Nova York encolheu
Cidade perdeu muito mais que as torres gêmeas. Não tem o glamour de antes, registra um rombo de quase US$ 5 bilhões e o turismo está em queda
Vicente Nunes
Da equipe do Correio
Do prédio onde mora, na pequena Weehawken, Nova Jersey — do outro lado do Rio Hudson —, a produtora musical Christina Costa tem a nítida impressão de que Nova York ficou menor. Faltam aquelas duas altíssimas torres do World Trade Center (WTC), destruídas há exatos dois anos, no mais grave atentado terrorista da história dos Estados Unidos.
A impressão de Christina pode parecer exagero. Não é. A Nova York de hoje já não tem o glamour de antes nem o vigor econômico. A metrópole mais famosa do planeta registra um rombo de quase US$ 5 bilhões em suas finanças. O número de turistas estrangeiros está quase 10% menor. Já não se vê as filas de meses de espera para assistir aos sucessos da Broadway. E o desemprego, de 8% da População Economicamente Ativa, é o maior dos Estados Unidos.
Do ponto de vista psicológico, o quadro também é desalentador. Os nova-iorquinos não conseguiram superar o medo. Pelo menos dois terços de seus 8 milhões de habitantes temem um novo ataque terrorista. Eles não se sentem à vontade nem mesmo para pegar o metrô, o principal meio de transporte da ilha de Manhattan.
A Cruz Vermelha vem dando atendimento terapêutico a 6 mil famílias. Todas sofrem de estresse pós-traumático, causado pela tragédia de 11 de setembro de 2001. Os sintomas são raiva, depressão, insônia e pânico. ‘‘Todo mundo foi afetado neste país’’, diz Antonio Checo, supervisor dos programas terapêuticos da Cruz Vermelha na cidade.
Não há, porém, como negar que Nova York tem feito um esforço monumental para se recuperar da tragédia, conforme pedia o então prefeito Rudolph Giuliani. Desde que as torres do WTC foram abaixo, artistas, intelectuais, empresários e governo promovem campanhas para chamar os turistas de volta, ampliar as vendas, resgatar a auto-estima e retomar a alegria da cidade, numa espécie de revival do movimento ‘‘I love NY (Eu amo Nova York)’’ dos anos 80.
Imóveis
Com as taxas de juros nos mais baixos patamares dos últimos 40 anos, os investimentos em imóveis estão em alta e se tornaram a principal alavanca da economia nova-iorquina. Há duas semanas, um investidor mexicano, que mora em Londres, comprou por US$ 40 milhões uma cobertura no prédio da Time-Warner e AOL, construído em frente ao Lincoln Center. Foi um recorde.
Nas áreas próximas do Marco Zero (como foi batizado o imenso vazio onde, antes, ficava o prédio do WTC), no baixo Manhattan, a Prefeitura e os empresários optaram por dar incentivos aos moradores e comerciantes. No Battery Park, um dois locais mais atingidos pela tragédia, a taxa de ocupação dos apartamentos, que caiu a 40% depois de setembro de 2001, está agora em 97%, graças a subsídios de US$ 281 milhões da Prefeitura. Foi anunciado, ainda, a construção de 2.500 novas residências no ano que vem.
O governo também desembolsou US$ 1 bilhão para a recuperação de 15 mil empresas da área. Em abril de 2004, cada firma com até 200 empregados terá direito a incentivo fiscal de R$ 2.400 por empregado. Esse apoio permitiu que a taxa de imóveis comerciais vagos na região caísse, no primeiro quadrimestre do ano, de 13,3% para 12,6%. ‘‘Aos poucos, o movimento voltará ao normal. Tenho fé nisso’’, afirma o decorador Julio Chacur, dono de uma galeria no baixo Manhattan.
Também estão sendo investidos US$ 4,55 bilhões para a melhoria dos transportes, inclusive na recuperação das linhas de trem e de metrô destruídas pelos atentados. Esse projeto está casado com empreendimentos culturais, como o Tribeca Film Festival, cujo mentor é o ator Robert de Niro, dono de um dos mais famosos restaurantes do bairro. O festival teve sua segunda edição em maio e atraiu parte dos nova-iorquinos que resistiam em pisar na região-símbolo de tanto sofrimento.
A nota dissonante é a demora na reconstrução do Marco Zero. Idealizado como um monumento à união e à resistência, o empreendimento está sendo minado pela discórdia, justamente o que Nova York menos precisa neste momento.
MASSACRE
2.792 pessoas morreram no atentado de 11 de setembro de 2001 contra o World Trade Center, em Nova York
O número
Massacre
2.792 pessoas morreram no atentado de 11 de setembro de 2001 contra o World Trade Center, em Nova York
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