

Entrevistas
Raúl Zurita / Horacio Costa
Nahima Maciel
Da equipe do Correio
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Vanguarda milenar
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Raúl Zurita é o último dos latinos de língua hispânica a ocupar lugar à mesa de debates de Vanguardas literárias da América Latina. Ele divide as atenções do público no último dia do encontro, ao lado do tradutor e poeta brasileiro Horacio Costa. Zurita nasceu em Santiago do Chile e chegou a estudar engenharia civil, mas se deixou seduzir pela atividade poética no começo da década de 1970. Autor de nove livros — todos inéditos no Brasil — ele ficou conhecido no Chile pelas posições polêmicas e ações de protesto contra a ordem vigente no país então governado pelo general Augusto Pinochet.
Zurita já queimou o rosto com ácido, se masturbou em público e insinuou cegar-se em ações que, insiste em esclarecer, estão bem distantes do universo performático. O poeta deve ser livre para se expressar e o suporte não pode ser outro que aquele que desperta necessidade imediata. ‘‘A performance não me agrada, não me interessa. Somente me interessa o suporte para expressar e isso pode ser em livro, pode ser o corpo... A performance está muito mais ligada ao espetáculo’’, explica.
Aos 52 anos, o poeta também não entende vanguarda como um movimento literário preciso no tempo e na história. ‘‘Todo grande artista, todo grande poeta é vanguardista. Ele mostra ao mundo um olhar que o mundo não conhecia. É como olhar de uma maneira nova, como não se via antes’’, sugere. Não surpreende portanto que Zurita admire e classifique como vanguardas obras milenares como o indiano Mahabarata e o grego A Ilíada. ‘‘Para mim a grande vanguarda tem mais de mil anos’’, diverte-se.
A recuperação de linguagens míticas — leia-se aí desde expressões tribais até estruturas mais universais como o salmo, a elegia e o versículo — fazem parte do projeto poético do chileno, que tem a trilogia Purgatório (1979), Anteparaíso (1982) e La vida nueva (1994), esta sobre o céu de Nova York, entre suas mais importantes publicações. Para o Pensar, Zurita enviou um poema inédito, que publicamos na contracapa do suplemento. A seguir, trechos da entrevista concedida por e-mail e telefone, de Santiago, a capital chilena.
CORREIO BRAZILIENSE — O que significa falar em vanguardas literárias hoje?
RAÚL ZURITA — Creio que está na música, no cinema. Não, em geral, na poesia.
CORREIO — Que tipo de influência o senhor acredita que as vanguardas literárias têm na produção contemporânea?
ZURITA — As vanguardas significaram finalmente a constatação de um fim. O paradoxal é que essa liberdade se voltou para si mesma mostrando-nos o vazio. A revolução das linguagens literárias forjou um novo olhar e o que se descobriu foi a agonia da linguagem. Vivemos em uma época em que a linguagem, tal qual emerge do primeiro verso da história do ocidente — ‘‘Canta oh deusa, a fúria de Aquiles filho de Peleu’’ — e o enredamento da poesia sobre seus próprios signos, foi isso que significaram as últimas vanguardas, é o modo como as palavras morrem. Homero inaugura o nome das coisas, as palavras nomeiam o que está fora. Quando se voltam sobre elas mesmas é porque elas e as coisas não se abraçam. As palavras já não podem nomear o mar nem tampouco podemos saber qual será o novo princípio. Eu queria este: Canta, oh deusa, o amor inifinito de Aquiles...
CORREIO — Quais são as características diretamente herdadas dos movimentos de vanguarda na poesia e na prosa contemporâneas?
ZURITA — É a constatação da agonia da linguagem, é o mesmo. Isso minava toda a produção literária. As obras-primas hoje residem nos sonhos de homens solitários. Esses sonhos são a obra de arte mais triste do mundo e ao mesmo tempo a única imagem a partir da qual se pode levantar uma nova beleza.
CORREIO — As influências das vanguardas literárias tiveram intensidade diferente no Brasil e no resto da América Latina? Por quê?
ZURITA — É difícil entender por vanguarda artística algo que não tenha sido extremo. Nós, hispano-falantes deste continente, falamos uma língua que guarda em cada partícula, em cada letra, a memória da violência que significou sua imposição. Essa violência permanente de cada palavra contra a seguitne, como em Trilce, de César Vallejo, ou sua celebração anunciando o sonho de um futuro possível como em Alturas de Macchu Picchu, de Neruda, marcaram um sentido da escrita que vejo como análogo à intenção de retomar o permanente da escrita: seu signo material. A tensão agonizante que cruza os concretistas é semelhante à quebra da linguagem que se experimenta de modo radical na poesia latino-americana. (Vicente) Huidobro pulverizou o idioma, o demoliu, como se tivesse rancor. Sente-se às vezes que a vanguarda brasileira quis reconstruir a partir do que Huidobro havia rompido. É o canto VII, o final, de Altazor. Somente restam alguns ruídos, algumas sílabas e letras dispersas, logo o nada. É o final de Altazor. Desse nada surgiu a vanguarda brasileira.
CORREIO — O senhor utiliza o corpo como espaço de expressão poética. Como isso acontece?
ZURITA — Em maio de 1975, em um ato de absoluto desepero, queimei minha cara, minha maçã do rosto, com um ferro em brasa durante o banho. Estava só. Soube depois que essa era minha primeira palavra. Alí começou algo que terminou 20 anos mais tarde escrevendo uma frase sobre o deserto do Atacama. A cicatriz da maçã do rosto que abre o primeiro livro, Purgatório, seria depois as 15 frases traçadas em 1982 sobre o céu de Nova York com aviões e vapor branco, fotografadas no livro Anteparaíso. Quis cegar-me porque sabia que o seu traçado seria infinitamente mais belo dentro de mim. Não pude. Dez anos mais tarde tracei sobre o deserto de Atacama a frase ‘‘nem pena nem medo’’, que tem cinco quilômetros. Uma extensão que somente pode ser vista de certa altura. Essa frase encerra o último livro, A vida nova. A superfície perfurada no deserto, a linha das letras, eram semelhantes, absolutamente semelhantes, à marca de minha cara. Um amigo me chamou a atenção para isso. Foi forte. Ambas, a cicatriz e as escrituras no deserto foram sendo borradas. Sobre o deserto há uma palavra que não borrou e, ao que parece, isso não acontecerá: é a palavra ‘‘medo’’.
CORREIO — Qual o seu projeto poético?
ZURITA — Estou escrevendo um livro. O projeto são 22 frases de um poema traçadas em grandes quadros sobre os escarpados da costa do norte do Chile. Só poderão ser vistos do mar. Os escarpados têm cerca de 400 metros de altura e os blocos retangulares têm frases de 200 metros. É belo e vasto. É como uma entrada. Quem sabe para o Inferno. Não. Na realidade é como descobrir a vida em um ser humano. É o poema que envio para vocês.
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Questão ideológica
| Regina Stella/Divulgação |
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O poeta, tradutor e ensaísta brasileiro Horacio Costa divide a mesa com o chileno Raúl Zurita. Ele tem títulos publicados no México e é responsável pela tradução da obra de Octavio Paz para o português. Concedeu a seguinte entrevista ao Pensar por e-mail:
CORREIO BRAZILIENSE — Quem são os herdeiros dos movimentos de vanguarda e como a produção de tais autores ainda se encontra impregnada dessa tradição?
HORACIO COSTA — Falar de vanguardas hoje é falar tanto da memória delas assim como da vanguarda como dialogante de uma produção artística qualquer (intertextualmente ou não, isto é, já seja diretamente sinalizada pelo texto ou obra em questão, já seja pela abertura consciente dos conteúdos que se veiculam nela aos pressupostos históricos dela). Ainda assim, vale frisar que a vanguarda é apenas um dos pontos privilegiados deste diálogo obra atual/memória passada (intertexto ou sinalização precisa) e memória presente (incorporação ideológica precisa), uma vez que o momento cultural que se vive se caracteriza por contar com uma pluralidade de posições e referências, neste vetor dialógico passado/presente. Falar da afirmação desse diálogo preciso no contexto da cultura brasileira contemporânea significa afirmar uma tradição brasileira de vanguarda, um dos componentes mais importantes que temos à mão em nosso acervo cultural, parece-me. Há autores contemporâneos que procuram esta afirmação de uma maneira ideológica, diríamos, como é o meu caso particular. De uma maneira mais geral, todos aqueles que se interessam pelo experimentalismo, formal ou não, no discurso artístico estão diretamente vinculados a esta tradição. No meu caso específico, jogo com a pluralidade de registros discursivos e de referências e procuro inovações formais em pelo menos parte de minha obra como poeta, preservando também outros registros e um certo trilhar formal não vinculados, pelo menos de maneira óbvia, às vanguardas históricas, em outra parte também importante de minha obra. Se falo do meu caso particular, é porque nele posso discernir melhor o imprint da vanguarda do que falando em geral. Mas vejo muita gente na poesia contemporânea em posição mais ou menos semelhante: Josely Viana Baptista, Régis Bonvicino, o finado Waly Salomão, e tantos outros.
CORREIO — E a penetração das vanguardas na produção contemporânea, como ocorre?
COSTA — Como disse antes, a vanguarda oferece um diálogo presente e não uma influência residual, como pode suceder a nível internacional, em certos cenários. A ‘‘influência’’, neste caso, seria a importância que esse diálogo assume na obra de cada um dos dialogantes atuais, de forma assumida (melhor) ou de forma implícita. As vanguardas históricas têm tudo que ver com boa parte das artes plásticas brasileiras atuais; por exemplo, e talvez de uma maneira ainda mais clara do que no que tange à obra de pelo menos parte dos poetas.
CORREIO — É possível mapear características diretamente herdadas dos movimentos de vanguarda na poesia e na prosa atuais?
COSTA — Já falei do pendor experimentalista, em termos formais ou não. Há-de mencionar-se um vetor cosmopolitizante, não nacionalista. A vanguarda é fundamentalmente um olhar sobre a realidade (aquilo que há), que se dissemina no olhar sobre tudo o que pode haver, todas as realidades possíveis, no infinito do real. No meu caso, coabito com esse(s) olhar(es) constantemente: como disse, jogo com registros e privilegio intertextos da vanguarda; provavelmente tais aspectos oriundos da vanguarda não sejam os mais importantes para outros dialogantes com ela. Havia que perguntar.
CORREIO — Poderia comentar as diferenças entre as vanguardas literárias no Brasil e no resto da América Latina?
COSTA — Já escrevi várias vezes sobre o tema. No Brasil, a sociedade cosmopolita, filha do século 20, teve um epicentro nítido: São Paulo. Um pólo como São Paulo faltou a países como Peru ou Colômbia, tão marcados pela herança indígena e pelo ponto de vista criollo; o México viveu uma revolução e o pensamento de vanguarda foi, digamos assim, relativizado pelas injunções políticas, e mesmo estratégicas, de uma guerra fratricida. O assim chamado ‘‘cone sul’’ teria possibilitado o surgimento de um pensamento, de uma tradição de vanguarda como aqui no Brasil. Por razões que não acabo de compreender, esse vetor naquelas sociedades, mais imobilistas que a nossa durante o século passado, foram por assim dizer abortado. Mas a vanguarda brasileira vai muito além de São Paulo, e também, num olhar sincrônico, já estivesse presente em cidadãos em muitas partes muito antes. As posturas tão diferentes de um Euclides (da Cunha) que descreve o horror produzido pelo ‘‘civilizado’’ na épica ‘‘bárbara’’ de Canudos é de vanguarda, visto hoje; o Gilberto Freyre que fala de sexo inter-raças na sua obra maior, sem medo ‘‘civilizado’’ do intercâmbio de fluidos corporais na obra acadêmica de então, também. Mas voltemos ao principal: O fato é que a vanguarda, desde o Modernismo até hoje, é indissociável da cara do brasileiro. Está na propaganda assim como na música, na política e na poesia, ao menos de forma residual. Como um diálogo constante. O triunfo do Modernismo com os seus sucedâneos no Brasil é um capítulo alto na história dos movimentos internacionais de vanguarda.
CORREIO — Como o senhor avalia o intercâmbio hoje entre a literatura e autores brasileiros e latino-americanos?
COSTA — É cada vez maior, cada vez mais importante para nós e para eles. Para nós, porque se há cem anos olhávamos para a Europa e nos preocupávamos em desenvolver uma ‘‘língua brasileira’’, hoje olhamos para os nossos vizinhos e estamos preocupados em estabelecer uma ‘‘linguagem continental’’; para eles, porque nós em muitos sentidos oferecemos um modelo bem sucedido de superação de alguns impasses existentes na cultura deles. Somos cada vez mais respeitados pelos que falam espanhol e que, ao contrário do que se imagina aqui, nos lêem atentamente, tanto em espanhol e em tradução como — oh surpresa! — também em português.
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