logo-correio.gif (3798 bytes) 500 Anos de















    Brasil


18 de abril de 1998

Cynthia Garda
e Raimundo Paccó (fotos)
Da equipe do Correio

Ilha de Marajó

(no Estado do Pará)

Superfície:

49.602 km² divididos em 13 municípios

Vegetação:

a parte oeste da ilha é coberta por florestas, a parte leste por campos naturais e vegetação do tipo savana

Economia:

criação de búfalos, pesca, extração de madeira, açaí, borracha

População:

aproximadamente 250 mil habitantes

Acesso:

de barco ou avião, a partir de Belém.



Retiro do sossego

No Retiro do Sossego, um casarão do século passado na cidade de Soure, o passado apodrece. Fechado, o prédio vira ruína, perdido entre disputas familiares por sua posse. Por entre as frestas de madeira no Sossego, podem-se ver charretes, banheiras de louça, malas quadradas em couro azul. Uma placa, que só se enxerga pelo buraco da fechadura de um galpão, avisa:  É prohibido fumar . Os moradores de Soure acreditam que é possível ver o suspiro da cobra grande nos redemoinhos das águas do rio que passa pela propriedade. A lenda diz, também, que o rabo da cobra está embaixo da igreja matriz. Muitos pescadores juram que já viram a cabeça dela levantar-se à noite no rio.

O Tratado de Tordesilhas

Quando Colombo atinge a América em 1492, iludido, acredita ter alcançado o Oriente. A descoberta de Colombo agrava a disputa entre Portugal e Espanha pelo domínio do Atlântico. Os portugueses querem garantir a rota do Atlântico Sul e, para alguns historiadores, assegurar também as terras que já supunham existir. A Espanha quer o monopólio da exploração das Índias, que acredita ter alcançado. As duas nações firmam em 1494 o Tratado de Tordesilhas, mediado pelo papa Alexandre VI, garantindo a Portugal as terras sul-americanas a leste de uma linha imaginária traçada a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. À Espanha, caberiam as terras a oeste da linha (o mapa acima mostra onde passaria a linha). Duarte Pacheco Pereira foi conselheiro cartográfico da delegação portuguesa que negociou o Tratado de Tordesilhas.

 



Coberta de búfalos, alagada durante metade do ano, com praias que alternam ao longo dos meses as águas salgadas e verdes do mar com as doces e barrentas dos rios amazônicos, a gigantesca ilha de Marajó, no Pará, é desconhecida da maioria dos brasileiros. Sua vocação para a obscuridade vem de longe.

  Marajó pode ter sido o primeiro ponto do território brasileiro visitado pelos europeus da era dos Descobrimentos  em 1498, dois anos antes da expedição portuguesa de 1500 chegar a Cabrália. Mas o visitante  o cartógrafo e navegador lusitano Duarte Pacheco Pereira  se passou mesmo pela ilha, se fez de desentendido. Pisava em território espanhol, de acordo com os limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas.

  Há fortes indícios de que tenha avistado a costa brasileira na altura do hoje chamamos de Lençóis Maranhenses (uma grande extensão de dunas e lagos na costa do Maranhão), chegando depois à foz do rio Amazonas e à ilha de Marajó, onde teria desembarcado. Descreve uma populosa nação de índios pardos. Discute se seriam filhos de Adão e o porquê de não serem negros, se viviam nas mesmas longitudes dos africanas. Deixou escritos relatando a viagem ao rei D. Manuel.

  De hoje a segunda-feira, o Correio Braziliense, dentro da série 500 anos de Brasil, relembra as expedições que podem ter chegado ao Brasil antes do desembarque de Pedro Álvares Cabral, no dia 22 de abril de 1500. Mostra hoje como está o Marajó que teria recebido Duarte Pacheco Pereira em 1498. Amanhã e segunda-feira, será vez de outro precursor, o espanhol Vicente Yañez Pinzón, que chegou, em janeiro de 1500, ao Cabo de Santo Agostinho (no atual estado de Pernambuco), e à região do rio Oiapoque, no que hoje é o estado do Amapá.

Moradores de Cachoeira do Arari, José, Dênis, Danusa e Renato divertem-se no Museu do Marajó, debaixo de um dicionário interativo


Museu de cacos

A Cachoeira do Arari se pode chegar de barco, como os antigos navegadores portugueses. Ou de avião, jipe, a cavalo ou montado em búfalo. Quando as chuvas cessam, em abril ou maio, chega-se até de carro, por uma estrada de terra de cerca de 70 km. São três horas de viagem (que incluem a travessia em balsa de dois rios) a partir de Soure, a capital informal da ilha.

  No município de pouco mais de 13 mil habitantes, próximo ao Lago Arari, há um museu, premiado no ano passado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). É um museu muito modesto nos recursos materiais. Mas surpreendente e inventivo, como a história da luta ingrata de seu criador, um ex-padre da Companhia de Jesus, pela preservação do patrimônio histórico e natural da ilha.

Giovanni Gallo, 71 anos, italiano naturalizado brasileiro (foto ao lado), começou juntando cacos desprezados da cerâmica produzida pela populosa civilização indígena que habitou a ilha. Em 1973, um amigo marajoara, Vadiquinho, lhe entregou um embrulho: Aqui estão uns negócios que não prestam, como o senhor gosta.

  Eram peças arqueológicas, pedaços de urnas, efígies, vasos, pratos e até tangas de cerâmica das índias marajoaras, vendidos por fazendeiros a museus estrangeiros e nacionais e disputados por arqueólogos. Todo mundo me dizia: Para que ter tanto trabalho com isso, Giovanni? Não presta para nada, recorda o ex-padre.

  Cachoeira é uma cidade de ruas calmas, casas de madeira sobre palafitas e uma praça com bar onde, no final da tarde, os moradores se reúnem para tomar cerveja e beliscar linguiça de búfalo. Reinam as histórias fantásticas dos pescadores, povoadas por espíritos das águas e jacarés.

  Além da cerâmica, os únicos vestígios dos índios aruãs possivelmente descritos pelo navegador Duarte Pacheco Pereira estão impressos nas feições fortes de cada caboclo do local, o curiboca.

OLHOS NOS DEDOS

  Jerônimo do Egito Barbosa, 36 anos, jurou um jacaré de morte. O animal ameaçou atacar seu irmão, e e ele agora está empenhado em pegar o bicho de 600 quilos. Depois de antecipar as mil peripécias fantásticas que fará, o pescador confessaÉ preciso muita coragem, e muita cana.

  Jerônimo nunca tinha ouvido falar da viagem de exploração portuguesa de 1498. Não era o único. Por ter chegado a território supostamente espanhol, Pacheco Pereira não tomou posse formal da terra.

  Deixou, porém, um relato emocionante na obra Esmeraldo de Situ Orbis, que escreveu entre 1505 e 1508 como uma carta ao rei de Portugal (Esmeraldo é uma combinação de Emmanuel e Eduardus, os nomes latinos do rei e do navegador. De Situ Orbis quer dizer dos lugares do mundo). O texto sumiu depois do terremoto de Lisboa em 1755. Reapareceu no século passado. O navegador conta que achou uma grande ilha, com outras adjacentes, descreve florestas e habitantes (ver trechos nesta e na página seguinte).

  Giovanni Gallo juntou pacientemente os cacos desses índios. Ao mobilizar a comunidade de Cachoeira para exibi-los, logo percebeu que o brasileiro tem os olhos na ponta dos dedos. Montou o museu de acordo com a descoberta. Para ser visto, quase tudo precisa ser tocado.

  Quem entra no prédio da antiga fábrica de óleos que abriga o Museu do Marajó tem de virar criança para aproveitar o museu (e quase todos os poucos visitantes viram). Levantam-se tampas de madeira, puxam-se pequenos cartazes pendurados por fios de náilon e aparece a História natural e cultural da ilha: animais empalhados (por Gallo e pelos ajudantes que formou no local), fotografias, peças de cerâmica marajoara, jornais que já circularam na cidade (hoje não há mais nenhum), maquetes de barcos e fazendas.

  Mas pouca gente chega lá. No período das chuvas, de novembro a abril, as estradas que cortam as fazendas e pelas quais, na seca, passam manadas de búfalos, submergem e se tornam vias navegáveis cheias de peixes. O Museu do Marajó fica semi-isolado como a cidadezinha que o abriga. Cachoeira não vai pra frente porque o rio barra e não cresce pra trás porque esbarra na cerca do latifúndio , resume Márcio Ronaldo Câmara, 30 anos, técnico em computadores desempregado.


 Muitos antigos disseram que, se alguma terra estivesse oriente e ocidente com outra terra, que ambas teriam o grau do Sol igualmente e tudo seria de uma qualidade. E quanto à igualdade do Sol é verdade; mas como quer que a majestade da grande natureza usa de grande variedade, em sua ordem, no criar e gerar das coisas, achamos, por experiência, que os homens deste promontório de Lopo Gonçalves e de toda a outra terra de Guiné são assaz negros, e as outras gentes que jazem além do mar Oceano ao ocidente são pardos quase brancos; e estas são as gentes que habitam na terra do Brasil... E que algum queria dizer que estes são guardados da quentura do Sol, por nesta região haver muitos arvoredos que lhe fazem sombra, e que, por isso, são quase alvos, digo, que se muitas árvores nesta terra há, que tantas e mais, tão espessas, há nesta parte oriental daquém do oceano de Guiné. E se disserem que estes daquém são negros porque andam nus e os outros são brancos porque andam vestidos, tanto privilégio deu a natureza a uns que a outros, porque todos andam segundo nasceram; assim que podemos dizer que o Sol não faz mais impressão a uns do que a outros. E agora é para saber se todos são da geração de Adão .Esmeraldo de Situ Orbis, manuscrito de Duarte Pacheco Pereira

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