fotografar e mostrar as imagens ao suposto autor. Assim, as pesquisadoras confirmaram ser de Athos os azulejos das portarias de dois blocos da 107 Norte, de uma parede de posto de gasolina na 503 Norte e de uma sala no anexo do Ministério das Relações Exteriores.
Há, no entanto, trabalhos de difícil acesso, como os painéis criados para residências particulares cujo registro é eventualmente impedido por moradores. ‘‘Queremos que essas obras se tornem acessíveis através do guia’’, diz Tatiana, que há meses luta para obter autorização para fotografar o interior de um apartamento em prédio na 203 Sul (contatos podem ser feitos pelo e-mail projeto.brasiliathos@bol.com.br).
Obras mais conhecidas também vão ganhar destaque. Os azulejos que recobrem as paredes da Igreja Nossa Senhora de Fátima (308 Sul) e dos banheiros do Parque da Cidade, a lateral do Teatro Nacional Claudio Santoro e as várias portarias de prédios residenciais se tornaram referências da produção de Athos Bulcão e têm seus lugares no projeto.
Brasiliathos já tem uma listagem de 109 obras divididas por 48 espaços públicos e privados. A idéia é que o roteiro ocupe 120 páginas, nas quais o visitante poderá descobrir um pouco da história da cidade e das obras apresentadas. ‘‘Sempre vemos o Athos monumental, aparente, aquele que não precisa descer do carro para ver. No guia, a idéia é fazer algo dinâmico e interativo criando contextos históricos da vida do Athos, fatos, afetos e emoções ligadas ao envolvimento dele com a cidade’’, conta Renata Azambuja, crítica de arte e professora da Universidade de Brasília que auxilia Lana e Tatiana na elaboração do projeto.
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