

IRAQUE OCUPADO
Bush quer tropas da
ONU sob seu poder
Governo dos Estados Unidos estuda envio de força composta por vários países para conter a onda
de violência e ajudar na reconstrução, mas exige que comando fique com militar norte-americano
Da Redação
Os Estados Unidos mostraram, pela primeira vez, disposição para permitir o envio de tropas das Nações Unidas (ONU) ao Iraque. A exigência, no entanto, é de que o comando esteja nas mãos dos militares norte-americanos. A idéia de criar uma força da ONU composta por vários países foi mencionada pela primeira vez na semana passada pelo secretário-geral da organização, Kofi Annan.
Na terça-feira, o vice-secretário de Estado norte-americano, Richard L. Armitage, descreveu as tropas da ONU como ‘‘uma idéia em mente’’. A declaração, divulgada no dia seguinte pelo Departamento de Estado, marcou uma mudança de conduta do governo de George W. Bush, que sempre optou por centralizar questões econômicas, políticas e militares sob seu controle.
Armitage se recusou a discutir detalhes do plano, mas destacou que ‘‘um americano seria o comandante’’. ‘‘Não vai adiantar nada se entrarmos em detalhes agora’’, acrescentou . A declaração de Armitage vai de encontro à posição do secretário de Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, que sempre foi contra a idéia de enviar tropas da ONU para o Iraque.
O apoio dos Estados Unidos para que a ONU assuma um papel maior na reconstrução do Iraque teria o objetivo de garantir o apoio do Conselho de Segurança para um novo mandato de ocupação do país. De acordo com o jornal The New York Times, a aparente flexibilidade na política iraquiana parece refletir a preocupação dos Estados Unidos com a oposição dos governos russo e francês à permanência prolongada da coalizão anglo-americana em território iraquiano.
Além da idéia que ainda está sendo analisada, os Estados Unidos devem enviar ao Iraque, na semana que vem, mais uma parte dos US$ 1,7 bilhão pertencentes ao povo iraquiano. Segundo o governo norte-americano, a verba de US$ 419 milhões será utilizada no pagamento dos funcionários públicos e aposentados, e também na compra de material para as forças de segurança.
Apoio popular
De acordo com uma pesquisa do instituto Gallup, o número de norte-americanos que acreditam que a guerra no Iraque ‘‘valeu a pena’’ aumentou de 56% em junho para 63%. Já a retirada das tropas dividiu a opinião pública. Enquanto 46% dos entrevistados são favoráveis a uma retirada total ou parcial dos soldados, 51% apóiam a manutenção do atual contingente ou até um aumento do número de soldados americanos no país.
A presença anglo-americana no Iraque, no entanto, continua incomodando boa parte da população. Um soldado britânico foi morto ontem e outro ficou ferido durante um ataque com foguetes contra um comboio no sul do país. Os militares encontraram uma barreira na estrada e desviaram para a cidade de Ali Ash Sharqi (a cerca de 200 km de Basra). No caminho, enfrentaram cerca de 30 iraquianos, dos quais dez foram presos. O comboio britânico voltou à base escoltado por helicópteros.
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MANDATO EM JOGO
O premiê britânico, Tony Blair, garantiu ontem que o dossiê utilizado pelo governo para justificar a guerra contra o Iraque não foi alterado com o objetivo de exagerar sobre a existência de armas de destruição em massa no país — como disse o cientista David Kelly à rede BBC, antes de morrer. ‘‘Se essas acusações fossem verdadeiras, teria renunciado’’, afirmou Blair em depoimento à Justiça.
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Laurent Gillieron/AP |
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ADEUS A SÉRGIO VIEIRA DE MELLO
O diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello foi comparado a Jesus Cristo em sua cerimônia de sepultamento, ontem, em Genebra, na Suíça. ‘‘Como Jesus, Sérgio teve uma vida ordinária e um destino extraordinário’’, disse o padre católico Jean- Daniel Balet. Cerca de 500 pessoas compareceram ao enterro, que foi restrito à família e aos amigos mais próximos e começou às 14h (hora local) no cemitério dos Reis. A viúva, Annie, e os dois filhos do casal, Laurent e Adrian, chegaram ao local junto com o carro fúnebre. Vieira de Mello, representante especial das Nações Unidas no Iraque, morreu na terça-feira da semana passada num atentado terrorista em Bagdá. A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado aprovou ontem o parecer apresentado pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP) para que o diplomata seja indicado ao Prêmio Nobel da Paz de 2003. Pelo regulamento da premiação, no entanto, isso não seria possível, pois ela não é concedida post-mortem.
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