

RECONSTRUÇÃO
Energia poderosa
Herbert Vianna aproveita vinda à capital para fazer novos exames no Sarah. Médicos comemoram progressos. Trabalho, filhos, amigos e espiritualidade dão força ao cantor, que diz ver muitas mudanças em Brasília
Juliana Cézar Nunes
Da equipe do correio
O violão com jeito de guitarra não sai do colo. Foi com ele e outros exemplares da mesma família que Herbert Vianna levou ao delírio 40 mil pessoas na noite de domingo no Porão do Rock. Dez horas depois do palco, o vocalista do Paralamas do Sucesso saiu do hotel para uma bateria de exames médicos que durou até às 19h de ontem. No Hospital Sarah Kubitschek, ele deixa de ser estrela para ser paciente dedicado, capaz de passar duas horas sem mexer a cabeça na máquina de ressonância magnética. Quando os testes não envolvem parafernálias, o violão com jeito de guitarra volta para o colo e lá fica.
O tratamento no Sarah tem como base a própria música. Foi com ela que a neuropsicóloga Lúcia Willadino Braga ajudou Herbert a recuperar a memória e a fala. Os dois sentidos foram afetados pelo acidente de ultraleve em 2001, que provocou a morte da mulher de Herbert, Lucy Needham. Os exames mostravam que o cantor, ainda em coma, sofrera lesões na medula e no cérebro. A família enviou e-mails para hospitais de todo o mundo em busca da melhor assistência. Foi aconselhada pelos especialistas estrangeiros a procurar o Sarah.
Entre um show e outro, Herbert é atendido pela equipe do hospital. Como ontem, passa por médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, radiologistas e neuropsicólogos. Seja no Sarah Brasília ou Rio de Janeiro. Tudo é avaliado. Da memória ao funcionamento do aparelho digestivo. O exame preferido do cantor é na piscina, onde ele tenta superar o principal limite imposto ao seu corpo.
Os médicos não sabem prever se um dia Herbert voltará a andar. Ontem, ele não entrou na água. As horas na máquina de ressonância magnética, o cateterismo e as radiografias tomaram todo o tempo. O músico elogiou o atendimento e disse que pretende ajudar pessoas em reabilitação. Na noite de ontem, no hotel, ele posou com a camiseta de uma campanha do Ministério da Saúde e da Gerência de DST/Aids do DF para incentivar a realização do teste de HIV.
Pouco antes de sair do hospital, conversou com jornalistas na ante-sala do Laboratório de Neuropsicologia número 1 do Sarah. Contou que já se aventura a rabiscar algumas idéias sobre a música que deseja compor para Lucy. ‘‘Tirei o nosso relacionamento da categoria das pequenas tragédias, das coisas que não deram certo.’’ A música que Herbert mais tem prazer em tocar atualmente é Sábado. Ele enche os pulmões e cantarola o refrão: ‘‘Eu só queria te dizer que aquela dor já passou...’’.
Quero te ver de perto, dizer que nosso amor deu certo  |
Principal frase da música que Herbert Vianna está compondo para a mulher, Lucy Needham, morta num acidente
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Sem barreiras
| Acácio Pinheiro |
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Porão do Rock
‘‘Achei o astral poderoso, grandes meios juntos, com interesse pulsante da juventude, participação de bandas menos experientes. É um evento que a gente sonhava ver aqui na nossa época. Uma mágica muito intensa. Vinham coisas na minha cabeça que, uau, quando eu imaginei que ia ter o que falar para tanta gente.’’
Brasília
‘‘A cidade tem algumas diferenças físicas. Na minha época, as árvores eram mudas com um cercado de madeira em volta que ninguém deixava a gente mexer. Era uma cidade totalmente calcada no poder. O principal era: ‘quem está aqui a serviço de quem’. Hoje, eventualmente, isso ainda acontece. Mas Brasília mudou muito. Quando eu chego aqui entro numa viagem muito intensa. Vejo gente nascida aqui, que cresceu e sonhou através dessa janela, nessa sensibilidade. Mas com alguns parâmetros que eram da nossa geração, de apertar o f... e ... vamos embora ... sem nenhum interesse nessa vida de funcionalismo. Quando venho aqui, gosto muito de ver os lugares que foram importantes na minha existência anterior, infância e adolescência, como o zoológico. Lugares onde joguei bola, onde troquei com os amigos conhecimentos sobre as guitarras elétricas.’’
Parceiros
‘‘Conheci o Bi (Ribeiro), que é meu irmão espiritual, aqui, em Brasília. Meu pai foi transferido para o Rio, fui arrastado para lá e levei ele também. A gente achava que, para se divertir, era mais útil usar o tempo tocando música. Foi nessa época que conhecemos um cara muito divertido. Ele era o que melhor batucava da turma. Era uma amigão que a gente não convenceu que batucava bem. Era o Vital (que inspirou a música Vital e sua moto). Cara muito peculiar e criativo. Contagiava a gente e viva fazendo brincadeira. Ele falava que essa lei (a Constituição) era tão restritiva. Daí saiu a idéia de colocar ele em outra música (Dos Margaritas) que fala ‘‘se Vital escrevesse a Constituição’’. O Bi, meu irmão do coração, a quem eu ensinei o bê-a-bá do baixo, acabou conhecendo o João (Barone) quando entrou no curso de Biologia. O João é sobrenatural. Quando conheci, perguntei: cadê o DNA desse cara?’’
Filhos
‘‘Às vezes me pergunto por que Deus está pisando tão forte em mim. Nessas horas, é importante buscar a espiritualidade, a linha do meio. O sentimento intenso espiritualista me faz levantar (breve silêncio), não, me arrastar da cama com alegria e felicidade de ter trazido três preciosidades (os filhos) que me fazem buscar conhecimento e abertura. Meus filhos são uma riqueza sem tamanho. Olho pra eles e lembro de coisas que vivi. É como se eu tivesse tomado uma droga sofisticada (risos). Estou ficando cada vez mais consciente. Vejo todos os meus passos anteriores com uma visão mais consciente em termos emocionais.’’
Lucy
‘‘Tento falar com a Lucy, minha esposa, de forma construtiva. Peço ajuda para ela. Principalmente para que eu possa me conectar melhor com o dia-a-dia das crianças, para encontrar inspiração para continuar trabalhando, compondo. Antes dizia, ‘pelo amor de Deus, minha princesa, preciso de ajuda para cuidar dos nossos filhos’. Mudei essa atitude. Converso diferente agora. Sei que ela evoluiu, passou para um nível mais alto, onde não tem essas pequenezas daqui, ciúme e exclusividade. Também falo com ela coisas que minha mãe, toda católica, não acreditaria (risos). É uma maneira de pedir ajuda para que eu reencontre a alegria e faça tudo para os nossos preciosos filhinhos. Se não fui para o outro lado, é porque tinha alguma coisa pra fazer aqui.’’
Família de Lucy
‘‘Este mês, meus sogros levaram meus filhos para a Inglaterra. Pela primeira vez, eles (os sogros) foram ao Canecão e viram a intensidade venenosa do nosso show. A Lucy tinha quatro irmãos. Misturamos várias peculiaridades do jeito brasileiro e paraibano de ser com o jeito inglês. Disse a eles (a família de Lucy) que não somos brothers in law (cunhados; irmãos pela lei), somos in love (no amor). Mas eles não gostam. Falam que vão achar que a gente é veado (risos). Abraço, grito e beijo, dou uma injeção latina e digo que então vamos ser loving brothers (irmãos carinhosos). Aí começou uma coisa superinteressante e abrimos até garrafas de champanhe. É uma união que rompe tantas barreiras...’’
Espiritualidade
‘‘Acredito nas energias espirituais há tempos. Tenho convicções espiritualistas há mais de 20 anos. Mas sem nenhuma dose de fanatismo. Isso me abriu uma janela rica, tenho contatos com o que as pessoas escreveram, entendo melhor o progresso da humanidade. Somos espíritos que estamos aqui, mas estamos em progresso. Quando a gente fala que teve um feeling ou eu tava sentindo que ia acontecer, é toda essa carga extra-sensorial. Estou desenvolvendo uma conexão espiritualista. Já li muito sobre o assunto. Não penso na minha recuperação como um milagre. Mas vejo como algo mágico. É o poder da energia espiritual. Tão mágico como ver no Fantástico aqueles gols incríveis da rodada. É algo mágico que acontece em lugares diferentes a todo instante.’’
Tratamento no Sarah
‘‘Rezo para agradecer. Sonho com a reconstrução da minha capacidade. Aqui (no Sarah), tem uma energia tão positiva em relação às pessoas. Gente que está interessada em te reconectar à vida. Fico imaginando que se uma pessoa que quebra a coluna no interior de não sei onde do Brasil, se ela tivesse um atendimento com força e energia, veria o acidente de outro ponto de vista. Eu mesmo, que sempre me considerei uma pessoa de classe média alta, só que com uma visão mais aberta e privilegiada por andar pelo país, nunca tinha visto uma assistência tão primorosa e emocional. As pessoas do lado de fora não fazem idéia da capacidade que elas têm de reintegração médica e social. Aqui (no Sarah), eles dão o remédio com uma colher tão especial, sensível, do bem mesmo, que funciona no corpo. Isso nos faz ter outra atitude sobre o futuro. Nos prepara para quando chegarmos aos 80 anos. Ainda não estou 100% reconectado com a minha alma e com o meu corpo. Mas está tudo bom demais: convites para show, CD novo (ainda sem data para ser lançado). Tenho o desejo de mergulhar de cabeça no trabalho. Tenho uma energia de reconstrução no peito.’’
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