18 de janeiro de 1998 |
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Pero Vaz caminha Reinavam as cidades-estado da península que hoje é a Itália. Tinham a seu favor a facilidade de chegar através do mar Mediterrâneo até Constantinopla, antiga capital do Império Romano no Oriente e maior mercado de especiarias asiáticas os temperos e conservantes de comida que valiam tanto quanto metais preciosos. A hegemonia dos italianos e a
posterior tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, empurram os portugueses para o
mar tenebroso, o Atlântico. Precisavam descobrir rotas marítimas que contornassem a
África e permitissem a chegada até as Índias, a Meca comercial do Oriente. Vinha de lá
a maior parte das especiarias que costumavam ser negociadas em Constantinopla. Foi assim
que Portugal investiu na navegação. Fundou a Escola de Sagres para desenvolver as artes
náuticas e planejar novas expedições. A de Cabral foi apenas uma delas. Por 30 anos,
entre 1500 e 1530, os portugueses pouco se importaram com o novo solo brasileiro -
concentraram-se na Ásia, já que na terra dos índios tupiniquins não havia o que
comprar nem o que vender. E, por três décadas, o Brasil foi apenas uma nota de pé de
página no grande livro da expansão marítima portuguesa. O navegador português Bartolomeu Dias dobra o Cabo da Boa Esperança, na África 1492 Cristovam Colombo, um genovês contratado pela Espanha chega às ilhas do Caribe, descobre a América e pensa ter chegado ao Oriente 1494 Portugal e Espanha assinam o Tratado de Tordesilhas e dividem, entre si, as terras que seriam descobertas 1498 Vasco da Gama, o maior navegador português, chega a Calicute, na Índia e, enfim, traça o novo caminho que liga a Europa ao Oriente. 1500 Pedro Álvares Cabral desembarca no Brasil em 22 de abril |
São quase 500 anos de um Brasil tão desconhecido quanto imenso. A terra que Pedro Álvares Cabral encontrou na quarta-feira, 22 de abril de 1.500, virou o maior país da América Latina, mas ainda é, para muitos, uma nação de três cidades: Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Juntas, elas ocupam menos de 1% dos 8.547.403,5 km2 do território e a maior parte do noticiário dos grandes jornais e televisões. E os outros Brasis desconhecidos? Para mostrá-los, o Correio Braziliense passa a publicar a partir de hoje uma série de reportagens especiais que se estenderá até abril de 2.000. Revisitaremos lugares históricos, cidades que já foram importantes, regiões onde se desenrolaram os grandes ciclos da história nacional. Mostraremos o presente de todos esses passados. O primeiro capítulo se passa em Santa Cruz de Cabrália, na Bahia, onde a esquadra de Cabral desembarcou há quase 500 anos.
Quando alguém está perto da morte, botamos na ambulância e ela vai morrer em outro lugar, diz, com crueza, o médico Messias Ferreira Guimarães, 41 anos, formado em São Paulo e apaixonado por Cabrália. Nem padre tem moradia fixa na cidade onde foi rezada a primeira missa brasileira, em 26 de abril de 1500, num pequeno ilhéu que ganhou o nome de Coroa Vermelha. A terra no sul da Bahia onde os portugueses aportaram depois de 44 dias cruzando o Atlântico em dez naus e três caravelas é um lugar esquecido pelos livros de História, desprezado pelo turismo e marcado pela sombra de Porto Seguro, o badalado balneário, distante 22 quilômetros dali. Porto está nos roubando tudo. Dinheiro, infra-estrutura e história, lamenta Paulo Oliveira Salvatori, outro paulista, ex-piloto da Aeronaútica que trocou a paulicéia pelo pacato lugarejo baiano. Montou um restaurante na beira da praia, ao lado da foz do Rio Mutari, o mesmo que, em 1500, serviu para abastecer as naus portugueses. É um ponto turístico, com placa grande de madeira, feita pelo próprio Paulo, mas não atrai muitos visitantes. O turista chega em Porto Seguro com pacote fechado pelas grandes agências de viagem. Não vem a Cabrália, a não ser para pegar um barco e conhecer os recifes de corais no alto mar. Afinal, nosso mar é melhor que o de Porto, compara o ex-piloto, casado com Denise, grávida de oito meses. RUAS VAZIAS E PREÇOS ALTOS Cabrália é quatro vezes menor do que Porto. Tem 25 mil habitantes, contra quase cem mil no município vizinho - no verão, dez vezes mais gente. De dezembro a fevereiro, Porto é o paraíso dos turistas. A cidade vira uma mistura de shopping, boite e praia. Cabrália é um lugar de ruas vazias e preços altos.
Um pacote de fraldas Johnson, por exemplo, custa R$ 9,62 no principal supermercado de Cabrália. Em Porto, o mesmo produto não sai por mais de R$ 7,50. A concorrência é desleal, eles compram muito mais do que nós, reconhece Jefferson Brito, gerente do mercado. Hoje, aqui só vale a pena para quem quer isolamento completo e tem dinheiro no bolso, diz Ivana Benfica, funcionária dos Correios cabralienses, onde chegam apenas mil cartas por mês. Quem é que vai escrever para esse fim de mundo quente e quem aqui vai ter ânimo para escrever carta? Pero Vaz de Caminha teve. Escriba da expedição de Cabral, ele é o autor da certidão de nascimento do Brasil, um precioso documento que relata o dia-a-dia do descobrimento. Eis as palavras de Caminha sobre Cabrália: terra em si de muitos bons ares, frescos e temperados ..., as águas são muitas, infinitas e em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitar, dar-se-á nela tudo. Ou a profecia era mixuruca ou não se quis aproveitar. O fato é que pouca coisa vai bem na cidade, cuja arrecadação fiscal é de R$ 150 mil mensais. Os custos só com a educação totalizam R$ 100 mil. Resultado: no ano passado os funcionários da prefeitura ficaram dois meses sem receber salários. SEM BORDÉIS E SEM MEMÓRIA Quando aportou em Pindorama era assim que os índios tupiniquins, anfitriões dos portugueses, depois eliminados por eles, chamavam o Brasil a esquadra de Cabral tinha 1.200 homens e nenhuma mulher. Os navegadores ficaram encantados com as índias, mui gentis, nas palavras de Caminha. As mulheres da pequena Cabrália seguem bonitas, um pouco índias, parte mulatas, sempre baianas. Curioso é que na cidade não há bordel. Em Porto, tem. Aqui é um outro mundo, elogia Raimundo Rangel, o Rai, um carioca que mora em Cabrália há duas décadas e adora a pasmaceira do lugar. É das raras pessoas que não se incomoda com a sombra de Porto Seguro. Quanto mais badalação tiver lá, mais sossego teremos, diz o moço, uma espécie de new-hippie que tem um programa numa das duas rádios da cidade. O problema não é e badalação. É que um pedaço da História está sendo alterado, mentido, desabafa Sidrac Carvalho, historiador e professor em Cabrália. O desabafo tem razão de ser. Enquanto a imensa maioria dos historiadores dá como certo o desembarque dos portugueses em território hoje correspondente à Cabrália, Porto Seguro leva e faz tudo para isso todos os louros do descobrimento. O marco da chegada dos portugueses - um pedaço de mármore encontrado na década de 70 num açougue, servindo para bater carne está no centro histórico de Porto Seguro. Na praça das Pitangueiras, no centro de Porto, chegou a ser erguida uma cruz, marcando ali o suposto local da primeira missa, e não em Coroa Vermelha. Na bibliografia escolar exemplo, a História do Brasil de Francisco Teixeira um mapa indica Porto Seguro como ponto da descoberta. A mesma coisa acontece no almanaque Abril de 1994. A supremacia de Porto vale também para as solenidades dos 500 anos de descobrimento. Porto Seguro é o principal organizador. Na entrada da cidade, está sendo construído um enorme relógio, de 13 metros por oito de largura, patrocinado pela TV Globo. Fará contagem regressiva para a virada do milênio e para o aniversários dos 500 anos brasileiros. O milênio, no mínimo, vai começar no lugar errado.
Muitos ganham a vida vestindo-se com tangas e cocares para seduzir turistas com seu artesanato - um cocar de pagé chega a custar R$ 110 se o potencial comprador tiver cara de estrangeiro, e o vendedor, lábia de bom comerciante. Não é o caso de Messias Gomes, 41 anos, analfabeto, filho de uma índia com um branco. Mora em Coroa mas odeia artesanato. Desempregado, faz bicos de fotógrafo e divide a casa de madeira com a mulher e três crianças. Nenhuma delas estuda. A caçula Jamille, de dois anos, sofre com hérnia e vermes. Os remédios são caros, lamenta Messias, próximo ao único marco histórico de Coroa uma cruz posta ali em 1973 pelo governo do presidente Médici. Messias e sua familia seguem os costumes dos vizinhos. Tomam banho e lavam as roupas no mesmo riacho em que despejam o esgoto dos banheiros improvisados em casinhas atrás do barracos. Não sei se passa doença. Passa ?, pergunta o homem que também desconhece a data em que Pedro Álvares Cabral aportou nas vizinhanças de seu quintal. Faz muito tempo isso. Não me lembro, diz Messias, dono de quatro luxos domésticos: uma televisão preto e branco, um aparelho de som mixuruca, um fogão de quatro bocas e uma geladeira azul - no dia 20 de dezembro passado, havia nela apenas uma lata de azeite e um pedaço de galinha. EXPULSÃO A aldeia Pataxó de Coroa tem dois mil moradores e, no ano passado, ganhou o status de área indígena com um território demarcado de 1.420 hectares. É ocupada por mil índios e o mesmo número de brancos. Não há discriminação nas condições de moradia. Todas são péssimas. É uma aldeia favelizada, admite José Augusto Sampaio, antropólogo e espécie de Deus para os indígenas dali. Foi Zé, professor da Universidade Estadual da Bahia, quem coordenou o grupo técnico responsável pelo dimensionamento da reserva. O decreto que entrega definitivamente as terras para a Funai e transforma o lugar em área federal já foi assinado pelo presidente Fermando Henrique Cardoso mas sua implantação ainda depende da burocracia de Brasília. Assim que estiver tudo pronto, quem não for índio terá que sair daqui, explica o antropólogo, agora também preocupado com os efeitos das comemorações dos 500 anos do Descobrimento em Coroa Vermelha. Os organizadores dos festejos planejam passar um trator no punhado de malocas de palha feitas pelos índios na área central do ponto histórico, para vender artesanato. Isso aqui será uma vitrine da festa. Tudo terá que ficar bonitinho. Nada do que hoje existe vai ficar de pé, reclama José Augusto.
Todos, nesse ofício, repetem o mesmo discurso para qualquer pessoa que tenha cara ou jeito de turista. Se interrompidos, começam o relato do ínicio. É decorado mesmo. Por isso não existe nenhum guia melhor do que outro, diz o garoto, estudade da 5ª série. Todos nós falamos a mesma história. Não sei se está certa ou errada. É a que meu irmão, ex-guia, me ensinou, diz o menino, filho de uma empregada doméstica, mãe de cinco adolescentes. Há seis anos, Sérgio ajuda a família trabalhando como guia na parte alta de Cabrália, onde se concentram os três únicos monumentos históricos da cidade. Deles, o garoto desfia detalhes pitorescos, falados sem pausa. Essa é a Igreja da Matriz, a quarta do Brasil. Seu telhado é de telhas tortas, são assim porque eram feitas nas coxas dos escravos, conta. Em seguida, aponta para uma casa branca e continua: Aquela lá era a antiga Intendência, onde funcionava também a prisão de homens e mulheres. A parte dos homens era melhor porque tinha vista para o mar. A das mulheres, era pior, ficava num quarto fechado, escuro e sem janela. Os guias mirins são os únicos guardiões do patrimônio histórico de Cabrália. Na cidade, não há museu nem arquivo público. O único assemelhado fechou há dois anos. Era uma coleção privada de peças antigas, a maioria dos séculos XVIII e XIX, reunidas por Sebastião Belmonte, o Tião, dono de um dos maiores restaurantes do lugar e apaixonado por História. Fiz um museu público na minha casa com mais de 3 mil peças, mas ninguém na prefeitura me ajudava a preservar nem incentivava a visitação. Nem sequer os alunos das escolas públicas iam lá. Acabei fechando o museu, encaixotei as peças e agora vou jogar tudo no mar. Cansei, desabafa Tião, que tampouco vai bem nos negócios. Seu restaurante, como tudo em Cabrália, anda vazio mesmo no verão. Sabe por que Porto Seguro é cheio? Porque há estímulo ao turismo. Aqui não há nada, diz. Se para o empresário Tião a vida em Cabrália anda difícil, que dirá a doméstica Benedita Oliveira? Sua casa, um barraco de palafita com dois cômodos, próximo ao centro da cidade, abriga 11 pessoas oito crianças e três adultos, todos desempregados. Quando chega dezembro, a gente fica na esperança de melhorar no verão, mas agora isso só acontece se formos para Porto Seguro. É o que vou fazer, diz Benedita, olhando para a geladeira vazia. Na prefeitura, a explicação é uma só: não há dinheiro para investimento. Não há, mesmo, insiste o prefeito de Cabrália, Geraldo Scaramussi, um capixaba que trocou o Espírito Santo pela política pefelista da Bahia. |
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