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 Brasília, segunda-feira, 08 de setembro de 2003
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Tema do Dia - Sete de Setembro
O povo fez a festa na Esplanada

Cinqüenta mil pessoas enfrentam sol quente e falta de arquibancadas para se divertir no desfile. Desentendimentos foram resolvidos com cordialidade. Beleza dos militares chamou atenção das mulheres

Da Redação

Ronaldo de Oliveira
Brasilienses carregaram bandeiras e acompanharam com atenção as festividades: crianças viram desfile mais de perto e foram vigiadas por PMs
 
Faltavam doze minutos para as 9h quando o locutor oficial da festa arriscou uma definição para o povo que ocupava a Esplanada dos Ministérios. ‘‘Somos a civilização tropical mais avançada do mundo moderno’’, disse, com voz empostada. Exagero patriótico à parte, a frase resumiu bem o misto de alegria e cordialidade dos 50 mil brasileiros que assistiram ao desfile da independência. A comemoração transcorreu sem problemas graves, apesar das poucas arquibancadas e do sol quente.
  Maioria na festa, as crianças receberam tratamento especial. Adultos e policiais militares concordaram que elas deveriam ficar na frente de todo mundo. Sempre que um pequeno chegava, era encaminhado para o cordão de isolamento e vigiado pelos policiais que controlavam a multidão. ‘‘Aqui todo mundo está cuidando de todo mundo’’, brincou a professora Eleni Maria de Jesus, 33 anos, que confiou Danilo, o filho de 2 anos, a um dos PMs. Algumas crianças se perderam dos pais durante o desfile, mas todos se reencontraram.
  Os poucos desentendimentos foram resolvidos com palmas, assovios e coros. O povo gritava ‘‘senta’’ para o grandalhão que se intrometia no campo de vista e ‘‘apaga’’ para o fumante que acendia um cigarro. Dizia ‘‘beija’’ quando pressentia uma discussão entre dois exaltados. ‘‘A festa está ótima, está tudo em paz e é assim que tem de ser’’, empolgava-se Rita Ribeiro, 26 anos, moradora de Planaltina de Goiás que levou cinco sobrinhos para a comemoração.
  As calçadas do Eixo Monumental já estavam cheias antes mesmo do desfile começar. O operário Antônio Barbosa, 28 anos, acordou às 6h da manhã, mas teve de assistir a festa de longe. Mesmo assim, pulava de alegria. ‘‘As cores, a multidão, o agito... só por isso já valeu a pena ter vindo’’, comemorou o morador de Ceilândia, acompanhado do sobrinho.
  Durante o desfile, o povo se divertia inventando brincadeiras. Uma das preferidas era tentar arrancar sorrisos dos militares mais carrancudos. ‘‘Ei, lindinho. Olha aqui para mim’’, gritava uma moça de vestido branco com máquina fotográfica na mão. Tudo era motivo de piada. De tão animada, a multidão festejou o barulho da esteira dos tanques de guerra do Exército, um caminhão da PM que esparramava água e um ônibus da Polícia Rodoviária Federal.
  Os homens fardados mereceram atenção especial de parte das mulheres. Algumas se dedicavam a descobrir bonitões entre os rapazes que desfilavam. ‘‘O Brasil merece os parabéns por suas três forças armadas’’, brincou a funcionária pública Antônia Lustosa, 50 anos. Ainda mais empolgada, Roberta Miranda, 21 anos, gritava sempre que gostava de algum militar. ‘‘Eles são tão lindos’’, derretia-se a moça do Cruzeiro.

Proteção
Os patriotas mais experientes levaram kits com água mineral, frutas, protetor solar, guarda-chuvas e cadeiras de plástico. De cima de um banquinho, o advogado Benedito Barbosa tecia comentários sobre a parada cívica. ‘‘Esta festa é muito importante para fortalecer nosso civismo e amor à pátria. E, com seu sentido de organização, os militares são os mais indicados para alimentar estes sentimentos’’, comentou Barbosa, acompanhado da mulher e dos filhos.
  Estreantes também gostaram da experiência. As amigas Geise Carvalho e Vera Lúcia Abreu, de 16 anos, não se arrependeram de sair da cama num domingo de manhã. ‘‘É a primeira vez que assisto a uma celebração do dia da Pátria. Confesso que vim sem esperar muito, mas valeu a pena porque nunca tinha visto tanques e consegui um autógrafo do Fernando Meligeni’’, festejou Geise.
  Quem não se espremia no cordão de isolamento, presenciou uma cena inusitada às 10h30. Um grupo de aproximadamente 50 índios da tribo Pankararú, do município de Tacaratu — a 520 km de Recife (PE) —, caminhou da Catedral à pista de pouso dos paraquedistas. Tentaram entrar na pista do desfile, mas foram impedidos pela Polícia Militar. De acordo com um dos líderes indígenas, Agenor Gomes Julião, a intenção era comemorar o dia da Independência do Brasil à maneira deles. A festa verde e amarelo acabou às 12h30, depois que a Esquadrilha da Fumaça encantou o público com sua exibição.


Esta festa é muito importante para fortalecer nosso civismo e amor à pátria

Benedito Barbosa, advogado que viu o desfile com mulher e filhos


Deficientes sem espaço

  Um dos momentos de maior tensão nas comemorações do dia da Independência em Brasília ocorreu no palanque montado em frente ao Ministério da Fazenda. Reservado para deficientes, o local foi tomado antes mesmo do início da festa por outras pessoas que buscavam um espaço com sombra e vista privilegiada para o desfile.
  A gaúcha Ivone Belém foi impedida pela Polícia Militar de levar o seu filho André, 10 anos, paraplégico, em cima do palanque. ‘‘Tentei subir a rampa de acesso com a cadeira de rodas do meu filho e um PM me disse que o palanque já estava lotado. Quando respondi que a maioria das pessoas no local não eram deficientes, o policial argumentou que não conseguia tirá-las’’, relatou.
  A PM alegou que muitas pessoas no palanque eram acompanhantes dos deficientes. E que, diante das reclamações, passou a controlar com mais rigor o acesso ao local.



 
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