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 Brasília, segunda-feira, 08 de setembro de 2003
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Tema do Dia - Sete de Setembro
Estrelas do Pan roubam a cena

Atletas brasileiros que estiveram nos Jogos Pan-Americanos participam de desfile na Esplanada e provocam histeria. Até militares deixaram a rigidez de lado e disputaram autógrafos com crianças

Da redação

Edilson Rodrigues
Crianças tiveram de disputar com militares autógrafo da ginasta Daiane dos Santos: atletas tornaram desfile mais atraente
 
Às 7h30 da manhã, todos os batalhões já estavam em posição de sentido, prontos para o desfile que começaria duas horas depois. Na Praça dos Três Poderes, quinze pelotões infanto-juvenis aguardavam em fila indiana a vez de entrar na avenida. Mas a rigidez militar não resistiu à presença de 118 atletas premiados nos Jogos Pan-Americanos. Bastou que o primeiro medalhista pisasse o solo da Esplanada dos Ministérios e os gritos de histeria não pararam mais. A festa começou entre os próprios militares, que trocaram a ordem no pelotão para ficar mais perto das estrelas.

  Fernando Meligeni, medalha de ouro no tênis, foi o primeiro a desorganizar a concentração do desfile. A euforia em volta dele durou até a ginasta Daiane dos Santos descer de um ônibus parado em frente ao Palácio do Planalto. A gaúcha que virou celebridade há 15 dias ao ganhar medalha de ouro no mundial de Anaheim, nos Estados Unidos, causou tumulto.

  Com 1,44m de altura, Daiane ofuscou Meligeni, 36cm mais alto e garoto-propaganda do governo para as comemorações do Dia da Independência. O grupamento do Exército especializado em ações na caatinga tratou de se aproximar da ginasta. O comandante dos batalhões implorava aos militares para que voltassem à posição de sentido e deixassem de disputar espaço com as crianças para pedir autógrafos e fotos.

Além dos oficiais, cerca de 500 estudantes aguardavam na Praça dos Três Poderes a hora de desfilar. Se para os militares foi difícil manter a disciplina, para as crianças a tarefa foi quase impossível. Caíque Borges, 10 anos, percebeu o alvoroço em torno de Daiane e correu com papel e caneta para garantir a assinatura da celebridade. Com esforço, conseguiu um rabiscado da moça. Só que o estudante não sabia de quem se tratava. ‘‘Sei que ela é famosa e que aparece na televisão’’, resumiu Caíque, sem constrangimento.

  A delegação de atletas vitoriosos no Pan desfilou a convite da Presidência da República, como parte da estratégia do governo de aproximar a festa do povo e tornar a comemoração menos formal. Os atletas desfilaram com os mesmos uniformes usados na abertura dos Jogos Pan-Americanos, cobertos pela bandeira do Brasil. Por onde passavam, arrancavam aplausos e gritos de reverência ao esforço em Santo Domingo, na República Dominicana. ‘‘Não gosto de militares, vim aqui só para ver os atletas’’, disse, chorando de alegria, a professora Romênia de Cássia, 44 anos.

  Mesmo atrasados em 15 minutos, os atletas do Pan conseguiram sustentar os aplausos até o final do desfile, que começou próximo ao Palácio do Planalto e terminou na altura da L2. A paciência do público, no entanto, diminuía a cada apresentação. O tempo médio de espera entre um grupamento e outro foi de 15 minutos, o que tornou a festa cansativa. O céu sem nuvens deixava o efeito dos raios solares ainda mais quentes. Se alguma tropa tentava descansar antes de passar pelo público, vinha a pressão popular: ‘‘Marcha aí!’’, insistiam os espectadores.


Sei que ela é famosa e que aparece na televisão

Caíque Borges, de 10 anos, depois de conseguir autógrafo da ginasta Daiane dos Santos


Sacrifício pela pátria

Cansaço maior que o da espera foi o de quem protagonizou a festa. Ao fim do percurso, muitos não conseguiram esconder a fadiga. As crianças que desfilaram eram as primeiras a demonstrar cansaço. Ao final do percurso, a marcha tornou-se menos vigorosa, o olhar mais desanimado.

  A estudante Marília Ribeiro, 14 anos, abriu o desfile. Com bastões e bambolês, percorreu toda a extensão da avenida (1.400 metros), alternando piruetas e saltos. No fim da apresentação, Marília dividiu-se entre a satisfação e a exaustão. Ofegante, a menina quase não falava.

  Foi a primeira vez que Marília participou do desfile. Conduziu a banda do Colégio Marista, a primeira atração da parada de Sete de Setembro. A posição de destaque fez com que levasse os treinos com mais responsabilidade. ‘‘Perdi a conta de quantos saltos dei. Apesar do cansaço, acho que consegui fazer bonito’’, avaliou ao chegar na dispersão, por volta das 9h45.

  O sacrifício para manter a pose foi exigida até dos animais. Cachorros de várias tropas das Forças Armadas não beberam água durante a concentração. Um militar da reserva que assistia ao desfile explicou que a prática é comum para evitar que os animais urinem. Um dos cães, no entanto, não suportou a sede. Bebeu a água que uma viatura do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope) despejava no chão como efeito de demonstração. A cena ocorreu na frente do palanque do presidente.


Esquadrilha da Fumaça encanta público

Enquanto 6.700 militares marchavam pela Esplanada dos Ministérios, pára-quedistas, aviões e helicópteros faziam do ar palco de um segundo desfile. Na abertura do evento, a Esquadrilha da Fumaça riscou o céu de verde e amarelo. Um dos 73 pára-quedistas que saltaram no canteiro central entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Bandeira Nacional hasteada, às 9h, ao som do hino nacional.

  Três horas e meia depois, a Esquadrilha da Fumaça voltava a surpreender o público com suas manobras arriscadas. Durante o desfile, que durou o dobro do tempo em relação ao ano passado, o público se surpreendeu com cenas dignas de filmes de ação. Um dos pontos altos da festa aérea foi a simulação de um resgate pela Marinha, que culminou com a formação da chamada ‘‘penca humana’’. Um helicóptero Esquilo parou no céu sobre o canteiro central. Em segundos, quatro soldados se seguraram a uma corda e ‘‘voaram’’ agarrados à ela em direção ao Palácio do Planalto.

  Mas nem a primeira-dama suportou espetáculo tão longo. Dona Marisa Letícia demonstrava encantamento pela apresentação, mas tirou os olhos do céu por um rápido instante para se permitir um bocejo.

Dificuldades
Quem assistia ao espetáculo aéreo não supunha, no entanto, as dificuldades que enfrentavam alguns de seus atores. A combinação entre a altitude de Brasília e o vento forte fez com que vários dos pára-quedistas despencassem próximos ao solo, caindo sentados. ‘‘Estávamos perdendo a sustentação’’, descreveu o Coronel Paulo Roberto Moraes, da Brigada de Infantaria de Pára-Quedistas do Exército, que entregou a bandeira brasileira ao presidente Lula.

  Ainda que as condições estivessem menos adversas, não seria fácil descer exatamente em frente ao palanque em que estavam o presidente e as demais autoridades. ‘‘É um salto de alta precisão’’, explicou o coronel Moraes. Mas, segundo ele, o esforço valeu à pena. ‘‘A bandeira é uma honraria. Por eu ser o mais antigo, fui escolhido para entregá-la ao presidente. É uma emoção saltar com um dos símbolos nacionais’’, disse.

Infografia
ATRAÇÃO NAS ALTURAS





 
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