Domingo, oito de março de 1500. Treze navios ancorados no meio das
águas escuras do Tejo. Hoje Portugal chorou o adeus ao comandante Pedro
Álvares Cabral. Logo cedo, uma manhã ensolarada de final de inverno,
os portugueses trocaram as ruelas mal calçadas de Lisboa pelas areias
da Praia do Restelo, no pequeno povoado de Belém. Queriam assistir ao
início desta aventura, a maior da história marítima européia. Por ordem
do rei dom Manoel, esta esquadra com 10 naus e três caravelas deverá
conquistar as Índias, seus mistérios e especiarias. A tripulação é uma
enormidade, 1 500 homens. Nesta frota, estão embarcados nada menos que
2,5% da população de Lisboa. Eles vão desafiar o Atlântico, seus ventos
e monstros. Não têm data de volta, nem garantia de retorno, tampouco
levam suas mulheres para aplacar a saudade.
Às nove horas, as trombetas anunciaram a chegada do cortejo real.
Dom Manoel, vestido de veludo e enfeitado de ouro, passou entre a multidão
que assistia ao desfile. O rei e seus cortesãos subiram os três degraus
da pequena ermida de São Jerônimo, caminharam sobre tapetes importados
do Oriente e postaram-se sob o dossel com cortinas de franjas, erguido
especialmente para a ocasião ao lado direito do altar. Ali, de pé, aguardava
Pedro Álvares Cabral. Ajoelhou-se e beijou as mãos do monarca, que lhe
convidou para sentar a seu lado durante a missa celebrada por dom Diogo
Ortiz, bispo de Ceuta, matemático e cosmógrafo nas horas vagas.
No sermão, à luz de tochas, o bispo falou sobre a importância da
viagem para a expansão do poder de Portugal na nova geografia do mundo.
Há doze anos, as grandes navegações lusitanas contornaram a África.
Há dois, chegaram às Índias. Os vizinhos e rivais espanhóis, há oito
anos, desembarcaram na América, liderados pelo genovês Cristovam Colombo.
Por fim, o bispo elogiou o passado do comandante Cabral e relevou
seu minguado currículo náutico e militar. De linhagem nobre, Cabral
pouco entende de mar. De guerra, consta apenas uma passagem-relâmpago
por duelos em Marrocos. Evidente que tal dupla carência de atributos
do comandante virou motivo de chacota e inveja na corte. Ninguém entende
porque ele, logo ele, foi o escolhido do rei. Mas deixemos a intriga
contra o chefe para outros capítulos deste diário de bordo.
Encerrado o discurso, o bispo derramou a água benta sobre a bandeira
da Ordem de Cristo, organização militar-religiosa nascida na Idade Média
e sempre presente nas expedições de conquista. Dom Ortiz tirou a bandeira
do altar e a entregou ao rei, que logo a repassou para os braços do
comandante. Cabral ajoelhou-se mais uma vez. Agora, para receber um
barrete vermelho, espécie de touca abençoada pelo papa Alexandre VI
e mandada de Roma a Lisboa. É o sinal de que a Igreja abençoa e aposta
nesta expedição. A tomada de novas terras significa também a conversão
dos espíritos infiéis de seus habitantes. Precisam ser catequizados.
Na cerimônia de hoje, as bênçãos foram para poucos. Só entraram na
igreja os nobres, os comandantes, alguns tripulantes ilustres e os investidores
estrangeiros que financiam a expedição. Lotaram a pequena capela de
São Jerônimo, construída na beira do Tejo, no início do século XV, por
ordem do infante dom Henrique, o príncipe que morreu há 40 anos e transformou
o mar na estrada das conquistas portuguesas. É o padrinho do século
das navegações.
Para a alegria do povo barrado à porta, a missa acabou numa procissão
até o porto do Restelo. Os plebeus aplaudiram: viam mais uma vez a nobreza
e os experientes aventureiros do mar. Muitos dos navegadores desta frota
já ocuparam postos de chefia em importantes expedições recentes, como
a de Vasco da Gama, em 1498, e a de Bartolomeu Dias, em 1487.
A multidão acompanhou o desfile dos ilustres até a estreita faixa
de areia da chamada Praia do Restelo e apelidada de Praia da Saudade.
‘‘É a praia das lágrimas para os que vão, e terra do prazer para os
que vêm’’, costuma dizer João de Barros, o cronista real, que sempre
aparece na Ribeira das Naus para assistir ao teatro das despedidas.
Na areia, mulheres vestidas de negro choravam enquanto músicos tocavam
gaitas, pandeiros e flautas. Nas águas, pequenos barcos, os batéis,
enfeitados com bandeirolas, coloriam o rio. Parecia um campo de flores.
Os barqueiros, usando os librés (uniformes reais), levavam marinheiros
e cargas das margens até os navios ancorados. Carregavam de tudo, galinhas
e barras de ouro, gaitas e moedas.
Toda essa quinquilharia não é apenas para o consumo dos tripulantes.
Tem valor político. O rei mandou entulhar os barcos com presentes para
os rajás indianos. Quer convencê-los de que Portugal é um reino pequenino,
porém rico, e que por isso vale a pena abandonar o comércio com os mouros
e negociar apenas com os lusitanos.
No final da manhã, a música silenciou para a hora do adeus. Cabral
ajoelhou-se aos pés de dom Manoel. Os outros comandantes o imitaram.
Sobre suas cabeças, o rei fez o sinal da cruz, a bênção final. Os marinheiros
comemoraram com uma saudação guerreira e alegre. Os viajantes entraram
nos batéis e, mais adiante, subiram aos navios. Da proa, o contramestre
apitou autorizando que as velas, enfeitadas com as cruzes vermelhas
da Ordem de Cristo, fossem içadas.
Mas o mar cometeu sua primeira traição. Do sul, chegaram ventos sacudidos
e finos que adiaram o começo da viagem. Navegar no Atlântico, só amanhã.
Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio