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BRASIL 500 ANOS: O DÉCIMO DIA DA VIAGEM

Nau dos enfermos

A 100 quilômetros das Canárias, Cabral sente terríveis dores de cabeça. É a malária. Com a chegada do escorbuto, os barcos parecem hospitais. Como era a medicina no século XV

Ilustração em pergaminho e papel, sem autor, de 1502: a morte ronda os marinheiros

Terça-feira, 17 de março de 1500. A frota está a mais de 100 quilômetros das Canárias, mas não há previsões para a chegada a Cabo Verde. Os barcos estão no rumo oeste, empurrados pelos ventos alísios que agora começaram a soprar. Foram os alísios que há oito anos levaram Cristovam Colombo à América.

  Pedro Álvares Cabral não está bem. Sofre de febre tersã, a chamada malária. Pegou em 1487 quando viajou para guerrear no Marrocos. Passados treze anos de sua primeira crise, Cabral ainda é acometido de tremores e dores de cabeça terríveis.

  Os barcos parecem hospitais. Há doentes por toda parte. Sofrem com diarréia, urticárias, doenças pulmonares, subnutrição, piolhos e febres. As precárias condições de higiene facilitam o contágio. Epidemias são constantes, chegam a dizimar 60% da tripulação das esquadras. A enfermidade mais comum é também a mais grave: o escorbuto, ou o mal das gengivas, como dizem os marinheiros. É causado pela falta de vitamina C, costuma aparecer depois de 70 dias em alto-mar e é agravado pela falta de higiene.

   Os sintomas são asquerosos. Nascem edemas nas coxas, pernas, faces e garganta. Dá mau hálito. As gengivas escurecem, a carne solta e os dentes amolecem. Os pulmões secam e se encolhem, o fígado e o baço aumentam. Os doentes se enervam, desmaiam. Morrem rapidamente. O contágio é rápido, há notícias de frotas inteiras devoradas pelo escorbuto.

  O tratamento é grotesco. Corta-se com faca quente pedaços da carne podre da gengiva. De quase nada adianta. A medicina européia não sabe que dietas ricas em vitamina C acabam com o escorbuto. Como já dissemos neste diário, nesta frota não há um único limão nem uma única laranja. (Só no século XVIII, o almirante inglês James Cook iria relacionar a vitamina C com a doença.) Nisso, os navegadores chineses estão mais avançados. Desde o século XV, carregam frutas frescas e legumes nos barcos para afastar o mal das gengivas.

  Na Carreira das Índias, o corpo padece com as mudanças climáticas. Na região intertropical, os marinheiros sentem dores de cabeça, atribuídas ao cheiro do alcatrão e da pez dos cordames e madeiras. Depois de passar pelas Canárias e Cabo Verde, já na área das altas temperaturas equatoriais, a febre é corriqueira. ‘‘O clima é o grande responsável: maus cheiros, corrupção da água, dos víveres, epidemias, escorbuto, tudo lhe é atribuído. Os marinheiros não têm roupa para mudar, não conseguem ficar secos mais de três horas’’, anotaria francês Pyrard de Laval, em 1601, ao navegar para as Índias.

  A diarréia é outro tormento nos navios. Nesta frota, como em todas as outras, a água está podre e cheira mal. É guardada em tonéis de madeira, corrompidos pelo clima e enfestados de bactérias. Os marinheiros vivem nos banheiros, se é que se pode chamar assim as latrinas do convés.

  Toda esquadra tem seu médico, na maioria das vezes é um cirurgião, na pior das hipóteses um barbeiro. Nesta frota, quem socorre os enfermos é mestre João, cirurgião real e astrônomo. Viaja na nau-capitânia junto com padres que fazem as vezes de enfermeiros. Há também uma farmácia, de remédios caseiros, ungüentos e loções. As técnicas de cura são violentas: sangrias e purgas. Um mesmo marinheiro é sangrado até dez vezes durante uma única viagem. Se morrem ficam estendidos no convés até que alguém jogue o corpo no cemitério dos marinheiros: o mar.

( * ) Ana Beatriz Magno, da equipe do Correio

‘‘O escorbuto é doença muito comum ao longo da viagem. Ela aparece ordinariamente por causa da longa permanência no mar sem tocar terra, e também por falta de lavar-se, de limpar-se e de mudar de roupas. Os que são supreendidos por ele se tornam inchados como hidrópicos, e o edema é duro como madeira, principalmente nas coxas e pernas, nas faces e nas gargantas, e tudo isso fica coberto de sangue pisado de cor lívida e plúmbea, assim como de tumores e contusões que tornam os músculos e os nervos rígidos e paralisados. As gengivas ficam ulceradas e negras, a carne solta, e os dentes abalados e deslocados, como se estivessem presos a muito pouca coisa, e a maior parte deles cai. Com isso, um hálito tão infecto e fétido que impede a aproximação, pois é sentido de uma extremidade a outra do navio. Além disso, essa doença torna o enfermo tão obstinado e estranho que tudo lhe desagrada. Alguns morrem em poucos dias, outros duram mais tempo. Têm cor pálida e amarelada. Quando estávamos na ilha de São Lourenço morreram três ou quatro dos nossos, dessa doença, e quando lhes abriram a cabeça, acharam seu cérebro negro, deteriorado e putrefato...É uma coisa terrível ver os grandes pedaços de carne apodrecida que é preciso cortar das gengivas.’’
Pyrard de Laval, 1601.






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