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BRASIL 500
ANOS: O DIÁRIO DA VIAGEM
O mundo na época: O mar tenebroso
Era preciso vencer Netuno, o deus do
mar. Era preciso vencer o mar. Mas o que era o mar? O imenso Mar Oceano?
O que era o mar tenebroso, na expressão do infante dom Henrique? O que
era essa vastidão de águas? Em 1494, Cristovam Colombo voltara dos mares
que banham a América com uma ponta de decepção: não encontrara nenhuma
criatura estranha, nem quimeras, nem acéfalos, nem dragões. No imaginário
do século XV, o mar era a fronteira mais temida do mundo conhecido.
Era mistério e enigma, gigante que não se sabia ao certo onde terminava.
Na época, os povos europeus conheciam
os mares interiores, como o Mediterrâneo. Costumavam atravessá-lo, mas
sempre rapidamente, como quem não quer abrir a guarda aos devaneios
marinhos. Nunca viram no Mediterrâneo nada do que essa imaginação apocalíptica
propunha. Mas o que dizer do mar aberto, do Mar Oceano? Do vasto Atlântico?
Na era medieval, consolidara-se, nos meios popular e erudito, a idéia
de que o mar procriava sem cessar. As sementes caíam do éter com a chuva
e, arremessadas pelo vento, revoltas pelas ondas, acabavam se misturando
umas às outras, gerando seres fabulosos e exóticos.
Daí porque, até a era das navegações,
o mar conservou-se como um cenário caótico e inumano. Aos poucos, devido
à rivalidade com a Espanha, Portugal voltou-se para o mar, querendo
descobrir e tomar posse de novos territórios. Os portugueses, que antes
só tinham olhos para a Ásia, aventuraram-se Atlântico adentro. Chegaram
à ilha da Madeira, à ilha dos Açores. Em seguida, aportaram em Cabo
Verde, São Tomé e Príncipe. Até que Bartolomeu Dias chegou ao Cabo das
Tormentas (1487), hoje chamado de Cabo da Boa Esperança, e Vasco da
Gama encontrou o caminho marítimo para as Índias (1498), contornando
o sul da África. Começava o período áureo do imperialismo português.
Diante das descobertas portuguesas, alguns
historiadores entendem que, no final do século XV, quando o Brasil seria
descoberto, os portugueses já não temiam o mar. Certamente, o temor
era menor que antes, mas nada indica que estivesse eliminado. Tanto
que Colombo, um genovês que viveu entre os portugueses no auge dos descobrimentos
marítimos, pensava ter navegado sobre o templo dos monstros. A percepção
do mar, na época, ainda oscilava. Ora era um território sagrado, um
desafio pacífico e sereno explorado por santos. Ora, num resquício do
antigo ideário medieval, o mar recuperava seu caráter diabólico, emissário
da barbárie, de onde chegavam os invasores infiéis, os saqueadores muçulmanos.
Em Os Lusíadas, publicado 72 anos depois
da descoberta do Brasil, Luís de Camões trabalha com essa visão ao mesmo
tempo divina e demoníaca do mar. No poema, o mar é morada de deuses
e nereidas, mas também do Gigante Adamastor, figura descomunal que serve
de alegoria dos perigos do oceano. E o heroismo dos portugueses, exaltado
por Camões no tom apologético próprio das epopéias, consiste em desafiar
e vencer o mar. Começava-se, então, a sepultar os valores medievais
da nobreza fundiária para substituí-la por uma burguesia comercial nascente.
O mar nunca mais voltaria a ser domínio de seres excessivos do bestiário
clássico. Netuno, enfim, obedecera aos lusitanos.
- André Petry, da equipe do Correio
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