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Gugu, ética e censura
Ministério da Justiça estuda medidas para melhorar a qualidade da produção televisiva e estabelecer horários adequados de exibição. Nos últimos oito meses, cinco programas foram advertidos pelo governo
Renata Giraldi
Da Equipe do Correio
Em breve, o conteúdo dos programas exibidos pelos canais de televisão deverá obedecer a regras, destinadas a garantir a qualidade da produção e a adequação ao horário em que será levada ao ar pelas emissoras. As normas, que reacendem o debate sobre ética e censura prévia aos meios de comunicação, serão elaboradas por uma comissão que está sendo formada pelo Ministério da Justiça, e que reunirá professores universitários, publicitários, além de representantes da Radiobrás.
A idéia de criar a comissão para discutir a questão já vinha sendo amadurecida desde o início do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a decisão foi tomada na semana passada quando estourou a polêmica em torno do programa Domingo Legal, que exibiu uma entrevista falsa em 7 de setembro. Os integrantes da comissão ainda estão sendo escolhidos. O grupo terá no máximo seis pessoas.
Preocupada com a ética nos programas de TV, a secretária nacional de Justiça, Cláudia Chagas, já vinha realizando havia vários meses reuniões individuais com diretores das redes de televisão para buscar um acordo sobre a possível auto-regulamentação para o setor. O foco da medida se concentrará nos programas policialescos e sensacionalistas. Segundo ela, ainda não há definição se a medida adotada será por meio de auto-regulamentação, de controle do Estado ou da Sociedade. De qualquer maneira, ela adianta: ‘‘Não será censura’’.
Há um ano, o deputado Orlando Fantazzini (PT-SP) lançou a campanha Contra a Baixaria na TV com apoio de 60 entidades civis, entre elas a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), promovendo a avaliação dos programas exibidos nos canais abertos de TV. Ao longo da campanha, o deputado constatou que alguns programas são reincidentes nas denúncias.
Fantazzini alerta que o episódio que supostamente envolve o apresentador Gugu Liberato não é um caso isolado de mentiras levadas ao ar como se fossem verdades. ‘‘Vários programas ‘criam’ verdades sobre fatos. O exemplo mais freqüente são as pegadinhas’’, conta. ‘‘Nós descobrimos que, na maioria das vezes, os personagens são contratados e estão conscientes da brincadeira, ao contrário do que é anunciado na TV.’’
Para Fantazzini, o episódio do Domingo Legal foi gravíssimo. ‘‘Mas há outros aspectos nos programas de TV que também devem ser observados, como o caso dos que incitam o preconceito e a agressão’’, diz o deputado. Na opinião dele, a denúncia contra o Domingo Legal provou que sociedade está alerta e mais crítica em relação ao conteúdo da programação de TV.
Por conta da farsa, o SBT foi obrigado a suspender a exibição do Domingo Legal, depois de levar ao ar entrevista na qual supostos integrantes da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) fizeram ameaças a apresentadores de TV e ao padre Marcelo Rossi. A decisão de suspender o programa foi tomada pela Justiça a pedido do Ministério Público. Investigações policiais indicaram que os entrevistados não eram integrantes do PCC, mas sim contratados para representar criminosos.
APRESENTADOR DEPÕE HOJE
O apresentador Gugu Liberato, do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), foi convocado a depor às 10h de hoje na Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa de São Paulo sobre a entrevista com os supostos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), exibida em 7 de setembro no programa Domingo Legal. Também foram convocados o diretor do SBT, Maurício Nunes, o produtor Rogério Casagrande e o jornalista Wagner Maffezoli. Gugu também está sendo convocado a prestar depoimento sobre o episódio na Câmara dos Deputados. E, na quinta-feira, vai prestar esclarecimentos no Departamento de Investigação do Crime Organizado (Deic). Caso fique confirmado que o apresentador tinha conhecimento da farsa, ele responderá a processo por ameaça e apologia do crime. Ao todo, três ações foram abertas por conta da armação.
Descobrimos que, na maioria das vezes, os personagens de pegadinhas são contratados e estão conscientes da brincadeira, ao contrário do que é anunciado na TV  |
Orlando Fantazzini, deputado federal (PT-SP)
O número
60
É o número de organizações civis, como a CNBB e a OAB, que participam da campanha Contra a Baixaria na TV, lançada há um ano
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Entrevista - Cláudia Chagas
Fã de TV, mas mãe cautelosa
| Carlos Moura |
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A secretária nacional de Justiça, Cláudia Chagas: “não haverá censura”
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Mãe de dois adolescentes, a secretária nacional de Justiça, Cláudia Chagas, sempre estabeleceu horários para eles assistirem à televisão. ‘‘Não dá para eles verem qualquer coisa’’, afirma ela, em entrevista ao Correio Braziliense. Decidida a elevar a qualidade da programação na TV brasileira, diminuindo o número de programas violentos, sensacionalistas e que estimulem a erotização, ela se determinou a vencer a batalha, iniciada no governo passado sem sucesso.
‘‘Não é fácil, há muita resistência por parte de diretores de TV que temem perder a audiência para o concorrente. Mas negociando a gente chega lá’’, diz Cláudia Chagas, em tom otimista. Há quatro meses, ela orientou uma equipe a examinar minuciosamente os programas que vão ao ar nos canais abertos das 6h às 20h. Segundo a secretária, só nesse período foram encaminhadas mais de 400 denúncias à equipe. Os principais trechos da entrevista:
CORREIO BRAZILIENSE — Como o governo vai lidar com a decisão de regulamentar o setor sem que seja acusado de censura?
CLÁUDIA CHAGAS — Há oito meses, o Ministério da Justiça acompanha o assunto com discussões com diretores de TV, entidades civis, Ministério Público e profissionais de comunicação. Buscamos um acordo. O que os responsáveis pelas televisões não podem esquecer é de que eles têm uma concessão. Portanto, um papel social que deve ser respeitado. A liberdade de expressão não é absoluta, ela existe ao lado de outros direitos.
CORREIO — O episódio envolvendo o programa Domingo Legal, do apresentador Gugu Liberato, estimulou o governo a apressar essas negociações?
CLÁUDIA — Infelizmente, há inadequação em vários programas de TV, contrariando o ideal que seria um padrão mínimo de qualidade. A glamourização de criminosos banaliza a violência e influencia a vida de todos, isso não pode continuar. O episódio recente foi péssimo porque, entre outros aspectos, interrompeu as conversas que estavam em curso.
CORREIO — Como deverá ser essa medida para evitar a má qualidade dos programas de TV?
CLÁUDIA — A idéia é estabelecer uma orientação por faixa etária, mas não há definição de como ocorrerá. Será levada em conta a proposta sobre Código de Ética na TV que tramita no Congresso e as alternativas para limitar a exibição de programas violentos e que estimulam a erotização.
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Controle remoto
Programas que já foram advertidos pelo Ministério da Justiça
João Kléber
Rede 21 (antiga Rede TV!)
O programa, que leva o mesmo nome do apresentador, é acusado de abuso no conteúdo, estimulando a violência.
Cidade Alerta
Rede Record
Exibe reportagens policiais. É acusado de abuso de conteúdo e estímulo à violência.
Hora da Verdade
Band
Apresentado por Márcia Goldsmidt, é denunciado por conteúdo inadequado ao horário exibido, no final da tarde.
Kubanacan
Rede Globo
Novela que faz uma sátira sobre um país virtual no Caribe, exibindo belas mulheres, homens seminus e inúmeras situações interpretadas como violentas. O diretor da novela Wolf Maia foi alertado sobre a inadequação do conteúdo e prometeu mudar os rumos da produção.
Mulheres Apaixonadas
Rede Globo
Exibida às 21h, a novela conta inúmeros dramas de ordem moral e ética. O Ministério da Justiça sugeriu que deve ser vista apenas por maiores de 12 anos. Foi feita a reclassificação.
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