Brasília, quinta-feira, 28 de agosto de 2003
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Correio 2003

  

Tragédia em Alcântara
Governo promete VLS até 2006

Ministros da Defesa e da Ciência em Tecnologia anunciam que o governo assumiu o compromisso de colocar em órbita um satélite lançado da base maranhense com tecnologia nacional. Mas falta definir o investimento

Erika Klingl
Da Equipe do Correio

Ricardo Stuckert/ABr
Lula fez questão de cumprimentar os parentes de cada um dos mortos, durante velório em São José dos Campos. Emocionado, chorou e prometeu ajuda às famílias das vítimas
 
  O Brasil vai tentar pela quarta vez colocar em órbita um satélite lançado por um veículo construído com tecnologia nacional a partir da Base de Alcântara, no Maranhão. O prazo para a realização do projeto é de dois anos e meio. Os ministros da Defesa, José Viegas, e da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, anunciaram ontem, em reunião que discutia as parcerias entre os dois ministérios, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu esse compromisso. ‘‘Até 2006, o VLS-1 {Veículo Lançador de Satélites} será lançado’’, garantiu Viegas. ‘‘Se o presidente se impôs esse desafio é porque haverá dinheiro’’, referendou Amaral.

  Apesar da certeza, o anúncio foi feito sem que os dois ministros definissem o custo e a origem dos recursos para a construção do foguete e da plataforma de lançamento, totalmente destruída na explosão ocorrida na sexta-feira passada em Alcântara. ‘‘Não dá para falar em valores. Primeiro precisamos terminar as investigações para saber a causa do acidente’’, disse Viegas, referindo-se ao desastre com o VLS-1, que deixou 21 mortos.

  Estima-se que o foguete custe US$ 7 milhões, mas o desenvolvimento da tecnologia do VLS e do centro de lançamento de Alcântara consumiram dos cofres brasileiros cerca de US$ 280 milhões. ‘‘O presidente vai anunciar o novo lançamento, temos essa espécie de penhor para acertar com os 21 homens que deram sua vida pela ciência’’, disse Amaral.

  Outra dúvida é quanto ao tipo de combustível que será usado no próximo foguete. O combustível sólido, usado no VLS-1, é uma das possíveis causas da explosão, segundo a comissão de técnicos que investiga o acidente, por ser considerado pelos cientistas o menos seguro que existe.

  Os outros dois acidentes com veículos lançadores em Alcântara aconteceram em 1997 e 1999. Mas, em ambos os casos, as explosões ocorreram com os foguetes no espaço, logo depois do lançamento. Não houve vítimas. ‘‘Episódios como esses fazem parte da história de progresso da humanidade, mas não podemos esmorecer na continuidade de seu desenvolvimento’’, afirmou Viegas.

  Tanto a base de lançamento quanto o foguete terão de ser totalmente reconstruídos pela equipe do Centro Técnico da Aeronáutica (CTA). A Agência Espacial Brasileira trabalha na definição dos valores que serão necessários para isso. ‘‘Diferentemente de satélites, cada foguete é construído de forma unitária”, explicou Viegas.


Investimentos caem desde Sarney

  Nos últimos 13 anos, o Brasil investiu US$ 1,071 bilhão na construção de satélites e veículos lançadores. Mais de metade desse valor — US$ 521,3 — foi gasta no governo do ex-presidente José Sarney. A média anual de recursos nessa época é de US$ 104,2. Nunca mais o programa aeroespacial recebeu cifras como essas. Entre o governo de Fernando Collor e de seu vice, Itamar Franco, o desenvolvimento de satélites e lançadores recebeu US$ 264,6 milhões. A média de gastos nesse período foi de US$ 52,9 milhões.

  Nos oito anos em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso esteve no poder, o programa aeroespacial recebeu US$ 285,6 milhões. Foi a menor média de investimentos, com US$ 35,7 milhões ao ano. Até o fim de julho, o governo Luiz Inácio Lula da Silva havia gasto cerca de US$ 7 milhões, o valor pode crescer até US$ 44 milhões que é a previsão orçamentária para o ano de 2003.


Projeto de indenização

Dezenove caixões lacrados, encobertos pela bandeira do Brasil, com mais de cem coroas de flores. Sobre cada um deles, uma foto como última imagem para os parentes das vítimas do acidente ocorrido com o Veículo Lançador de Satélites (VLS), em Alcântara. As 1.500 pessoas que velaram ontem os corpos, no ginásio do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos, a 100 quilômetros de São Paulo, prestaram uma homenagem emocionada aos mortos na tragédia de sexta-feira. Entre elas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que passou de caixão em caixão, num ritual de pelo menos 45 minutos. Lula abraçou parentes das vítimas e chorou. Ele prometeu às famílias que o Ministério da Defesa enviará ao Congresso um projeto de lei propondo o pagamento de indenizações.

  Dos presentes, principalmente das famílias dos mortos, Lula ouviu o mesmo apelo: não interromper o programa espacial, segundo relato do senador Aloízio Mercadante (PT-SP). Ao se aproximar do caixão do engenheiro César Varejão, Lula permaneceu alguns minutos abraçado ao aposentado Félix Varejão, de 85. ‘‘Você também é pai e como pai deve saber do meu sofrimento, foi o que eu falei ao presidente’’, disse o aposentado.

  Do estudante César Varejão Filho, de 19 anos, o presidente ouviu atentamente outro pedido, o de que o governo federal não cobre a dívida relativa a uma gratificação paga em 1995 que o CTA considerou indevida. ‘‘Depois de um tempo, o governo resolveu tirar o dinheiro deles e muitos, como o meu pai já tinham gastado. Hoje a dívida do meu pai seria em torno de R$ 30 mil’’, disse o estudante, para quem as famílias não podem arcar com a dívida. ‘‘O presidente respondeu que vai estudar o assunto e se reunir com as famílias em breve.’’

  Além do senador, acompanharam o presidente nas condolências às famílias o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e o ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral. Circulando entre as famílias, Lula bateu nas costas dos homens e encostou carinhosamente a cabeça das mulheres no ombro. Foram 250 abraços.


IDENTIFICAÇÃO ENCERRADA

  O Instituto Médico Legal de São Luís, no Maranhão, concluiu ontem de manhã o trabalho de identificação dos 21 corpos das vítimas do acidente ocorrido há sete dias na Base de Alcântara. Os corpos dos engenheiros Luiz Primon de Araújo e Massanobu Shimabocuro foram os dois últimos identificados, quando as outras 19 vítimas da explosão já estavam sendo veladas no ginário do Centro Técnico Aeroespacial, em São José dos Campos. . O diretor do IML, Wanderley Souza da Silva, levou objetos que pertenciam aos engenheiros para serem reconhecidos pelas famílias das vítimas, o que evitou a necessidade de realização de exames de DNA.



 
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